domingo, 10 de maio de 2020

Os misteriosos labirintos circulares do Norte da Europa ('Troy Town')


Labirinto Sámi em Nagu, na Lapónia finlandesa.

Há no Norte da Europa um estranho legado histórico na forma de labirintos circulares, que ao contrários dos labirintos habituais mas à semalhança dos antigos, da mitologia greco-romana ou medieval, não têm becos sem saída nem falsos caminhos; seguindo-se direitinho desde a entrada, vai-se infalivelmente dar ao centro. O desenho é inteligente e de alguma complexidade visual.

'Troy Town'

Este modelo de labirinto é há muito conhecido no Reino Unido como Troy Town ou Troy City, e é usado no arranjo de sebes para decoração de jardins. Ninguém se perde lá dentro, embora a certa altura a sensação seja de completa desorientação. O nome provém talvez de um vaso etrusco de ~600 AC onde o desenho figura junto da palavra TRUIA, supostamente Tróia. Havia em Roma um jogo chamado Ludus Troiae que decorria num destes labirintos, provavelmente originário de Creta.



Mas se fosse de facto esta a origem dos modelos que existem nas regiões do Norte, porque não os há por todo o Mediterrâneo ? Outra teoria atribui o nome Troy à palavra celta troian (thrawen) que significa "curvar".

Os mais antigos Troy Towns são de turfa; existe uma dúzia deles. O Dalby Turf Maze fica cerca de 18 km a norte de York.
Plano do Labirinto de Dalby, o modelo clássico de 7 círculos com cruz.



Mais a sul, outro Troy famoso é conhecido por Julian's Bower, em Alkborough, North Lincolnshire:


Este foi datado do século XII, fica nas margens do rio Humber, e tem um desenho mais elaborado: 11 círculos.

Em Somerton, Oxfordshire, num terreno que é privado, existe o maior e mais complexo labirinto de turfa inglês:

Um dos mais antigos (séc. XIV ou XV), o Troy Town de Somerton é um labirinto de 15 círculos, raro em Inglaterra mas frequente na Escandinávia. 

Nas incríveis ilhas atlânticas de Scilly, arquipélago ao largo da costa sudoeste de Inglaterra, há um dos mais espectaculares e bem conservados - mas é do século XVIII !


O modelo do Troy Town da ilha de St. Agnes é já de construção igual ao dos escandinavos, mas é talvez uma cópia, construído, parece, pelo filho do faroleiro da ilha.

Labirintos Sámi na Escandinávia

É esse mesmo desenho que é conhecido na Escandinávia como Trojaborg. Os povos Sámi vivem no norte da Suécia e Finlândia, além de pequenas comunidades na Noruega (Finmark) e Rússia (Kola, ilhas Solovetsky e Bolshoi Zayatsky). Criadores e pastores de renas, mantêm alguns hábitos de nomadismo (acampamentos de tendas). Acontece que é justamente nestas regiões que foram encontrados centenas de labirintos redondos do mesmo tipo dos Troy Town; só na Suécia os 'trojaborg' são mais de 300, incluindo os da Gotlândia.

Um 'Trojaborg' em Visby, Gotlândia

Difíceis de datar, os labirintos de Visby serão medievais, dos primeiros tempos da Liga Hanseática; exames arqueológicos apontam para datas de construção entre os séculos XIII e XVIII, mas podem ter sido 'recuperados' de outros mais antigos - do neolítico,talvez ? Mais mistério.

Labirinto medieval junto à igreja de Frojel, Gotlândia. (**)

Os labirintos escandinavos eram construídos escavando o desenho no solo e, em seguida, depositando pedras grandes, geralmente arredondadas, em cima das linhas escavadas. Por vezes estão próximos de água (litoral, lagos), ou junto de sítios funerários; mas não há nenhuma indicação de relação directa, nem até hoje foi comprovada nenhuma das hipóteses especulativas para o seu significado.

Na Finlândia, são conhecidos por Jatulintarha ('Jardim dos Gigantes') e são cerca de 200; o Finbyn jatulintarha em Nagu (ou Nauvo) é o mais conhecido:

Um bonito labirinto de 11 anéis em Nauvo.

Em frente a Vaasa, na costa do Golfo da Bothnia, há um arquipélago onde se contam muitos jatulintarha, alguns serão medievais mas a maioria é posterior.


Este é numa das ilhas do arquipélago de Kvarken.


Embora seja provável destinarem-se a algum tipo de culto ou cerimonial, estes labirintos continuam a ser monumentos enigmáticos, cujo significado ainda está por desvendar. Não será certamente o 'alinhamento com o sol nos solstícios', nem com a lua; nem sítio de 'ritos e danças de fertilidade' devido a alguma semelhança com a entrada do sexo feminino; nem rituais xamânicos de comunicação com os mortos; já faria mais sentido que seja um 'amuleto' de boa sorte na pescaria, porque quase todos estão à beira de água, em ilhas ou na margem de rios, mas não existe qualquer documentação nesse sentido, e não se consegue obter provas científicas.

Termino com os particularmente bonitos labirintos Sámi da Península de Kola; aqui há cerca de 60 labirintos circulares, só na ilha Bolshoi Zayatsky são 14 ! É uma das ilhas Solovetsky no Mar Branco.

Coberto de tojo da tundra, o labirinto em dupla espiral de Bolshoy Zayatsky.

