quinta-feira, 16 de abril de 2015

Bryan Hymel, tenor


Finalmente um tenor de jeito ?

Bryan Hymel (n. 1979) foi de New Orleans para o MET. Estreou-se no Covent Garden, no papel de Eneias (de Les Troyens de Berlioz), Eneias esse que também o levou ao MET, e até agora é o seu maior sucesso.

Obteve em 2013 o The Laurence Olivier Award for Outstanding Achievement in Opera, prémio a que só os melhores acedem (recentemente, Joyce DiDonato e Jonas Kaufmann por exemplo).

Um sotaquezito mal dominado no francês, é verdade, que talvez melhore com o tempo. Mas ainda me lembro do Pavarotti a cantar francês.

'Je veux encore entendre ta voix' da Jérusalem de  Giuseppe Verdi:

 - ária aos 2:20 -

Je veux encore entendre 
ta voix, ta voix si tendre.
Pour fuir, il faut attendre
les ombres du soir.
Ange, vers qui s’envole 
mon rêve d’espoir!
Ah, bel ange, mon idole,
je veux encore te voir!


Também gosto de o ouvir neste 'Asyle Hereditaire' do Guilherme Tell:




segunda-feira, 13 de abril de 2015

Hummel, para piano e violino, op. 17


Voltando à música: cá está uma grande obra injustiçada. Um concerto para dois instrumentos solistas não é para qualquer um. Mozart fez um (flauta e harpa), Beethoven atreveu-se mesmo até três instrumentos (triplo concerto), Brahms tem um duplo mas menos conseguido. Johann Nepomuk Hummel, aluno de Mozart, era contemporâneo e amigo de Beethoven, e um compositor meritório prejudicado pelo brilho maior do genial colega. Mas este concerto é extraordinário, de uma escrita muito burilada e bem conseguida mesmo que sem grande complexidade. Falta-lhe em emoção e intensidade (nisso Beethoven é inexcedível) o que lhe sobra em técnica e muito trabalho. Se fosse necessário, bastavam estes dois para provar que Arte é trabalho, sim, mas não só - não só de modo nenhum.

O que Hummel consegue no 'duplo concerto' op. 17 de 1805 é um contagiante, agradável, requintado divertimento. É um gosto com sorriso ouvir o diálogo entre piano e violino esculpido e rendilhado em múltiplas variações, com muita mestria na parte de piano. No fundo, mais próximo da música antiga que da romântica. Soa imenso a Beethoven mas de forma mais académica (brilhantemente académica), prazenteira, como se nos estivesse a dizer 'olhem como eu me divirto a compor, olhem que voltas eu dou à música, olhem como eu  gozo a variar mais um bocadinho'.

Se o inicial Allegro já é admirável, o Andante é talvez um ponto alto, com o tema a ser desenvolvido em seis variações pelos dois solistas, mas não só - há pequenos apontamentos de oboé, violoncelo e trompa, num inesgotável fluxo de ideias decorativas, como se diz no livrito do CD. As ressonâncias mozartianas entrelaçam-se de forma engraçada com as beethovenianas.

Porque não é tocada esta obra em concerto? Sobretudo porque precisa de dois solistas, o que sai caro, e de ser bastante ensaiada. Com a sua meia hora, ocupa uma das partes do concerto. Seria ideal para complementar o triplo de Beethoven.


London Mozart Players
Dir. e piano: Howard Shelley
Hagai Shaham, violino

I. Allegro con brio 00:00
II. Theme & Variations: Andante con moto 14:17
III. Rondo 23:58



sexta-feira, 10 de abril de 2015

Valencia III :
Das Águas e do Graal.


Dois em um, neste post, para acabar a reportagem.
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Há nas ruas pedonais do centro de Valencia um percurso artístico-patrimonial pintado a branco no chão, para orientar visitantes a pé ou ciclistas. Uma das paragens ficava mesmo em frente à minha varanda de hotel - o Palácio dos Marqueses de Dos Aguas.



No Palácio funciona agora o Museu de Cerâmica.

A porta mais fotografada da cidade.

Uma janela como eu a via da varanda.


 
                     Da exibição, dois pratos de que gostei particularmente.

