sexta-feira, 21 de fevereiro de 2014

Nancy Campbell, um alfabeto do Ártico


De Nancy Campbell já vi uma exposição em Brighton, e recebi agora um exemplar do seu 'livro' How To Say ‘I Love You’ in Greenlandic: An Arctic Alphabet. Esta edição é uma miniatura em postais, alternando texto e/ou imagem, numa apresentação muito cuidada.

Fica aqui um extracto de um ensaio escrito por Nancy para o blog da editora MIEL a propósito desta edição.


[Tradução minha]

« Há uma ilha ao largo da costa da Gronelândia, chamada Upernavik, ou 'sítio da primavera'. Tem o museu mais setentrional do mundo, e no inverno é um dos lugares mais escuros da terra.

Eu tinha acabado de escrever uma série de poemas sobre a luz — uma colaboração com um fotógrafo, considerando a maneira como a luz se move através do espaço, como ela é usada pela câmara para congelar momentos no tempo — quando chegou um convite para ser escritora residente no Museu de Upernavik. Eu tinha apetite para a escuridão e estava curiosa para ver que tipo de trabalho poderia fazer nestas condições.

O pequeno avião em que fiz a minha viagem ao norte lutou esforçadamente para aterrar na pequena pista de Upernavik no meio de uma tempestade de neve. Mesmo depois de os ventos terem acalmado, o céu continuava de um denso violeta, só quebrado pelas estrelas e pelas luzes de lamparinas que brilhavam nas casas espalhadas entre a colina e o porto. Mas a neve e o gelo têm uma qualidade luminescente e muitos objectos — distorcidos e escondidos sob encostas de neve — brilhavam na escuridão. Lembrei-me do mito Inuit que descreve como o antigo povo do Ártico via à luz de velas feitas de gelo antes da criação do Sol.

Cada manhã, obediente ao meu despertador, levantava-me e fazia uma xícara de café forte, em seguida sentava-me com as luzes apagadas, olhando do meu quarto escuro em direcção à escuridão do mar. Assistia ao brilho suave dos icebergs no horizonte e observava o seu progresso para sul. Em silhueta, as formas variadas — cúpulas e pináculos e alguns grandes icebergs tabulares — pareciam uma nova tipografia, uma lenta comunicação que se desenrolava desde o Pólo. Senti que eu poderia entender a mensagem, se olhasse por tempo suficiente.

Os ilhéus certamente compreendem o gelo. As suas vidas dependem disso. O vocabulário para uma variedade de diferentes formas de gelo na língua gronelandesa mostra como têm consciência das suas nuances: anarluk — pedaço preto de gelo de glaciar; imuneq — gelo com mossas; kassuk — pedaços de gelo à deriva no mar; mitillivoq — gelo que impede uma porta de se fechar; nutarneq — gelo novo; sarrippoq — gelo escorregadio; e siku — gelo sobre a água, levando a sikuaq — camada fina de gelo.

Comecei a aprender a língua, copiando várias vezes as mesmas palavras. Os volteios e ascendentes das letras ecoavam os padrões do gelo na beira-mar.


O ambiente mudava constantemente, como se para ilustrar as minhas lições. Conforme os dias se tornavam mais luminosos, o fosso de gelo em redor de Upernavik começou a fragmentar-se. Mais icebergs passavam à deriva, desprendidos dos glaciares mais a norte.
(...)

À medida que de Janeiro passava para Fevereiro, o céu que se estendia entre as montanhas cobertas de neve e o mar coberto de gelo começou a ficar mais luminoso. O sol apareceu pela primeira vez no dia dos namorados. Uma linha dourada nasceu sobre os picos nevados, descansou ali por um momento e depois desapareceu. Uma vez que o sol tinha regressado, os dias alongaram-se com desconcertante rapidez. No início de Março a longa escuridão era apenas uma memória. »

Traduzido do blog da editora MIEL

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