domingo, 8 de março de 2026

La Rochelle, cidade favorita e com herança Hanseática



Estivemos duas vezes em La Rochelle, em 2011 e em 2014, sempre de passagem para a ilha de Ré. É uma cidade pequena, cómoda para conhecer a pé (plana), com ruas tranquilas de aparência mediterrânica, algumas pedonais, muitas ladeadas de arcadas; vive-se a História nas pedras e nos espaços.


La Rochelle é sobretudo uma cidade muito aberta ao mar, em torno do Vieux Port, num cenário vasto, de largos horizontes e enquadramento arquitectónico admirável.


É particularmente interessante constatar da relevância que teve nos tempos da Liga Hanseática, por causa das salinas; era um porto muito demandado pelos navios da Hansa. E até se consegue encontrar identificar uma casa de empena escalonada, arquitectura típica das cidades da Liga. De Lübeck, de Bergen, de Bruges, Hambourg, Antuérpia ou Amsterdão, chegavam navios para carregar sal e vinho, as produções mais exportadas. La Rochelle foi o único entreposto hanseático francês, e também o única da costa Atlântica.

Foi também, mais tarde, com a presença francesa no Canadá, um porto intensamente voltado às Américas: de lá vinham peles, e das Antilhas o açúcar, lamentavelmente um produto do trabalho de escravos africanos. A situação de La Rochelle é única como nó comercial aberto a quatro mares: Atlântico Sul (África), Mediterrâneo , Mar do Norte (Europa / Hansa) e Atlântico Norte (Canadá e Antilhas). Mais globalizado não deve haver.

Rue do Palais, talvez a mais bonita do centro antigo.

História

A aldeia de pescadores fundada ainda no século X começa a tornar-se um porto importante com o fim do feudalismo, no século XII. Em 1196, o armador local Alexandre Aufrédy envia uma frota de 6 navios para as costas africanas, carregados de sal e vinhos. Os anos passavam e os navios nunca mais regressavam. Em 1203, quando já estava na miséria com todos os seus bens vendidos para pagar dívidas, a frota regressou inesperadamente carregada de ouro, marfim, especiarias e madeiras preciosas, e assim refez a fortuna de Aufrédy. 

Nesses anos o comércio naval em La Rochelle atinge o apogeu, e continuará por mais dois séculos. Era ponto de passagem obrigatório dos cruzados Templários,. a sua cidade no Atlântico. Durante algum tempo só a repetida ameaça de invasão inglesa prejudicava o negócio; a cidade chegou a estar duas vezes sujeita à coroa britânica. A construção das Torres de defesa do porto garantiu a segurança do tráfego naval intenso proveniente da Liga Hanseática.

A Câmara (Hotel de Ville) de 1298; gótico flamejante, com acrescentos renascentistas e campanário do séc .XIX 

Nos século XVII e XVIII, a geografia económica muda: os negócio voltam-se para as Américas, o Novo Mundo, a Nova França, e a cidade retoma com fulgor a actividade comercial marítima. Em 1694, o açúcar, café e tabaco das Antilhas e as peles do Canadá enriquecem os comerciantes e a cidade, que ganha uma intensa vida social e cultural.

La Rochelle em 1762 (detalhe)

O pior vem com a 2ª Grande Guerra: os ocupantes alemães constroem uma base de submarinos camuflada, e a cidade será uma das últimas bolsas de resistência nazis. Contudo a Cidade Antiga não sofreu grandes prejuízos, é um gosto visitá-la.

As Torres

As imponentes Portas de La Rochelle: as torres defensivas de La Chaîne e Saint Nicolas.

 


Tour Saint-Nicolas

Uma fortaleza sim, mas inclinada...

A torre de S. Nicolau é uma fortaleza onde a arquitectura militar defensiva integra a função residencial. Construída em 1376, com 42 metros, é um labirinto de galerias e salas à volta de um imenso volume cilíndrico de espessas paredes. Inclui quatro torreões e um caminho de ronda com matacães. A residência do Capitão inclui ainda uma capela.

Um navio mercante medieval, baixo relevo  a entrada da torre.

Não se dá facimente conta, mas está inclinada desde a construção, e tem alguma oscilação que obrigou a instalar escoras de aço.

