segunda-feira, 20 de março de 2017

Shoyna e Teriberka, aldeias russas do Mar de Barents.


Viagem improvável.

Dois sítios onde nunca irei, onde pouca gente vai, sítios onde nem percebo como se vive, onde gentes que parecem de outra era resistem agarradas a um território ingrato, semi-abandonado e isolado, entre ruínas e esqueletos marítimos numa costa rasteira e pantanosa. Estamos em território próximo da Lapónia finlandesa: geográficamente Teriberka e Shoyna situam-se na Europa, e é suposto terem algum grau de civilização; ali perto, Murmansk e Arkhangelsk exibem a frota nuclear russa e os mais potentes quebra-gelos do mundo; a Gazprom tem grandes complexos de refinação e uma rede de plataformas a oeste de Novaya Zemlya.

Tanto dinheiro.
Teriberka e Shoyna, no Barents Russo, poderiam ser ricas e desenvolvidas, tão intensa é a actividade da Gazprom a norte e nordeste de Murmansk.

Ainda há pouco um filme muito bom, Leviathan, de Andrey Zvyagintsev - talvez o último grande realizador russo - mostrava, com humor ácido, os modos de vida que resistem nesta região.

Teriberka, a incrível aldeia do filme, fica na penísula de Kola, a poente do Mar Branco, no extremo noroeste da Rússia. Espantosamente, desenvolveu um projecto turístico - o filme gerou uma atracção inesperada pelo desolado panorama de fim do mundo.

Shoyna fica do outro lado do Mar Branco, na península de Kanin, já em região autónoma Nenets. Ambas partilham um passado - actividade piscatória e criação de renas - e um presente ruinoso, com a indústria petroleira à vista.

Vou mostrar portanto imagens recolhidas pela net, nada de original, só para documentar um lado menos conhecido da vida na costa do Barents, e documentar a tremenda desigualdade em terras russas entre umas poucas cidades 'ricas' e a miserável desgraça em sítios que ... não interessam.

Dois capítulos:
1. Teriberka
2. Shoyna

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1. Teriberka, uma aldeia de ruínas, poluição e desolação para turista ver.


Teriberka é uma povoação ártica situada na Península de Kola, distrito de Murmansk, na costas do Mar de Barents, em terreno raso de tundra.

Em tempos a aldeia teve actividade de reparação naval.

Hoje quase abandonada, a aldeia foi fundada no séc. XIX à volta de uma doca de reparação de barcos e de uma fábrica de processamento de peixe. Bacalhau e hadoque abundavam e a população chegou a uns 5000. O mau planeamento a que a Rússia não escapou e a pesca excessiva que dizimou os recursos marinhos arruinaram a economia local.


Teriberka

Coordenadas: 69° 10′ N, 35º 10' E - 300 km acima do Círculo Polar.
População: ~1000

Esta é a chamada "nova" Teriberka !

Remota, ártica, pobre  e sem acessos, Teriberka só se tornou conhecida no dia em que uma equipa cinematográfica chegou para filmar Leviathan. A fama cresceu quando o filme obteve um Globo de Ouro em 2015. Tornou-se um símbolo do quase romântico falhanço soviético.


Apartamentos de início do séc. XX caem aos bocados, fendidas e com o tijolo a descoberto. Modelo soviético.


No fim do séc. XIX, a aldeia tinha farol, estação meteorológica, escola, igreja; a população vivia do pastoreio de renas. Depois veio a industrialização mal planeada, a construção de colmeias residenciais. Falidas as pescarias, restam carcaças de barco que semeiam toda a costa.



Há uma Teriberka "velha", a de casas de madeira e esquifes apodrecidos de barcos, junto a uma entrada de mar ; e a "nova", mais aberta ao Barents, a seguir às docas abandonadas e aos blocos vazios e decadentes do século passado.

Talvez a melhor 'moradia' de Teriberka, esta casa de madeira onde vivia a família do filme 'Leviathan'.

A mais de 69º N, quase todo o ano é marcado pelo frio, que desce a -20º. O curto Verão de mês e meio raramente ultrapassa os 14º .

