sexta-feira, 14 de julho de 2017

Paterson: a poesia do quotidiano, a gentileza e a meiguice, a irremediável solidão.


Para já é o melhor filme que vi este ano; Paterson, de Jim Jarmusch.

O motorista-poeta de Paterson.

É preciso ter coragem e personalidade para se fazer um filme assim, hoje: delicado e gentil, focado na rotina diária, louvando a meiguice em vez da brusquidão, a poesia em vez da brutalidade, a solidão em vez do ruído social, a voz baixa e suave em vez da gritaria. Paterson é um hino ao melhor que a vida pode dar a quem nasceu modestamente e tem dois dedos de sabedoria e a cultura escolar do secundário: o bem estar que se satisfaz com pouco, sonhando sempre com o muito mais, conseguindo passo a passo transformar uma envolvente feia e agressiva num nicho de humanidade quase feliz. Quase, porque uma nota permanente, qual leit motiv que soa em fundo ao longo do filme, é a profunda solidão de cada um, na sua incomunicável intimidade.

O espaço feio de ruínas industriais, a solidão, um emprego mediocre, não conseguem tornar Paterson infeliz ou frustrado.

Os heróis do filme são gente da classe "média baixa", que se esfalfa a melhorar as coisas à sua volta com arte, poesia e humor em vez de raiva e alarme e ódio, aproveitam o que aprenderam para se valorizarem, lêem e vão ao cinema, pintam e escrevem, cozinham gulodices, observam e amam. Golshifteh Farahani, uma actriz francesa de família iraniana, é uma revelação na sua frescura interpretativa toda graça e sedução; Adam Driver ('driver' é um dos muitos jogos de palavras do filme), no papel de motorista de autocarro que escreve poemas, surpreende por uma sobriedade espartana que valoriza a vida interior e os afectos contidos. Um casal improvável que resulta em carinhosa amizade.

Poesia, design, culinária, música também, em harmonia feliz. Dois actores em estado de graça.

Claro que Paterson é muito mais que isso - o próprio filme é uma espécie de poema à normalidade, ritmado pelos dias da semana, inspirado pelo acaso de uma imagem ou algo trivial que acontece. Desenrola-se, o filme e o poema, na banalidade diária, pontuada de pequenos episódios nunca muito trágicos ou chocantes, antes moderadamente cómicos, no máximo incómodos, que são como uma "rima" a colocar música no dia-a-dia. Estive quase sempre com um sorriso durante o filme. Se a poesia nasce daqui - e não das terríveis ameaças letais e dos desesperos lancinantes - então todos podemos ser poetas, tomar nota no nosso livrinho do que nos vem à mente, os primeiros versos ou as imagens seminais, que vamos lentamente trabalhando, enriquecendo, no dia a dia das coisas rotineiras, monótonas e tranquilamente belas.

Uma visão diferente, oposta à que reina no cinema (e não só) que é a espectacularidade dramática e violenta, a  narrativa do excesso na acção, no palavreado, na imagem e nos efeitos especiais.

Um jorro de água fresca, portanto. Ou uma "doce utopia", como escrevia JLR no Expresso.

The Line

There’s an old song
my grandfather used to sing
that has the question,
“Or would you rather be a fish?”
In the same song
is the same question
but with a mule and a pig,
but the one I hear sometimes
in my head is the fish one.
Just that one line.
Would you rather be a fish?
As if the rest of the song
didn’t have to be there.

                                            Ron Padgett,
                                            autor de três dos poemas do filme.

Este vídeo faz a montagem desses três poemas com imagens do filme:


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Curiosamente, o que menos me agradou no filme foi o detestável e anti-poético cão, que por mim levava um pontapé para fora do filme não fosse determinante no enredo; pois foi a única coisa que o festival de Cannes achou por bem premiar. Assim andam os festivais.


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