quarta-feira, 25 de março de 2015

Três horas de concerto, sr. Grigory ! Inacreditável, até Tarkovsky foi invocado.


Que dizer de mais uma prestação magistral ? Demasiado fora deste mundo, Sokolov está numa fase interiorizada, meditativa, consegue pausas e silêncios tão ou mais eloquentes do que o pianismo virtuoso que exibe sem cansaço, quase três horas com repouso apenas no intervalo.

Eu temia o Schubert; pois foi onde ele mais emocionou. Nitidamente este concerto foi dedicado a Schubert, onde se notou toda a intensidade e a profunda concentração de Sokolov. Nos Moments Musicaux (D780), por exemplo, excedeu-se no andantino, tocado com uma transcendente leveza, foi um dos momentos altos da noite.

Depois de 6 encores, já ninguém acreditava que houvesse mais música, mas Sokolov volta a sentar-se e toca algo que vem de longe, que apenas lembrava vagamente de universos estranhos, sombras do passado, que é isto? Ouvi há muitos anos, num filme, russo, qual ... pairava num denso nevoeiro de ficção espacial...

Reconheci depois: é o Bach /Arternyev para o sublime Solaris de Tarkovski, uma interpretação ao órgão de Ich ruf zu Dir, Herr Jesu Christ. 
Grato ao blog Rasante pela ajuda.



Já Brendel, por exemplo, tinha interpretado ao piano, sim ! aqui está, mas muito mais lento:

Sokolov deu-lhe outra vida, é um poeta por música, pelo menos em concerto. Parece que este vai ser gravado num futuro CD, apesar de algumas tosses; veremos o que sobra dessa poesia num registo digital.


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Dizer 'sala cheia' é pouco : foram colocadas cadeiras extra no palco, mais umas dezenas de lugares; a Casa foi pequena, entre as 9 e a meia-noite.

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