Coberta de gelo, a estrada até se torna mais praticável.

Entrada na aldeia.

O 'centro': a igreja em primeiro plano, a escola, amarela, ao fundo.

Uma ruína industrial.

Outra imagem do filme Leviathan.

Se durante o dia ainda se vêem algumas pessoas, à noite a aldeia fica deserta; as paredes descarnadas com buracos em vez de janelas dão um ar assombrado e arrepiante.


Nem a infalível árvore de Natal quebra o ambiente soturno:


No meio dos prédios escacados, a nova escola parece prometer outro futuro:


Um sítio alegre e colorido, o único.


Surpresa foi o investimento no turismo. Alguém teve a ideia brilhante de que as ruínas podem trazer rendimento, atrair clientela, tal como as lojas de velharias. E juntou ao lado um conjunto turístico bem vermelho, como convém, e um festival folclórico; tudo junto é a Nova Vida de Teriberka.

O “Teriberka, New Life” (новая жизнь) vai agora para a terceira edição.

Os povos nativos da região são os Sami, da famíla dos Lapões, tradicionalmente criadores de renas; ao todo cerca de 2000 na península de Kola.

Apartamentos turísticos com capela ortodoxa.


Nem falta uma banca de vendas de artesanato.



Para chegar a Teriberka, são 90 km desde Murmansk numa estrada de lama pela tundra ondulada e encharcada, onde só uns arbustos rasteiros quebram a desolação.

No Inverno está muitas vezes impraticável, mas coberta de neve fica bem melhor. Tal como toda a paisagem, sob o manto branco, se disfarça e maquilha e chega a parecer bela.





Ali perto, mais a norte no Barents, uma imensa riqueza é acumulada pela indústria do petróleo e do gás. Disso, Teriberka só recebe.... visitas turísticas. E só graças ao filme genial de Zvyagintsev (mal visto na Rússia), que o ocidente premiou.

Mais:
http://www.tumbleweed.guide/teriberka-photo-journal
http://www.arcticcentre.org/EN/communications/Barents/Teriberka


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2. Shoyna, outrora aldeia piscatória, agora enterrada nas areias do Barents.

Quando parece já não haver mais nada de novo a mostrar no Ártico russo, descubro uma aldeia como esta, casas de madeira em dunas arenosas, algumas soterradas por tempestades de areia, tudo nas margens gélidas do Barents.

Estamos em território Nenets, a população semi-nómada que ocupa a costa noroeste da Rússia europeia; ainda recentemente referi a cidade de Naryan-Mar, capital desse distrito autónomo, um dos tristemente célebres por terem albergado gulags e horrendas cidades mineiras de inferno (a infame Vorkuta), em que os Nenets aram recrutado para o trabalho forçado fabril soviético.

Shoyna nem figura na maioria dos mapas. A faixa dunar estende-se por muitos quilómetros ao longo da costa, onde o Mar Branco se mistura ao Barents, no oeste da Península de Kanin. Esta população, habituada ao frio, à neve e ao gelo, ao mar, a viver da pesca e dos rebanhos, vê-se agora atolada num 'deserto' de areias.


Murmansk para oeste, Arkhangelsk para sul, são as cidades mais próximas, com bases navais e parques industriais de importância vital para o estado Russo.

A disputa com a Finlândia arrasta-se há anos, reclamando cada parte limites mais extensos para a sua zona marítima exclusiva. É uma zona sob imensa pressão - o Ártico agora é navegável graças ao aquecimento da temperatura, abundam os depósitos de gás e petróleo e jazidas de carvão - daí que o Estado considere a zona estratégica: começou uma corrida ao Ártico, concentrando forças militares na costa e em em ilhas desertas como Nova Zemlya, abrindo centros de indústria pesada junto a cidades com aeroporto. Talvez afinal Shoyna escape a um destino ainda pior, como foi o caso de outra aldeia litoral Nenets - Varandey, mais a leste - esmagada por um gigantesco projecto petrolífero.


