sexta-feira, 19 de outubro de 2018

Centro histórico de Ystad, jóia do medieval escandinavo



Ystad, completamente fora dos circuitos turísticos, tem o encanto medieval de vilas como York, Annecy, Fribourg ou Óbidos* - o centro antigo manteve arruamentos com casas desde o século XII, floridos e muito cuidados, livres de comércio e restaurantes. Praças e duas ou três ruas pedonais periféricas concentram as lojas e serviços. Ystad são duas cidades numa, estendendo-se por uma reduzida área que se pode percorrer em meia hora.

Klostertorget, coração de Ystad

O que mais me inpressionou foi o ritmo de vida e quem anda na rua. Todos parecem descontraídos, relaxados, ninguém corre ou grita ou buzina. Obras, poucas, correm sem ruído, com calma eficiente. A quantidade de pessoas da terceira idade, de bengala ou carrinho (andarilho) é impressionante: saem todas à rua, estão nas esplanadas e nas lojas ou na esquina à conversa. Ystad, sendo autêntica, pode parecer um condomínio de luxo, ajardinado e embelezado, para os velhinhos passearem. Vê-se que têm um fim de vida activo, aparentemente feliz. O que não se vê, são tags nas paredes e garrafas ou papéis pelo chão, casas decadentes com ar abandonado, cães sem dono, bandos ruidosos, semáforos e poluição, hora de ponta; o que se vê, são muuuitas jovens de bicicleta, cabelos louros e vestes esvoaçando, uma imagem que me ficará gravada.


Pois: esta é uma reportagem longa e apaixonada. Vamos ver.

Com umas 300 casas de meio-enxaimel (entrelaçado) de madeira enchido a tijolo, poucas cidades podem exibir uma imagem tão completa da sua urbe medieval. São quatro os eixos viários da cidade velha, três deles com nome dos pontos cardeais: Västergatan (Lilla e Stora), Norregatan (Lilla e Stora), Östergatan (Lilla e Stora), e a sul Garvaregränd / Hamngatan, a rua comercial pedonal que desce para o porto.
(Lilla = pequena, Stora = grande).

Começo pela Garvarehuset, um recanto que nos seduziu assim que chegámos, entrando pela Trädgårdsgatan (= rua do Jardim).

Uma casa do século XVII em ângulo.


Foi a casa do Tanoeiro; onde vemos o arruamento ajardinado passava o ribeiro Vassaån, agora coberto, que vai desaguar no laguito frente ao Largo do Mosteiro, logo a seguir:


O Mosteiro da Ordem Menor de S. Francisco.


Entramos na praça pelas traseiras do Mosteiro. É certamente uma das praças antigas mais bonitas onde já estive, de um colorido esfuziante na luz do sol de fim de Verão. As texturas dos edifícios medievais dão-lhe um carácter único, e o sossego total onde se ouve só o rumorejar da água no Vassaån próximo, os pássaros e o vento na folhagem criam à volta deste templo franciscano do século XII uma atmosfera irreal, como estar numa cidadezita em Itália - digamos Ferrara ou Arezzo - sem mais ninguém.


O exterior do mosteiro é na arquitectura gótica em tijolo típica das cidades hanseáticas.


A decoração de recortes 'cegos', com efeitos de relevo no tijolo, é muito própria do gótico nórdico.


Contruido em 1258, o Gråbrödraklostret ("convento dos frades menores") marcou o início da era de desenvolvimento urbano desta vila portuária do Báltico.

Infelizmente, o interior esta muito degradado e a parte de museu não vale uma menção aqui.

A torre é linda !



Ao lado do Mosteiro está a Casa do Burgomestre (= alcaide), a casa de enxaimel mais ricamente colorida e decorada de Ystad. É em forma de T, sendo uma parte térrea e a outra com dois andares.


Data de 1500-1510, e foi moradia do alcaide dinamarquês. A cidade só conseguiu um alcaide sueco em 1680.



A casa está decorada com suportes de madeira trabalhados e pintados, e padrões que combinam habilmente tábuas e tijolos vermelho-turquesa. Portas baixas, divididas em meias-portas, ambas sulcadas com padrões rômbicos na madeira.


Saindo para noroeste, Lilla e Stora Norregatan são das ruas mais lindas. A Brahehuset é uma das casas góticas mais antigas em Ystad.

Brahehuset, Stora Nörregatan.


Dos finais do século XV, é o exemplar mais exuberante de casa medieval (tardia) em tijolo. As decorações de janelas circulares e rectangulares "cegas" estavam pintadas de branco, vermelho e azul, e destinavam-se a aligeirar paredes maciças. Foi declarada património público da cidade.

A Brahehuset a esquerda, o Gråbrödraklostret ao fundo, a Änglahuset à direita.

Logo a seguir, ainda numa esquina da Norregatan, a Hans Raffns Gård, mais conhecida por Änglahuset ('Casa do Anjo'), de 1573 - praticamente um século mais nova. O nome deriva das ricas decorações com anjos, duendes e flores na fachada principal. Foi também a casa do Burgomestre Hans Raffns no séc. XVIII, como está sinalizado.


Como a maioria das casas medievais de Ystad, era uma propriedade rural (gård) de que também fazia parte a casa adjunta.


O andar superior, mais saliente, é suportado por apoios de madeira muito bem executados.

Um friso de rostos alados deu à casa o seu nome mais popular:


E é assim a Norregatan.