Tour de la Chaîne

Mais modesta, a Torre do Cadeado foi construída para se conjugar com a de S. Nicolau num poderoso sistema defensivo da cidade; acabada em 1390, alojava o capitão do porto nas suas funções de cobrar as taxas portuárias e de fechar a entrada do porto, esticando um cadeado preso à Torre de S Nicolau ao nível do rés-do-chão.

A Torre e a casamata onde o cadeado ia prender.



Tour de la Lanterne

A Torre da Lanterna é a mais alta das três, com 75 metros, e a mais tardia, de 1468. Serrve como farol mas também como ponto de referência, a primeira vista da cidade para quem vem do mar alto. 


Rue Saint Jean de Pérot, onde se concentram restaurantes e bares.



A Porta do Relógio Grande

Desta Porta da antiga muralha medieval irradiam os cais e as vias históricas. 


Data do século XII, dá passagem do Vieux Port para a Cidade Antiga, abrindo na rue du Palais.

Porte de la Grosse Horloge

As arcadas

Logo depois do Grand Horloge, seguindo em frente, percorre-se um dos eixos principais da cidade, ladeado por passeios sob arcadas: Rue du PalaisRue du Chaudrier até à Place Verdun.

Um cruzamento com patine, em que a rue du Palais se prolonga como rue Chaudrier.


É na rue du Palais que ficam as Galerias Lafayette, o grande armazém de França.



'La Maison au chien', no nº1 da rue du Chaudrier :


A casa pertenceu ao maire de La Rochelle.


A Rue du Chaudrier é a continuação da via principal que liga o Grand Horloge à Praça de Verdun.

16-18 rue du Chaudrier, casa do sec. XVII

22 rue du Chaudrier

La Pain Beurre, artisan boulanger, 18 rue du Chaudrier

Café de la Paix

Place Verdun

Criado em 1793, classificado monumento histórico desde 1984.






Uma casa com empena em degraus pode ser avistada no lado oposto da Praça de Verdun, nº 28.



Esta arquitectura é típica da arquitectura flamenga das cidades do Mar do Norte com que La Rochelle comerciava nos séculos XIII-XIV.

Por todo o centro antigo, são quilómetros de arcadas. A rue du Minage, acima da Praça, é das mais bonitas e  bem conservadas.

Que arzinho mediterrânico, parece Génova ou uma cidade do Adriático...


Na Idade Média, a Rue des Merciers era uma mercado de tecidos e roupas, produtos alimentares e utensílios, o centro de comércio mais animado na vila medieval. 


Famosa até  ao séc. XVIII pelas lojas de tecidos - da Flandres, de Inglaterra - e tecelões.




Provavelmente, a rua que se mantém mais autêntica é a Rue de l'Escale, com o 'extra' do ainda conservar parte do empedrado original com seixos negros arredondados provenientes ... da Escandinávia. 


Eram usados como lastro para os navios que vinham do Norte da Europa carregar vinho e sal.

Os rectângulos escuros são pedras nórdicas trazidas por navios da Hansa.


Quais du Vieux Port

Mas para nós La Rochelle foi sobretudo o périplo dos cais à volta do porto. Não sei se haverá outra cidade com um cenário de porto tão deslumbrante e luminoso, que não apetece abandonar. 



Phare du Quai Valin , 1852, uma torre octogonal de pedra branca polida. É um farol automático, de luz verde, que se alinha com outro farol, vermelho, à entrada do Vieux Port.




Há muito mais em La Rochelle; museus, por exemplo, ou a igreja de St. Sauveur; não são imperdíveis, os museus são pobres e a catedral, enxerto de várias épocas, tão flamejante como deselegante. Fiquemos antes pelo fenomenal portal de entrada do Vieux Port.










domingo, 1 de março de 2026

"Orkney" de Amy Sackville, escrita criativa primorosa.


Finalmente ! Um daqueles raríssimos livros inclassificáveis - nem thriller, nem psicológico, nem novela, nem relato de viagem, mas tudo isso! - escrito de forma magistral, num inglês criativo riquíssimo de expressões e vocabulário, fluente mas não linear, onde se sugere tanto ou mais do que se narra ou se descreve e os diálogos surgem imprevisíveis, semeados de alusões misteriosas.

