domingo, 24 de maio de 2015

Se a idiotice fosse música


Pelo menos, a idiotice reina na Ópera, ou melhor, nas encenações que estão na moda. E reina onde menos se esperaria - na Áustria, ó suprema blasfémia !, no festival de Salzburgo.

Não sei explicar, não se entende, mas o público austríaco e os frequentadores assíduos de outras partes do mundo que eram conhecidos como muito clássicos, bota-de-elástico, casaco-de-peles e smoking, e chegavam à  Grosses Festspielhaus de limusine com chauffeur - agora tornaram-se a coisa mais desbragada, gauchiste, marginal e ordinária que se possa imaginar. Apreciam estas encenações anacrónicas, sem História, e mesmo um tanto taradas. A exigência de autenticidade interpretativa na música barroca é virada do avesso - vale tudo, quanto mais escandaloso melhor. Vitória da estética para audiências da TV.

Isto a propósito da Ifigénia em Táurida, de Gluck, obra de 1779 sobre uma peça de Eurípedes, à volta de Agamemnon, Helena e a sua família após a guerra de Tróia, o mais clássico que possa haver (412 A.C.), uma história de sacrifícios, traições e salvações, a princesa Ifigénia no meio de uma complexa trama de interesses e conflitos; está em Salzburgo com este aspecto:



Com a Bartoli e tudo !

http://www.salzburgerfestspiele.at/language/en-us/das-programm/oper/oper-detail/programid/5142

Nem me venham dizer "Viste? não viste, não podes falar, se calhar até estava engraçado". Não vi, não gostei e não presta.

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Ninguém quer saber do Festival da Eurovisão, o das cançonetas. O ano passado, foi ganho por um pândego "drag queen" de barbas com uma barulho horrível de 3 minutos que designaram "winning song", enfim. Este ano, no meio de zapping, caí na transmissão por acaso (Portugal foi excluído, honra e glória a nós, ao menos por isto). Pois não é que oiço o final da 2ª de Mahler (a Ressurreição), a parte fortíssima nos tutti, órgão e côro, como "separador" entre canções e votação? Até estremeci de medo de que fosse uma música "concorrente". Claro que não foi tocada até ao fim: encadeou, num genial raccord, com uma batucada ruidosa qualquer, uns miúdos desenfreados com as baquetas às pancadas nos tambores de vários formatos. Lindo. Pós-moderno, relativista e intercultural.

A Áustria está maluca? Ou vou eu dar brevemente em maluco ?



5 comentários :

Gi disse...

Já o ano passado no Festival de Salzburgo as encenações foram horríveis. Julgo que foi o ano passado? que o Giulio Cesare do Handel foi completamente massacrado.

Fanático_Um disse...

E não é só na Austria. Veja-se o caso da Alemanha, em quase todos os teatros mais conhecidos, culminando com as encenações de Wagner em Bayreuth! Na Europa dominam estas encenações estúpidas. Por algum motivo são conhecidas fora do velho continente como "Eurotrash"! E com razão!!

Mário Gonçalves disse...

Gi, Fanático_Um,

será que, de modo mais sofisticado, certa Europa está a fazer com o seu património cultural o mesmo que os talibãs fizeram com os Budas de Bamiyan ? é que chega a dar-me a sensação de que no fundo esta gente odeia o classicismo, e só o usa para lhe destruir a essência e corrompê-lo com o máximo de mau gosto.

Gi disse...

Não pode ser assim tão simples, Mário.
Ao mesmo tempo recusa-se o passado e vai-se buscá-lo. Quer-se mostrar como é aplicável ao nosso tempo, e para isso tenta-se "actualizá-lo".
O medo do "academismo" ficou-nos do fim do século XIX, e a ideia de que a arte tem que servir e mostrar "os trabalhadores" do princípio do XX.
Daí a fuga ao belo.
E há também por aqui uma espécie de complexo de Édipo cultural.
Ou sou eu que hoje estou para aqui virada.

Mário Gonçalves disse...

Complexo de Édipo cultural :)
Se calhar, Gi.
A Europa precisa de psicanálise.

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