segunda-feira, 16 de março de 2015

Leviathan, filme enorme sobre gente frágil e a bruteza de um Sistema.


Quem gosta, como eu, dos grandes filmes russos de Andrei Tarkovsky ou Nikita Mikhalkov, e dos anteriores O Regresso, Banishment (genial !) e  Elena de Andrey Zvyagintsev, não pode deixar de ir a correr ver este seu novo Leviatã de 2014. Não se passa anos atrás, nem é feito por um ocidental: é um filme actual (2014) de autoria bem russa. De novo genial.

Desde a narrativa aos cenários, desde os diálogos ao tratamento das personagens, tudo impressiona quer por uma espécie de grandiosidade trágica, quer por uma sensação de fatalidade permanentemente suspensa que nos agarra do princípio ao fim.

Nada a ver com cinema americano ou sequer oeste-europeu. Não é entretenimento, não é decorativo, nem se compraz em futilidades e minudências. Tem o fôlego que antes havia no cinema italiano, por exemplo. A narrativa tem um tempo próprio - ora se delonga com a câmara fixa numa imagem, num rosto, ora faz elipse temporal deixando para quem vê a dedução do que se passou. Cinema lento, meditativo, de sensibilidade. Ao contrário de Terrence Malick (Tree of Life...) cujas reflexões sobre a existência e o destino parecem sempre encenadas e artificiais, em Leviatã estão na essência de tudo, das paisagens, das pessoas, das falas, como se profundeza reflexiva fosse a natureza própria do filme. Há realizadores assim, que são filósofos do cinema.

Rostos


Breve resumo: uma família reconstruída vive em quase isolamento numa cabana erguida com carinho e gosto junto ao mar de Barents, com algum terreno para permitir uma economia doméstica de sobrevivência. O homem vive da pesca e de biscates mecânicos, a mulher trabalha (sem qualquer gosto) numa fábrica de peixe. A vida estável e suave é subitamente ameaçada pela expropriação do terreno para construír qualquer mono moderno, de luxo, e a indemnização minúscula não dá para refazer a vida decentemente. Um antigo irmão de armas, advogado, vem ajudar o casal no combate legal, mas 'lei' é coisa que na Rússia ... bem, já sabemos, está ainda ao nível do far-west.

Aos poucos tudo é destruído na vida daqueles três resistentes, depois destroem-se uns aos outros - e a vodka em excesso ajuda. Está tudo podre no reino da mãe Rússia. O desenlace é portanto muito mau, o pior posssível. Uma carcaça de baleia junto à costa é o símbolo magnífico de um final desgraçado.

Uma imagem que perdura.

A rude paisagem do Barents, aquele mar selvagem, o lugarejo semi-abandonado de Teriberka (a leste de Murmansk) e a bem escolhida música de Philip Glass enquadram e intensificam a tragédia. Dizer obra-prima pode ser exagerado, mas anda lá muito, muito perto.



A ler:
calvertjournal.com/comment/show/2552/zvyagintsev-leviathan-cannes-russian-cinema
http://www.theguardian.com/film/2014/may/22/cannes-2014-leviathan-review-film

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Visto no Teatro do Campo Alegre, Porto. 

(só até dia 19)
Nenhuma outra sala da cidade exibiu o filme.

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