sexta-feira, 19 de maio de 2017

Oxford 2 - Pictures at the Ashmolean


Os dois grandes museus ingleses fora de Londres são o Fitzwilliam de Cambridge e o Ashmolean de Oxford.  Desta vez pensei que o visitaria demoradamente, mas tem tantas secções e galerias que dava para três dias; de modo que me fiquei pela pintura, e preferi ver e rever favoritos.


'Admission Free', excelente ! O lado mau é que o museu fecha cedo (16.30) e o estacionamento é um pavor - 5 libras para 2 horas, lá tive de pagar 10 £. Pelo menos fiquei próximo. Lá no alto, no terraço, tem um restaurante panorâmico luxuoso, subi, vi as vistas e desci à pintura europeia.

Ia desejoso, sobretudo, da cena de Caça na Floresta (Caccia Notturna) de Ucello. Não me lembrei de que está coberta de vidro, uma pena por causa dos reflexos. É uma obra fantástica, com um desenho invulgar, tão rica de detalhe e de cor como de estrutura formal - todos, homens e animais, convergem para um ponto de fuga ao centro da floresta. Esta obra é provavelmente a mais valiosa do museu.

"Caccia Notturna", 1470; as manchas azuis são résteas de luz crepuscular.

"O efeito geral é irreal e onírico, devido ao esquematismo dos figurantes, do colorido plano que faz ressaltar as silhuetas, das atitudes forçadas e repetidas que lembram uma sequência de bailado. É uma arte de mediação entre o renascimento e a tradição gótica".

Detalhes:

Nos panejamentos dos cavalos notam-se crescentes (cornos), símbolos de Diana, deusa da caça.

O centro da floresta é como um atractor caótico, um vórtice que suga as personagens de forma cada vez mais desenfreada. O animal a caçar - corça ou javali ? - não se vê, como se fosse o "buraco negro" desta cosmogonia.


Mesmo ao lado, o célebre Ghirlandaio, "Retrato de um Jovem" (c. 1480), que figurava nos manuais de História, penso.



Outra preciosidade florentina: "S. Nicolau de Bari acalmando a tempestade", de 1433-35, uma composição invulgar de Bicci di Lorenzo.


A dinâmica de linhas curvas num sentido e no outro:



Avançando nos séculos, deste Renoir pouco há a dizer; é uma obra menor, mas que beleza...

"Nos Jardins de Montmartre", 1895

O mesmo de Toulouse-Lautrec:
La Toilette, 1891

A beleza não está no detalhe, mas na composição toda.

De Pissarro, este lindo retrato pontilhista de Julie, sua mulher, transbordante de serenidade, conforto e intimismo; vale a pena clicar para ampliar :

"A senhora Pissarro a coser junto à janela", 1877-78

Adoro este Manet incompleto:

Corbeille de Poires,1880-82

Um grande quadro mitológico barroco de Claude Lorrain (Claude Gellée, le Lorrain):

"Ascanius Shooting the Stag of Sylvia", "Ascânio disparando sobre o cervo de Sílvia", uma cena da Eneida de Virgílio. Uma diagonal e uma horizontal que se cruzam no primeiro plano, conduzindo o olhar para a paisagem iluminada ao fundo.

Nesta sua derradeira obra, de 1682, Lorrain alonga a altura das figuras humanas.



Mas sem Turner não há museu inglês ! Ora cá está ele, e que Turner:

"A Ponte do Diabo, na passagem de St. Gothard", 1803-4:


Figurinhas minúsculas numa paisagem aterradora, uma pontezita frágil sobre as profundezas do desfiladeiro.

Bom, certo, mas não tem nenhum Michelangelo...
Mas sim! Mas tem!

Um desenho:
A Santa Familia com S. João Baptista, num estilo irreverente como é habitual em Michelangelo. Atribui-se ao esboço uma data estimativa de c. 1520.


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São magníficas as secções do Ashmolean de arte oriental e mesopotâmica, pois é. Não tenciono voltar, mas quem sabe ?




quarta-feira, 17 de maio de 2017

Oxford 1 - Relógios de Sol nos "quadrangles"


Como ainda agora regressei de Oxford e tenho pouco tempo, começo por um post fácil sobre a colecção de relógios solares nos pátios relvados (quads, de 'quadrangles') dos vários Colégios.

