domingo, 2 de fevereiro de 2014

Mozart no Calderón vallisoletano:
bem cantar, bem encenar


Nada mal, para uma cidadezita que actualmente não ultrapassa Córdova ou a Corunha em dimensão e habitantes, e quase um subúrbio de Madrid (está só a 1 hora). Valladolid tem uma grande e bonita sala de ópera no Teatro Calderón, de que se pode orgulhar - nenhuma "pequena cidade" portuguesa tem nada que se compare.

Fui estreá-la com Mozart, na ópera mais séria que ele escreveu, um drama romano em forma de tragédia grega com fim aberto, e a maior colecção de exames de consciência de que me lembro assim de repente na ópera clássica.
Três personagens em conflito, mas não em triângulo amoroso - aqui o amor está em segundo plano, quase irrelevante  - mas em triângulo de amizade. A lealdade e a traição entre amigos de longa data é um dos temas da Clemenza di Tito, o outro é o exercício do poder com humanidade e respeito por si próprio, acima do respeito pelas leis e instituições. Muitíssimo moderna, portanto.

Dois excertos do libretto:

Tito:
Se all'impero, amici Dei,
Necessario è un cor severo;
O togliete a me l'impero,
O a me date un altro cor.

Se la fé de' regni miei
Coll'amor non assicuro:
D'una fede non mi curo,
Che sia frutto del timor. 


'Não quero saber de uma fidelidade que seja fruto do temor'.
Genial, não é ? Que lição !
[ouça-se por exemplo  aqui ]

A outra,

Tito:
'Sia noto a Roma, ch'io son lo stesso, 
e ch'io tutto so, tutti assolvo, e tutto oblio


Fiel a mim próprio, e se Roma me quer, é assim como sou !

A aclamação de Tito Vespasiano

Mas se o Tito de Mozart é de uma grande nobreza de carácter, tal como a crença maçónica exige de um poderoso - como o Sarastro da Flauta Mágica - é Sesto, o amigo traidor, quem mais se debate em convulsão, entre amizade e amor. Uma das razões que me levaram a Valladolid foi a mezzo Vivica Genaux  incarnar este Sesto - e que bem que o fez. Excelente de expressividade corporal, atingiu o melhor na trágica ária "Parto, ma tu ben mio", com um belo final que mereceu imediato aplauso.
[ouvir aqui com DiDonato]

A Genaux do Alasca tem uma versatilidade, obtida na interpretação de música  barroca, que lhe permite abordar as passagens mais exigentes com à-vontade, sem esforço e procurando acima de tudo expressão dramática. Foi bonito de ouvir e ver.



José Luís Sola (Tito) e Yolanda Auyanet (Vitellia) estiveram à altura, sem grande fôlego mas competentes, tendo a ária de Vitellia  'Non piu di fiori' arrancado merecido aplauso.
[ouvir aqui  com Della Jones]

O côro e a orquestra, pelo contrário, deixaram muito a desejar, fracos, inseguros, anémicos, provincianos no mau sentido. Em particular, saiu falhado o clarinetto obbligato no 'Parto'. Pena. Merece outra orquestra, o Calderón.

A famosa encenação de Marco Carniti foi, junto com as três vozes referidas, a outra valia desta produção. Apesar de ter preferido colunas greco-romanas em vez de parafusos de rosca, percebi que Carniti tirava excelente proveito de um cenário minimalista - uma escadaria, que podia ser a de um Parlamento ou a de um anfiteatro grego, permitia movimentação viva e intensa, situações de dominador e dominado, de queda, de ascensão, de descontrole. Muito bem conseguido. As projecções no écran de fundo também transmitiram com intensidade a côr e tragédia do incêndio do Monte Capitólio, a solidão de Tito com a Lua de fundo, o amarelo e o verde da traição e do ódio. Vê-se que nada foi deixado ao acaso, e a coreografia usou bem o espaço em todas as dimensões ( o palco era pequeno, até por isso a escadaria foi uma útil extensão).

Sesto, Tito e Vitellia - triângulo complicado.

Altos e baixos, não me arrependo: é assim a arte, é assim a vida.



[ seguidamente, a Valladolid monumental e dos museus]

4 comentários :

Paulo disse...

Folgo em saber que a Vivica continua bem.
Obrigado por contar aqui a experiência.

humming disse...

Mário, o seu Livro de Areia continua a ser - de longe! - o meu preferido. É assim desde 2008, continuará a ser para sempre.
Boa semana!

Mário Gonçalves disse...

Paulo, continua sim, a voz parece mais "escura", mas o controle de passagens difíceis foi de mestre.

Mário Gonçalves disse...

humming Ana, :) :) :)
you made my day !

e volte sempre, claro.

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