E uma fonte mesmo ao lado. Um recanto com ar 'italiano'.


As águas foram sempre uma questão vital nesta região. Ao ponto de existir um Tribunal das Águas desde a presença árabe ( talvez desde 960 DC), e que ainda reúne por tradição (quere merecer atenção da UNESCO).


Às quintas-feiras, nas escadas da Catedral (Porta dos Apóstolos), pontualmente ao tocar meio-dia no sino da Torre do Miguelete.

A chamada do Alguacil, que lembra o "town cryer" inglês.

Encarregado de dirimir os conflitos derivados do uso da água de rega entre os agricultores da Comunidades de Regantes, o Tribunal funciona a partir das queixas que podem ser de um denunciante ou do próprio alguacil.

O símbolo do tribunal, um bastão com foice ('gancho') que servia para desentupir os canais de rega.

Ao que parece é caso único na Europa, um tribunal camponês que funciona em auto-gestão e garante o acordo final entre as partes.

Está em curso uma campanha para a classificação como Património da Humanidade.

Mesmo ao lado, em frente à Basílica, uma magnífica fonte ao estilo italiano representa o rio Túria - um homem recostado - e os seus oito canais de rega, oito jovens camponesas, cada uma com o seu cântaro a jorrar água.

Fonte do Tribunal de las Aguas, ou Fonte do Túria.


Mais aqui ou em
http://www.tribunaldelasaguas.org/en/




O Graal.

O Museo Almudin (armazém do séc XIV), onde está a exposição sobre o Graal.

Confesso a minha profunda ignorância em questões bíblicas e também na gesta medieval, cavaleiresca e depois wagneriana do Graal. Do que li, julgava o Graal um objecto místico, de culto esotérico, quando muito desaparecido se alguma vez sequer existiu. Mas eis que deparo no medieval Museo Almudin com uma bela exposição, muito documentada, a reivindicar que o verdadeiro cálice sagrado está ali mesmo, ao lado, na Catedral de Valencia !  Será bairrismo histórico duvidoso, ou coisa para levar a sério ?

No chão, o percurso artístico conduz á entrada.

A verdade é que dá gosto ver a exposição - até repeti duas vezes. E depois fui ver o Graal! Ah cavaleiros Templários, tenho mais sorte que vós.

Uma esplêndida tapeçaria da Última Ceia logo a abrir.

Pinturas medievais.

Cálices para todos os gostos, de várias proveniências ibéricas.

Não, ainda não é nenhum destes !

É
          Este ! (réplica)
Taça em ágata carneliana, sem decoração, datada entre  I AC e II DC, na região entre Síria e Egipto.

Resumo dos textos da exposição: De Jerusalém terá passado no séc. I a Antioquia e depois a Roma, onde foi utilizado até Sixto II. Em 258, Valeriano proíbe o culto cristão. O cálice é enviado para Huesca, e a partir do séc. VIII anda a escapar aos mouros pelos Pirinéus aragoneses, de mosteiro em mosteiro. Só em 1399 volta a ser mencionado como estando na posse dos monjes de San Juan de la Peña,
perto de Huesca. É trasladado para Saragoza, onde vai fazer parte do relicário real ; depois para Barcelona, onde é recuperado pelo rei Afonso V que o leva para Valência, sendo definitivamente depositado na Catedral em 1437. Mas várias vezes voltaria a sair temporariamente - nas guerras napoleónicas, na guerra civil espanhola , ou a pedido de alguns Papas.

A taça chegou até nós luxuosamente montada numa base constituída por outra taça invertida em calcedónia, decorada com 28 pérolas 2 rubis e 2 esmeraldas, revestida a ouro, do séc. XI. Assim:


Eis o Graal, réplica do que está guardado na Catedral de Valência :


Está (estará?) na Capilla del Santo Caliz:



Assim atestam respeitáveis calhamaços. Gostaria de saber mais sobre a autenticidade histórica...

D. Antonio Beltrán, “El Sangrado Cáliz", a principal fonte da tese valenciana.

Por mim, aprecio mais um copo de delicioso sumo de laranja valenciana, de preferência na Plaza de la Reina. Ou mesmo, apenas, um copinho de água da fonte do Túria.