terça-feira, 19 de maio de 2015

Vivaldianos: anjo de marfim imperdível !


Publicado em 2012, este Vivaldi e l'Angelo di Avorio, do ensemble Silete Venti dirigido pelo oboista Simone Toni, é uma impressionante surpresa mesmo para quem já ouviu muito Vivaldi em interpretação autêntica por estudiosos do barroco.


Consta de vários concertos para oboé, cordas e contínuo (cravo, teorba) dos anos 1734-35, a que se juntam duas sinfonias para completar o disco. A gravação pela equipa da Harmonia Mundi /Sony é primorosa de detalhe e relevo dinâmico. "Ouve-se" Veneza, e o livrinho muito rico em referências ajuda.

A apresentação gráfica também é uma mais-valia, num vermelhão alusivo ao "Prete Rosso". Até agora, o mais bonito que me chegou este ano.


O Angelo d'Avorio, anjo de marfim, é um oboé mítico construído em Milão (ca. 1730, ao tempo em que Vivaldi já passava mal ), e de que Simone Toni conseguiu uma cópia, que utiliza nesta gravação.

O 'Angelo d'Avorio', do fabricante milanês Anciuti.

Algumas passagens são algo tormentosas, reflectindo talvez os maus tempos que Vivaldi passou no final da vida, com poucos recursos e mal visto pela Inquisição. Logo a iniciar, um susto de pôr cabelos em pé - mas isto é Vivaldi ou é punk ? Uma batida obsessiva que podia ser de uma banda dessas ! E continua estranhamente misturando ritmos e harmonias, surgindo órgão quando se espera oboé, e logo o aparente lirismo deste subitamente rasgado por violentas incursões das cordas. Não é um Vivaldi que escreva "sempre o mesmo concerto".

Quanto ao famoso oboé de marfim, o som é sem dúvida diferente, mais forte, talvez estridente para alguns - soa a marfim - e de afinação mais difícil. Não é para meninos de côro. Simone Toni tem mestria quanto baste para o tocar vertiginosamente.

A destacar uma obra, é a última, a RV 447 para Do maior, onde ambas as partes - solista e orquestra - estão no seu melhor em inventiva e expressão. Invulgar em todos os aspectos - até na duração de 15 minutos. Uma delícia, a luxuriante festa instrumental, e os apontamentos de órgão no incrível Minuet con variazoni, e tudo a acabar com delicada suavidade. Vivaldi transcende o universo barroco, já está um século à frente.
Um CD particularmente imperdível para quem gosta de oboé, dos ataques secos das cordas de tripa, de ritmos alucinantes ... e (muito) de Vivaldi !

Fica o Allegro inicial do RV 447:


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Nota: a editora sentiu necessário esclarecer, 'o tempora o mores', que nenhum elefante foi vitimizado para obter o marfim utilizado na cópia ! Em 1730, algum bicho teve certamente mais azar.

2 comentários :

Virginia disse...

Obrigada, Mário pelos belos conselhos. Sou vivaldiana de coração e adoro o oboé, de modo que estive aqui deliciada a ouvir esta peça. Bendito youtube que nos permite estas partilhas.

Gi disse...

É capaz de ser uma boa ideia para presente de um aniversário que se avizinha..

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