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terça-feira, 14 de julho de 2020

A Estranha Nuvem Negra / The weird black Cloud



Um destes últimos fins de tarde de Julho, surgiu no horizonte (visto da minha varanda) uma estranha nuvem, que começou com uma forma de monstro marinho a levantar-se da linha do mar, com se emanasse das águas, invadindo aos poucos a tonalidade mais clara do céu como um borrão de tinta suja.


Parecia mau presságio, como uma pandemia a expandir-se, ou como um turbilhão de ódio a alastrar pelo mundo, ou como um desastre nuclear.


Subitamente o vento passou a soprar de sul, cada vez mais forte, e a nuvem estranha foi sofrendo uma deformação para norte.



Espectáculo raro, belo à sua maneira. O mar também escureceu e ariscou, ajudando ao clima de arrepio.



Felizmente esticou-se de mais; é bem feito, acabou dispersa num fiozinho estreito e inofensivo.

Por esta vez, venceu a luz e o azul, que se ia tornando alaranjado, cada vez mais rubro. E o dia acabou em cores quentes, como se em festa. Por esta vez.



These are the clouds about the fallen sun,
The majesty that shuts his burning eye:
The weak lay hand on what the strong has done,
Till that be tumbled that was lifted high
And discord follow upon unison,
And all things at one common level lie.

                                                              W. B. Yeats, 1916


          Estas são nuvens sobre o sol em queda,
          a majestade que fecha o olho ardente:
          os fracos que pousam mão sobre o mais forte
          até tombar de onde se elevou, desamparado,
          e a discórdia se abater sobre o consenso,
          e tudo estar caído ao nivel mais vulgar.







segunda-feira, 22 de junho de 2015

W. B. Yeats, 150 anos neste Junho


Uma importante celebração, também neste 18 de Junho, foi a de Yeats, o grande poeta irlandês, nascido nesse dia em Dublin (1865). Os 150 anos estão a ser largamente comemorados pelo mundo:

http://www.yeatsday.com/yeatsday-2015/
http://yeats2015.com/
http://www.theguardian.com/books/2015/apr/28/irish-poet-wb-yeats-150th-birthday-celebrations


Já aqui publiquei várias vezes poesia do admirável Yeats. Hoje a minha escolha
é a Canção do Aengus Errante. 'Aengus' é uma divindade da mitologia celta/gaélica irlandesa, ligado ao amor, juventude e poesia.


Song of Wandering Aengus

I went out to the hazel wood,
Because a fire was in my head,
And cut and peeled a hazel wand,
And hooked a berry to a thread;

And when white moths were on the wing,
And moth-like stars were flickering out,
I dropped the berry in a stream
And caught a little silver trout.

When I had laid it on the floor
I went to blow the fire a-flame,
But something rustled on the floor,
And someone called me by my name:

It had become a glimmering girl
With apple blossom in her hair
Who called me by my name and ran
And faded through the brightening air.

Though I am old with wandering
Through hollow lands and hilly lands,
I will find out where she has gone,
And kiss her lips and take her hands;

And walk among long dappled grass,
And pluck till time and times are done,
The silver apples of the moon,
The golden apples of the sun.


O poema musicado e cantado pelo escocês Donovan:
https://www.youtube.com/watch?v=UQUT6mS0eY8



tentativa de tradução:

Canção do Aengus Errante

Saí para o bosque das aveleiras
Pois estava com a cabeça a arder,
Cortei e alisei um ramo de aveleira,
E atei uma baga à ponta de um cordel.


E, quando as brancas mariposas voavam,
E estrelas-mariposas se extinguiam,
Lancei a baga para um riacho
E pesquei uma trutazita prateada.

Quando a pousei no chão
Fui soprar o lume a avivar a chama,
Mas alguma coisa se moveu no chão,
E alguém chamou pelo meu nome:


Tinha-se tornado numa jovem luminosa
Com flores de macieira nos cabelos
Que me chamou pelo nome e correu
e se desvaneceu na luz do amanhecer.

Apesar de envelhecido de tanto vaguear
Por terras cavadas e terras elevadas,
Hei-de descobrir para onde foi,
E beijar-lhe os lábios e tomar-lhe as mãos;


E caminhar entre ervas altas salpicadas de luz
E colher, até ao fim do tempo dos tempos
Os pomos prateados da lua,
Os pomos dourados do sol.