Só agora acabei as 250 páginas em letra miudinha desta 2ª obra de Amy Sackville. Não conseguia parar, é um livro para se viver intensamente e que no final deixa uma sensação de perda real, perturbante. Um livro estranho em tudo - personagens, locais, situações. Justificam-se os elogios no Times (Sackville's second novel is poetic, dreamlike and beautufully written), no New York Times (masterfully self-contained). 

Não quero resumir de forma a estragar a leitura de quem decida ler, portanto sendo o mais vago possível: Phillip, um professor universitário (talvez Cambridge) às portas da reforma, pelos seus 60 portanto, deixa-se envolver intensamente com uma aluna de literatura nos 20 e pouco. A iniciativa é mútua, não há um sedutor e um seduzido, a jovem talvez seja até um pouco mais atrevida e insistente. Casam ! E a promessa para o dia seguinte é ele levá-la para um sítio onde esteja a sós com o mar. As ilhas Orkney. 

Vão de núpcias para Westray, uma das Orkney setentrionais. A obsessão dela (o nome nunca é referido) pelo mar, desde o primeiro dia na casinha de pedra na praia, é a parte 'thriller psicológico' do livro, é um enigma que vai abarcando tudo na vida diária do casal. Amy Sackville narra esses dias com mestria, com detalhes brilhantes nas falas, nas descrições, e sobretudo nos pensamentos cada vez mais tempestuosos do professor que a escritora incarna como narrador, tanto extasiado como perplexo com a companheira. O pai dela fora pescador nesta ilha, ter-se-á afogado, há aqui qualquer coisa de tragédia sob as águas.

Extractos ( já se sabe que a tradução dá cabo da riqueza do texto) :

Where shall I take you, I asked, when we are wed? ‘The sea,’ she answered. ‘Will you take me to the sea?’


Está de olhar fixo ao longe quando a água lhe chega aos pés e ela recua, e quando a suave e insistente sucção da maré vem tão perto que lhe sorve os dedos ela arrasta-se a subir praia acima.

Voltou enregelada pela maresia que senti eu na face, para compensar. E acariciou esta sombra raivosa que às cinco desce sobre mim, urso velho e grisalho que sou. O cheiro de ar encharcado impregnava-a. Uma vibração no crepúsculo em volta dela, uma cintilação profunda, brilhante, não visível.

A ventania nocturna

O vendaval galopou pela noite, ao longo de toda a costa, chicoteando o mar e acumulando nuvens roxas de chuva que correm para o interior; nunca abrandou durante as horas mais negras. Chamam a este vento ' skreever', disseram-me, nome para algum demónio - e é mesmo assim como soa. Coisa de tempos remotos, com asas esfrangalhadas e a uivar, a rasgar e lacerar a urze seca e despida.

Bufava e assobiava à volta das paredes da nossa casota de pedra, e arranhava lá dentro, em cada recanto, à procura, como um intruso furtivo volteando as páginas sem parar e remexendo cada greta e cada mossa, relinchando em cada brecha, à procura, à procura, frenético, minucioso, implacável; desalojando as aranhas que se agarravam teimosamente às traves e observando como as teias se rompiam; respirando sobre a última centelha das brasas antes de se lançar pela chaminé acima numa onda de cinzas.

O céu

O céu pervinca, com um esboço de nuvens de grafite, o mais leve vestígio de lápis; lilás onde se encontra com o mar, aprofundando-se até ao ápice, azul-mexilhão. Esta foi dela. Estou a tentar ouvir a voz dela a dizer. Azul da Prússia. Tinta-da-China. Índigo... 'Azul para dormir, Richard ', diz ela. Azul para dormir. (*)

É azul celeste, é ametista, é preto, equimose, púrpura sangue, granada, sereno sem ondas, inofensivo, ou aguardando a hora certa. Está uma noite clara, hoje. O suave apagar ao anoitecer, todos os antigos fantasmas mortos das estrelas, perturbando o céu claro, a luzir contra a escuridão em 'glimmerans'. A fantástica palavra dos ​​ilhéus para crepúsculo. Como ela iria adorar isto.


The latch lifts




No.