A Peninsula Kanin é o extremo ocidental da região Nenets (Nenetsia), a mais de 300 km da capital Naryan-Mar. Os Nenets são um povo indígena semi-nómada com modo de vida de subsistência - pastoreio de renas e pesca nos rios, lagos e mares.


Shoyna foi fundada na década de 1930 como aldeia de pescadores, numa faixa litoral onde tundra e floresta de taiga convergiam.


Manteve uma actividade intensa durante o regime soviético, com uma numerosa frota pesqueira. A abundância de peixe trouxe prosperidade, e a população cresceu até uns 1500 habitantes.


Foi pelos anos 70 que Shoyna começou a ser invadida por uma lenta mas inexorável maré de areias. As dunas rodearam as casas e a pescaria terminou.



Actualmente, restos da frota estão semeados ao longo da praia, oferecendo um espaço de recreio para as crianças e um cenário fotogénico de fim do mundo aos visitantes. Foram os excessos de pesca, sobretudo de arrasto, desbastando o fundo marinho, que deram lugar à invasão de areia soprada pelos ventos do mar de Barents.


Shoyna (Шо́йна), região dos Nenets (Nenetsia)

Coordenadas: 67° 52' N, 44° 08' E
                    (150 Km a norte do círculo polar )
População:  300-400


O acesso às casas só se consegue nalguns casos pelo telhado; por isso se vêem várias escadas encostadas do lado de fora para permitir trepar até lá.


Mais vale não fechar a porta à noite. Porque de manhã pode já não abrir - se a ventania tiver depositado mais areia.



No dia dos prémios escolares - a escola é mantida livre de areia a todo o custo.

Não há restaurantes nem hotéis, as 'lojas' são de sobrevivência; a vida é mesmo assim suportável graças ao peixe que ainda vai havendo para pesca artesanal - truta, salmão, bacalhau, arenque. E os Noruegueses vêm através da fronteira comprar bagas e cogumelos locais.

A pesca agora é um negócio familiar de subsistência.


O único jornal que chega é o da região autónoma Nenets (NAO), semanal.

Emprego, estranhamente, não falta: condutor de tractor e de excavadora, trabalho de madeiras e de reparações, alguns funcionários (professores, por exemplo, e meteorologistas). Muitos outros recebem pensões e subsídios.


Sem estradas, nem bicicletas nem carros - as únicas máquinas capazes de se mover pelas areias são estes estranhos "triciclos da areia", uns tractores pesados, feios e lentos construídos sobre uma estrutura de motociclo.


O pior é quando sopram com violência ventos do Barents.

A Estação Meteorológica e Atmosférica é provavelmente o local de trabalho mais moderno em Shoyna, pois os russos são muito orgulhosos da sua rede nacional, como ainda há pouco se pôde ler no livrinho de Olivier Rolin, O Meteorologista.


Mantém-se bem cuidada  e vai sendo modernizada. E livre de areias, claro - até beneficia de um passadiço de madeira.


Para fora de Shoyna não há estradas nem combóio. Só de barco ou por via aérea. O "aeroporto" é uma pista enlameada de 650 metros...


... e a gare uma cabana de madeira; e quanto à Torre de Controle, bem...


Os acidentes são poucos - o último em 2014 sem vítimas. Os voos são feitos por um pequeno biplano Antonov de um só motor criado nos anos 1940 (manteve-se em construção até 2001).

O An-2, "Annushka", é especializado em operar nas áreas remotas e em pistas não pavimentadas.

Parece que recuamos quase um século.

A neve do Inverno Ártico tem o seu lado bom: facilita a mobilidade dos veículos.


Pode-se usar snowmobile, muito mais rápido e cómodo.

Ou melhor ainda, trenós.



Viagens destas fazem-me sentir bem onde estou. Razões de queixa não faltam, mas convém não perder a perspectiva: somos um sortudos.


Fontes principais:
http://mir-i-mi.ucoz.ru/news/
http://grandkid.ru//?s=Шойна?
http://vnao.ru/search/node/shoyna

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Fartei-me de trabalhar, neste fim de semana. Há aqui viagem que chegue para sete dias !


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