domingo, 24 de maio de 2020

Pinturas e lacados de Shibata Zeshin


Pouco a pouco vou conhecendo mais dos melhores artistas gráficos japoneses da arte Ukiyo-e (séc XVII-XIX), quase sempre com surpesa. Hiroshige, Hokusai, Hashiguchi, Kawase, Takahashi, e agora

Shibata Zeshin (柴田 是真, 1807 – 1891)

Artista gráfico de pintura em papel, laca e gravura, Zeshin viveu nas eras Edo e Meiji; aprendeu pintura e desenho tradicionais, mas também estudou a arte do Haikai, filosofia, o cerimonial do chá. Mais famoso pelos trabalhos de laca, é na pintura em papel que criou as melhores obras. Tentou conciliar a modernidade ocidental com a tradição japonesa mais conservadora; acabou por ter mais êxito no estrangeiro que dentro do seu país, mas todos lhe reconhecem génio e inovação técnica.

O seu estilo abraça o conceito wabi - beleza e elegância na simplicidade - cujo modelo é a cerimónia do chá. Entre outras técnicas, usou bronze nos laqueados para simular a aparência do ferro, e farinhas para engrossar a laca e obter um efeito semelhante à pintura a óleo.

Imagens de algumas obras que consegui na net, com Haikai que adaptei:

Ramos de ameixoeira ao Sol

Pelo meio do arrozal     
vou até à ameixoeira — 
para ver o seu perfume.


Narcisos brancos

Narciso e biombo
   um o outro ilumina
 branco no branco.


Duas Borboletas

A poeira deste mundo
pesa no meu corpo –
voa borboleta!


Garça branca e corvo em voo, ~1880

Vozes das aves.         
    Nessas horas, um poeta
 não tem mais mundo.


Ervas de Outono ao Luar
 
Lua cheia, outono — 
     caminhei a noite inteira
 ao redor do lago.      


Casa de lavrador


O inevitável monte sagrado, lindíssimo:

Monte Fuji, 1872


'Ondas', painel maki-e, 1888-1890


Estou a precisar de ver uma boa exposição !

quarta-feira, 20 de maio de 2020

Sob as estrelas, com Matt Gaw numa praia da ilha de Coll


Esteve aqui ao lado como Livro de Cabeceira o último de Matt Gaw, Under the Stars, que entre outras coisas me fez descobrir a ilha Hébrida de Coll. Hei de mostrar mais um pouco desse lugar, mas hoje cito um pequeno excerto do livro, em tradução minha.


Gaw alojou-se com a família em Arinagour para poder disfrutar das noites estreladas. É de uma das excursões nocturnas que aqui deixo o relato.

Acesso à praia junto a Arnabost, sobre o machair.


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Visita nocturna a uma praia Dark Sky na ilha de Coll

Tínhamos planeado uma noite tranquila junto à lareira, mas com a dádiva de céu desanuviado mais uma vez estou em pulgas para sair. Recorrendo à promessa de uma noite prolongada e uma termos de chocolate quente, convenço as crianças e a Jen a irem comigo, todos arregimentados no carro dentro de várias camadas de camisolas, casacos, gorros e luvas.

Perto de Arnabost, puxo por uma cancela de metal que assinala a praia. Há do outro lado um caminho bem marcado, seguimos a pé por um acesso em pedras claras que passa numa casa de quinta às escuras e entra pelo machair.*
(...)
Tento pedir-lhes silêncio para ouvir a direcção do mar, a sua troada. Os nossos pés calcam e espremem, para cima e para baixo, a esponja preta do machair. Acaba por surgir um trilho que seguimos até à crista da duna, que cai em declive íngreme para a praia de areia branca, onde poças de água brilham à luz das estrelas.

Paramos. Abrimos a termos de chocolate quente, empoleirados nas dunas. Conversamos em sussurros, como se as estrelas pudessem fugir receosas. Esta noite estão gordas e brilhantes. Aponto as constelações às crianças mas não me parece que queiram saber. Estão aturdidas pela imagem total, grandiosa, a gigantesca massa de milhares de sóis cuja luz é mais antiga que tudo o que elas poderão algum dia conhecer.

