segunda-feira, 4 de abril de 2011

O Trans - siberiano ( V )


... no Rossiya, de Moscovo a Vladivostok...

É de manhãzinha, vamos em direcção ao nascer do sol


Passado o Altai, há que atravessar um dos maiores rios siberianos - o Yenisev, em Krasnoyark, que avistamos da ponte:

Até Irkutsk, só há estepe à vista ; quando muito, tribos nómadas, rebanhos, manadas, cavaleiros, yurts:




Cavalos, yurts e estepe ao por do sol

Finalmente...



Irkutsk, "Paris da Sibéria"


- paragem obrigatória de dois ou três dias


Situado perto da foz do rio Angara no lago Baikal, Irkutsk foi fundada em 1652 pelos cossacos e desenvolveu-se como entreposto do comércio de peles e mais tarde de ouro - foi o centro de uma "corrida ao ouro" no séc. XIX. Famílias enriquecidas competiam em ter as casas mais decoradas, que veremos adiante.

A industrialização veio com o trans-siberiano, que abriu Irkutsk ao mundo em 1898. Olhando um mapa, impressiona a "interioridade" da cidade, a milhares de quilómetros de qualquer litoral, e é fácil imaginar quanto o trans-siberiano terá contribuído para a vida local.

Depois de um período negro como local de deportação e exílio durante o estalinismo, é hoje uma grande cidade universitária, com 800 000 habitantes, museus, teatros, ópera, orquestra sinfónica.
Belíssima estação

Иркутск = Irkutsk






De eléctrico para o centro




«(...) avec ses coupoles, ses clochetons, ses flèches élancées comme des minarets, ses dômes ventrus comme des potiches japonaises, elle prend un aspect quelque peu oriental.
La ville, moitié byzantine, moitié chinoise, redevient européenne par ses rues macadamisées, bordées de trottoirs, traversées de canaux, plantées de bouleaux gigantesques, par ses maisons de briques et de bois, dont quelques-unes ont plusieurs étages, par les équipages nombreux qui la sillonnent, non-seulement tarentass et télègues, mais coupés et calèches, enfin par toute une catégorie d’habitants très-avancés dans les progrès de la civilisation et auxquels les modes les plus nouvelles de Paris ne sont point étrangères.»



O Kremlin de Irkutsk:


À esquerda, a catedral; depois a igreja católica polaca e a igreja do Salvador.

A catedral da Epifania ( Bogoyavlenski):





Os bolbos dourados da catedral ortodoxa refulgem ao sol da manhã. Construída em 1716, no estilo barroco russo, está decorada com ícones dos santos de corpo inteiro e molduras douradas que lhe dão um aspecto invulgar, uma cor intensa.









Na outra margem, a Igreja do Salvador, o mais antigo edifício em pedra na Sibéria, e agora museu:


Pelas ruas centrais não faltam alguns belos recantos e edifícios:




Museu Etnográfico

Museu Regional de Arte (colecção Sukachev)


Teatro dramático (1894)



Tchekov escreveu, nas "Cartas da Sibéria": «Irkutsk é uma cidade inteligente e requintada. Tem teatros, museus, um parque urbano com música. É definitivamente Europa! »

Mas a diferença de Irkutsk está na impressionante quantidade e variedade da arquitectura em madeira ao estilo siberiano: são centenas de casas, grande parte abandonada ou em ruína, mas muitas já restauradas. Datam dos séc. XVIII e XIX. Não quero sobrecarregar este post de casinhas de madeira, só alguns exemplos:

A "Casa da Europa"
Rendas de madeira !




A madeira utilizada é pinho ou cedro, e para os alicerces o resistente e duro lariço da Sibéria




Museu Taltsy

Existe ainda um museu ao ar livre da arquitectura em madeira, nos arredores da cidade.