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É possível achar livro chato, repetitivo ou obsessivo. Não me admirava que alguém me viesse dizer Ó, não é nada de especial. Pois eu gostei tanto da escrita fluída, expressiva e exuberante que nem dei conta dos defeitos possíveis.

(*) "Bedtime blue", com o duplo significado de blue (azul, melancolia)

domingo, 22 de fevereiro de 2026

Arte Gótica e Renascença no Museu de Cleveland

 

Saudades das visitas a museus por essa Europa...

Entretanto descobri que há uma fabulosa colecção de Arte Antiga europeia no Museu de Cleveland, Ohio. Como se apropriaram, é coisa de coleccionadores privados e muito dinheiro, poucas vergonhas do mercado da arte, chocante talvez mas a Europa fez o mesmo; pelo menos estão em boas mãos agora, parece, pelo prestígio que a colecção adquiriu.


O edifício original, desenhado pelos arquitectos Hubbell e Benes, é um neo-clássico de 1916, com uma fachada neo-clássica "Beaux-Arts" em mármore da Geórgia. Em  1927 foi instalada uma fonte também revivalista nos jardins em frente.

Fountain of the Waters, de Chester Beach, 1927: rios que abrem nos Grandes Lagos.

Entrando, vamos a direito à Europa Medieval, a galeria 106C. Começo pelo 1º século - joalharia.

Fibulae (Franca e Alemânica), séc I , ca. 500

Do Tesouro Welph (Saxónia) o museu tem 9 peças !

Altar portátil da condessa Gertrud de Brunswick, românico, 1045, Tesouro Welph (ou 'dos Guelfos')

Estas peças vieram da Catedral de Brunswick. A maioria do tesouro foi saqueada pela Alemanha nazi em 1935, mas as que estão no Museu de Cleveland escaparam a essa má sorte. 

Braço Relicário de S Sigismundo, ca. 1190 (românico, Tesouro Guelph). Prata sobre madeira de carvalho. 

Cofre relicário, 1200, Limoges

A Virgem e o Menino, c. 1150–1200, Auvergne, escultura em madeira. Magnífica!

Martírio de S Lourenço, baixa Saxónia, ca. 1180, românico. Placa em cobre dourado e esmalte 'champlevé'.

É só uma amostra, e ainda no século XII. Que Museu !

Pyx (píxide) de Limoges, 1245, gótico

Placa decorativa quadrilobada gótica, França, 1280 - técnica 'émail de plique' .

Uma das obras imperdíveis:

Ugolino di Nerio, altar em tempera e ouro sobre madeira, 1320

Painel tumular de marfim, 1350, gótico

Gherardo Starnina, Florença, 1395 - gótico

Starnina foi um génio da transição gótico-renascimento, pintor de obras-primas lindíssimas. Como é que o museu americano, de segunda ordem, 'surripiou' tanta obra europeia?

Jessé reclinado, de Veit Stoss, madeira de tília, gótico tardio do séc XV. 

 A corrida do Palio nas ruas de Florença, painel de um baú em madeira, 1418

Fra Angelico, ca. 1420-30, Renascimento

Ícone Bizantino, 
Constantinopla, ouro e têmpera sobre madeira, 1450 (antes da queda)

Dois painéis de Filipo Lippi, 1457

E este Botticelli

Madonna con Bambino e San Giovanni Battista, Botticelli, 1490

Inacreditável.

Escultura em alabastro de Gil de Siloé, escultor do gótico tardio espanhol (gótico isabelino), séc XV

Livro de Horas de Isabel de Espanha, ca. 1500


Após 1500 já estamos em pleno Renascimento, a colecção não é tão .... mas ainda assim...

Retrato de Mulher, Andrea del Sarto, Florença, 1518

Andrea del Sarto (1486-1530) seria venerado como um dos maiores génios do Renascimento se não tivesse sido ofuscado por Rafael, Michelangelo, da Vinci. Tem uma Última Ceia (*) esplendorosa.

Sansão e Dalila, 1616, Gerrit van Honthorst (Gherardo delle Notti) - que rostos !

E termino com um admirável retrato de Van Dyck, já do barroco:

Retrato de uma jovem Genovesa, Van Dyck, 1623


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Cleveland, Ohio ? Não há direito. Isto é nosso. 




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(*) Ver aqui.