É a primeira vez que vêem a Via Láctea. Ofegantes, abrem os olhos ao chuveiro de luz, enquanto processam a ideia de que estão a observar a Galáxia onde habitam. Tentamos juntos descrever, espuma de leite, geada, bolor, espuma do mar, manchas de sal
(...)
E então começam as estrelas cadentes. Não lhes tinha dito que esperava ver Oriónidas, não queria desapontá-las, mas agora elas gritam e ululam a cada fogacho de poeira, cada risco. Vermelho. Uma nuance verde erva. Entre uma e outra ninguém fala, quero que continuem atentos. Digo-lhes, estejam alerta e deixem que a noite vos leve.


(...) penso em todas as noites que tenho visitado. Neve, nuvens, céu limpo, luar e neblina, estrelas caindo e a escuridão que se levanta. Cada noite, quer contenha alegria, espanto, medo ou frustração, foi única; cada experiência mostrou-me a escuridão sob uma nova luz.


* terreno de pasto, mole e esponjoso, de vegetação rasteira sobre duna

sexta-feira, 15 de maio de 2020

Dark Sky Parks, sítios de Reserva de Paisagem Nocturna


Desde 1988 têm vindo a ser criadas reservas naturais de protecção da Paisagem Nocturna, ou seja, do céu estrelado, um projecto da organização Dark Sky. Locais de pouca ou nula poluição atmosférica e luminosa, longe das cidades e pouco sujeitos a agitação dos ares. Uma ideia luminosa, para mim a noite é isso e não turismo de bares.

Como seria de esperar, em Portugal não há nenhum (*) desses parques, mesmo que eu conheça sítios apropriados como Paradela, na serra do Gerês, onde há anos passei uma noite inesquecível a ver a chuva de estrelas cadentes das Perseidas, maravilhado com a Via Láctea.

A maioria dos Dark Sky são nos Estados Unidos, mas a Europa conta com muitos, sobretudo no Reino Unido, Alemanha, Hungria (3), Croácia (2) e um em Espanha, nos Pirinéus catalães: Albanyà - onde foi instalado um observatório 'turístico'.

Começo justamente por aqui, uma imagem nocturna da Via Láctea em Albanyà:

Albanyà, Girona, 42º 18'  N,  2º 43' E

O observatório é só um espaço mediático lúdico, em noites limpas é ao ar livre que se deve estar...



Eifel Park, numa floresta a norte de Trier, na Alemanha, é outro dos mais próximos de nós. Na Alemanha nem deve ser fácil anular o efeito da iluminação artificial.



Menos acessível, no País de Gales, Elan Park estende-se à volta de um lago de barragem:


O espelho de água praticamente imóvel reflecte o céu estrelado; o Vale de Elan é muito isolado, afastado de qualquer área urbana, numa região montanhosa.

A Lua em conjunção com Marte, no céu de Elan Valley.

Na Hungria, um dos três parques, o Zselic, é uma das 'estrelas' mais procuradas dos Dark Sky; uma vista deslumbrante:

Zselic CsillagPark
46º 14’ N, 17º 46’ E
Situado entre o lago Balaton e o Danúbio, numa remota zona de floresta.

Vamos para a Escócia; em Galloway, um sítio fenomenal junto ao lago de Clatteringshaw, barragem do rio do mesmo nome. O acesso faz-se pela A712 ('The Queen's Way'), depois é caminhar, caminhar... até um dos vários postos de observação.

Galloway Dark Sky Park
Clatteringshaw, 55°04′ N, 4°17′ W



No Inverno o céu ainda é mais limpo.


Finalmente, a que eu escolheria, se pudesse até lá viajar; fica nas Hébridas, numa das pequenas ilhas mais isoladas, a 3 horas de ferry de Oban: a Ilha de Coll foi declarada parque Dark Sky, toda ela.

Trepar ao telhado por exemplo.

A capital da ilha, Arinagour, é uma aldeia tão pequena e escassamente iluminada que nem é preciso sair para o interior deserto da ilha: basta ir à rua.


Estrela cadente nos céus da Hébridas.


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https://www.darksky.org/

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(*) Correcção: soube agora da abertura do Dark Sky Aldeias de Xisto ! Hei de lá ir.