Mas afinal, "Paris da Sibéria" porquê? Porque na zona comercial abundam "lojas com as últimas novidades de Paris", hoje afinal apenas as cadeias de marca internacionalizadas e uma ou outra boutique local.


Ul. Uritskogo foi a primeira rua pedonal da Rússia



Vejam só o requinte da Loja "To be Queen", aqui.


Muita coisa fica por ver: o Mosteiro de Znamensky, a (feia) igreja de Kazan, etc, porque afinal a outra visita imperdível é


O Lago Baikal
« Une immense nappe d’eau se déroulait aux pieds de Michel Strogoff.C’était le lac Baïkal.»


O trans-siberiano percorre a margem sul do Baikal

O lago mais profundo do planeta (1600 m! ), contém 20% (1/5 !) da reserva mundial de água doce ! Ao longo de 636 km (quase um mar...) estende-se uma linha de costa intacta, com praias, cabos, rochedos, enseadas, bosques - cada um destes sítios seria um lugar de visita obrigatório noutra parte do mundo.

A influência climática também é grande: nesta zona continental de grandes frios e grandes calores, a temperatura na área circundante ao lago oscila entre -19 e +11 ºC. O Baikal recebe as águas cristalinas de glaciares e de uns 300 rios de montanha.

Cabo Burkhan, um dos locais mais visitados, praia de Verão

O Baikal é rico em pedras semi-preciosas: jade, lapis-lazuli, jaspe...

Em Irkutsk oferecem-se várias excursões ao lago, em combóio (uma linha turística que faz um pequeno trajecto pela margem sudoeste) ou de barco. Optando por este, está incluída uma visita à magnífica ilha de Olkhon, um pequeno paraíso conhecido de poucos.


Indo de combóio, a visita obrigatória é à aldeia siberiana de Listvyanka, onde as casas de madeira estão totalmente preservadas.



De novo na estação, para retomar a viagem:


A luxuosa sala de espera

E lá vamos nós de novo, adeus Baikal.


E para acabar em beleza...
Chá a bordo ! Sirvo eu, mas faltam os scones...


Ufa! Este post bateu o meu recorde de extensão. E tive que apagar muita coisa.
Próxima etapa: de novo pela estepe, passando Ulan-Ude em direcção a Khabarovsk

6 comentários :

Gi disse...

Haverá certamente alguns bolinhos locais para acompanhar o chá :-)

Irkutsk é uma surpresa.

Mário disse...

Também foi surpresa para mim, Gi. Mas Khabarovsk foi surpresa ainda maior.

Aproveito para agradecer as mensagens no Facebook :)
vou lá raramente, quando estou acompanhado doutros facebookeiros, e não tenho paciência... sorry...

JPG disse...

Dei com o seu blog através do link à ILC e devo dizer que gostei imenso. Crónica de viagens pela Rússia, é o que é!
Belíssimas imagens, escorreitíssimo Português.
Mesmo a seco, aqui fica: здоровью!

Alberto Velez Grilo disse...

Caro Mário

As surpresas não param nesta sua viagem!

Joana disse...

Deixo cópia do meu comentário, desta feita sem erros de pontuação e de concordâncias!

Teremos de alargar a viagem, Mário, porque a cidade e o lago requerem 5 dias, no mínimo. Para além das visitas obrigatórias, há que contemplar os tempos de pausa para "viver" o ambiente. E, convenhamos, por certo não voltaremos lá. Já ir uma vez na vida será um sonho.
Subscrevo os comentários sobre a excelência da reportagem e do Português. E, já agora, não me parece nada descabida a sugestão feita pela Gi ( creio) no post anterior, sobre um futuro romance. Se tiver tempo, considere a hipótese!

Mário disse...

Amiga Joana,

Os "sete dias e sete noites" de viagem referem-se ao tempo gasto no combóio. Concordo absolutamente que 20 dias não é demais para visitas, excursões e para "viver" os locais.

Romance, Joana, sim ,mas só se for vivê-lo.

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