Quads do Christ Church College.

Poucos sítios terão, como Oxford, percursos de descoberta de tão numerosos relógios de sol (*); a necessidade de medir a passagem do tempo diário não é certamente o principal motivo: há um culto do clássico, da Babilónia e Egipto, de Grécia e Roma, dos astros e da cosmologia medieval-renascentista, até ao séc. XVI.  Mas continuaram a ser usados, simultaneamente com os relógios mecânicos, até ao século XVIII, sobretudo para aferição e acerto da hora. A partir de então passaram a elemento decorativo de torres e jardins - ocupavam pessoas suficientemente educadas na matemática e na cosmologia celeste - meridianos, equinócios, equações, goniometria (ângulos, graus).

Também são, a par dos relógios de água, a única medição contínua do tempo (que supostamente flui continuamente): os relógios mecânicos, digitais, de areia, etc, procedem por saltam discretos. Penso que toda a gente sabe que os relógios de sol medem o tempo através da projecção da sombra de um mastro (gnómon) que se vai deslocando sobre um mostrador (dial, em inglês).

Os que vi em Oxford são todos do tipo vertical. Começo pelo do Christ Church College, onde a tradição avança o tempo de 5 minutos sobre o GMT, devido à diferença de 1º 15' (oeste) sobre o meridiano ! A diferença entre este tempo solar e a hora universal pode ir aos 15 minutos em Novembro...

Este relógio é da primeira metade do séc. XVIII. O quadrante, muito sóbrio, acerta a longitude para a diferença com o GMT.

Na parede voltada a sul.

O Brasenose College é menos prestigiado, mais vulgar na arquitectura, mas tem um dos mais antigos relógios de sol, de 1719. Fica mesmo ao lado da Bodleian Library, no centro histórico.


A parede não está exactamente virada a sul, mas a sudeste, portanto funciona melhor de manhã.

O Merton College é um dos mais bonitos, com vários jardins; a edificação principal data dos séc. XIII e XIV, sendo portanto um dos mais antigos. Aqui estudou J. R. Tolkien. No Fellow's Quad , encimando a frente norte, está este relógio, de feitura moderna - 1974. O quadrante dá também informação sobre as constelações do zodíaco:

O céu estava encoberto - suponho que é o normal, os sundials só funcionavam 'now and then' entre os pingos da chuva inglesa.

Uma breve aberta !

Um menos recente, inaugurado por Isabel II em 1953, é no belo e romântico St. Edmund's College Hall, talvez o meu favorito; substituiu o antigo que estava irreparável.

Na parede norte do Quad.


O Magdalen College é sem dúvida o mais admirável dos colégios.  Na parede do recente Grove Auditorium, este relógio pintado sob MM (Mary Magdalen) marca também o segundo milénio MM - data em que foi construído.


Também de 2000 é o relógio solar do velhinho New College (séc. XV), mesmo no centro:


E termino com um dos mais antigos e espectaculares: o "Pelican Sundial" do Corpus Christi College (séc. XVI). Num quad feio, cimentado (sem jardim nem relvado), o relógio solar de 1581 circunda uma coluna encimada por um pelicano:

O pelicano a bicar o peito é um símbolo bíblico (pelicano eucarístico).





Mais na The British Sundial Society (sundialsoc.org.uk)


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(*) Lisboa tem 11, pelo menos; hei-de os procurar.

terça-feira, 9 de maio de 2017

Oxford, regresso e despedida


A mais inglesa das cidades, pure englishness, um concentrado de colégios e universidade, lugar sagrado da sabedoria clássica, rodeado de pubs e de relvados nas margens do Tamisa. Vou agora lá voltar numa última e mais demorada visita, que o tempo começa a ser pouco para tanto sítio que ainda quero (voltar a) ver.

Como uma cidade-labirinto-biblioteca-infinita de Borges.

' I wonder anybody does anything at Oxford but dream and remember, the place is so beautiful. One almost expects the people to sing instead of speaking. It is all like an opera.'
                                                                                      William Butler Yeats

Até ao meu regresso, ficam estas imagens:

O Sheldonian Theater de Cristopher Wren

Bodleian Library (na parte antiga)

Claustro da Christ Church Cathedral

'Ascânio disparando sobre o cervo de Sílvia', Claude Lorrain, Ashmolean Museum (detalhe)


Até breve.