Ainda não cheguei a meio, digam lá se Ystad não é um encanto e uma prazer de cidade ? Soube dela pela primeira vez na TV pela série Wallander, com o grande Kenneth Branagh e mutíssimo bem dirigida, a partir da obra de Henning Mankell. Uma das melhores séries policiais de sempre. Havia alguns cenários que me deixaram curioso sobre a cidade, e pronto. Está a menos de uma hora do aeroporto de Kastrup.


Continuando, vamos desaguar na Stortorget, a praça histórica principal, onde esta a Câmara e a românica igreja de Sta Maria, S:kta Mariakyrka, o edifício mais antigo da cidade. Também ali há uma pequena feira, creio que diária, três esplanadas (uma excelente confeitaria) e um restaurante simpático.

Entrando pela Norregatan, damo-nos com este edifício com ar hanseático tardio, no estilo Renascença flamengo:

A Gussings Hus é o nº1 da praça, foi construída ao longo de vários séculos - o rés do chão é tardo-medieval, e servia de armazém para a Igreja ao lado; desde 1784 tinha dois andares, mas foram completamente reconstruídos pelo rico comerciante grossista Gussing em 1891, que quis um palácio numa arquitectura já fora de moda: Gussing vivera na Dinamarca, e de lá veio o arquitecto.


São notáveis as empenas com ornamentos espiralados, com utilização de tijolo vermelho decorativo. A casa passou a dominio público como património.

Outra preciosidade da Stortorget é a Escola de Latim !


Este magnífico edifício gótico em tijolo de ca. 1500 (mais antigo que a Brahehuset) era a escola de latim da igreja de Sta Maria. A empena em degraus é estranhamente assimétrica.


Foi a primeira escola de Ystad, provavelmente a mais antiga escola da Escandinávia, e esteve em uso por mais de três séculos .

Já a Igreja de Sta Maria é um flop. Pode ser o edifício mais antigo da cidade (ca.1200), mas é pobre, paupérrimo, e feio. Salva-se este altar medieval em madeira:
Talhado em carvalho pintado e dourado, ca.1400 , proveniente do norte da Alemanha.
Um trabalho de mestre.

Marca da cidade é a flecha da torre barroca, aqui reflectida no excelente Maria Caféet, mesmo ao lado, onde o kannelbullar é divino:

Os pãezinhos de canela são a especialidade sueca para gulosos. O núcleo central fica sempre para o fim...

Mas o melhor da Igreja é a vista da torre nas ruas adjacentes a oeste, as Lilla e Stora Västergatan:


Como bilhete postal de Ystad não há melhor.


Sobretudo a Stora Västergatan é imperdível, com mais uma casa de quinta medival - a Fallberedergavarna.


A rua mais bonita de Ystad ?


Esta é a Kemnerska Gården, a casa onde se diz ter ficado o Rei Carlos XII quando passou pot Ystad. Tem placa e tudo - mas é falso! A mentira valeu à casa ter sido protegida e acarinhada.

Outra preciosidade, de 1520.


A seguir voltamos de novo à praça central Stortorget, agora pelo lado sul.

A Rådhuset, antiga Câmara, e à direita uma casa de enxaimel do seculo XIX que é um restaurane caro.


Vamos para leste, pela longa e comercial Stora Östergatan.


Nesta rua há mais duas relíquias notáveis, sendo a Pilgrändsgården (1480-1520) a mais preciosa - é a mais antiga casa em enxaimel de toda a Escandinávia!


São duas casas agrícolas, uma certamente armazém, com painéis de tijolo trabalhados em vários padrões.


Um pouco adiante, a Per Hälsas Gård, um ou dois séculos mais recente.


Foi reaproveitada como centro de artes e ofícios, com lojinhas no interior; quando lá fui estava fechada.


Finalmente, regressando outra vez a Stotorget e saindo para norte, fechamos o circuito na Apoteksgården, a minha favorita casa de enxaimel, de ca. 1600. Tem dos mais lindos padrões de tijolo e suportes de madeira.





O nome deriva de a Farmácia da cidade ter sido transferida para esta casa em 1786. Nas traseiras ainda há um jardim onde eram cultivadas plantas medicinais, e na casa funciona agora uma oficina de cerâmica artesanal.



Logo a seguir, na esquina que dá para a pracinha Tvättorget, uma casa privada de 1640, a Jens Jacobsenshus. Jacobsen era um comerciante rico e membro do Conselho da cidade.


Demos a volta, já estamos de novo na Klostergatan que nos leva de volta ao Mosteiro.


Há certamente centenas de vilas e pequenas cidades medievais em França, Itália, Suíça e Alemanha muito mais ricas de igrejas, castelos e palácios, estive em muitas delas. Foi por ai que fervilhou a Idade Média, as suas artes e comércio. Mas Ystad tem um carácter diferente, mais recatado e sóbrio, mais suavemente alegre nas ruas floridas e ciclistas, longe do burburinho turístico que hoje desfeia qualquer espaço histórico mais afamado. A Escandinávia e o seu modelo de vida são para mim o melhor ambiente humano que o planeta tem para oferecer.



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* a Óbidos de há 30 anos, claro. Agora é um shopping de plástico ao ar livre.


1 comentário:

Fanático_Um disse...

Fantástico texto Mário, sinto-me como se tivesse lá estado por alguns momentos. Não conheço, fico cheio de vontade de lá ir, mas este relato também profusamente ilustrado com fotografias magníficas permite-nos ter uma ideia sólida sobre Ystad. Lindo e impressionante!