Curiosamente, os sámi chamam-lhe vavilons (babilónias), e não faltam especulações sobre este nome: será o modelo da antiga Babilónia? São contemporâneos dos Troy escandinavos (séc. XIII - XVIII) e construídos com a mesma técnica de escavar e cobrir de pedras. Mas o que é mais intrigante é que estes labirintos não são do mesmo modelo cretense de 7, 11 ou 15 anéis circulares:  são labirintos de espiral dupla, com um desenho ainda mais complexo:


São labirintos sem fim, entra-se e volta-se a sair depois de o percorrer em toda a extensão. O último que mostro é o de Murmansk, no topo de uma elevação vizinha, nada portanto a ver com água ou pesca.
Uma bela espiral dupla, a datação é medieval.

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Que vemos nesta moeda helenística de 80 AC (um tetradracma), encontrada em Knossos ? A cabeça de Apolo de Delos e... o nosso labirinto circular !


Antiga também é esta pedra gravada do ano 550, encontrada em Wicklow, na Irlanda:

Hollywood Stone , ca. 550: o mais antigo Troy Town do Norte da Europa.

Portanto, o desenho era conhecido, tanto no mundo greco-romano como lá no Norte, desde o início da nossa era ! O conhecimento expandiu-se para oeste e leste, longitudinalmente, desde as ilhas Scilly à península de Kola e suas longínquas ilhas - mas não se manifesta* no centro e sul da Europa. Estranho.

* Há um desenho no chão de Chartres, há uns raros labirintos (modernos) na Alemanha.
** Foto obtida aqui.

terça-feira, 5 de maio de 2020

Fenomenal Brahms: os concertos de piano por Stephen Hough com o Moazrteum Salzburg


O melhor CD para já, dos que irei ouvindo em 2020. Por um lado muito clássico - uma orquestra pausada, solene, com a gravitas alemã, talvez arrastada para quem gosta de Brahms a despachar; mas com uma qualidade sonora - a gravação é espantosa de acústica! - que ultrapassa todas as que ouvi. Stephen Hough também está à altura do génio germânico, não é nada como a pífia Grimaud ou o tímido Freire. Arrisca, com expressiva mas controlada energia, e só tenho a dizer que me convence completamente - deve ter estudado e praticado a fundo para obter uma tal assertividade, sem falhas. Talvez haja passagens em que gostava que ele fosse mais contido ou delicado;  mas nunca é espalhafatoso, pelo contrário, as 'explosões' estão sob firme controle. A anos luz da circense Buniatishvili, também.

Li no Guardian e na Gramophone textos de relativo (des) encanto. Sim nisto, menos bem naquilo. Pois eu fiquei entusiasmado!


With Brahms, everything passes through layers of reflection. He is the great poet of the ambiguous, in-between, nameless emotions: ambient unease, pervasive wistfulness, bemused resignation, contained rage, ironic merriment, smiling through tears, the almost pleasurable fatigue of deep depression. In a repertory full of arrested adolescents, he is the most adult of composers. In the world of Brahms, it is, above all, always late. Light is waning, shadows are growing, silence is encroaching. The topic of lateness and loneliness in Brahms is a familiar one; the adjectives “autumnal” and “elegiac” follow him everywhere. Scholars have tried to parse  Brahmsian melancholy in terms biographical, philosophical, and sociopolitical. He was a self-contained man who never married and prized his separateness.
alex ross nyorker

De Killin ao Crannog de Loch Tay: já vão 27 anos


Outro belo passeio das minhas memórias.

Foi durante a primeira visita à Escócia, baseado em Glasgow; fiquei apaixonado pela cidade, desde a arquitectura e espaços até ao ambiente pacato e civilizado. O Museu, a escola de arte Mackintosh (destruída depois pelo fogo) e a sua casa de chá, o também famoso Teatro Real onde haveria de voltar para um Peer Gynt, Buchanan Street fervilhando pela manhã; até o Princes Square e o St. Enoch Center foram revelações inesperadas de cultura e modernismo que não esperava numa cidade tão marginal na Europa. Encontrei também espaços gastronómicos inovadores como o Fratelli Sarti, uma mercearia italiana que integrava sala de restaurante, acolhedora como poucas (*). Em 1993, ainda era raro; Glasgow em pós-crise resplandecia, bem mais cosmopolita que o Porto.

Mas o passeio tinha dois objectivos: Killin e as suas cascatas e rápidos no rio Dochart, e um lago escocês (o Loch Tay) com o recentemente reconstruído Crannog de Kenmore.


Começo pelas cascatas do Dochart, em Killin:


Uma das melhores vistas é da ponte:

Depois de 'encher o depósito' em Killin, fizémo-nos à estrada sul do lago Tay, mais uma daquelas estradinhas secundárias preciosas ladeadas de águas e arvoredo mas estreitas de assustar. Faz parte da rota histórica Rob Roy Way, recomendada a ciclistas...


Estrada A827 - sul


The Scottish Crannog Centre

Um crannog [ˈkrænəɡ] é uma ilhota artificial num lago, que os povos do neolítico (até à Idade de Ferro) construíam para habitação; consistia numa parede circular em madeira coberta de um tecto cónico de colmo, e um passadiço a ligar com a margem, tudo sobre estacas de madeira. Uma construção palafítica (a lembrar as da Comporta). Embora a maioria datem desde 800 AC, os mais antigos, em pedra, são de ~3000 AC, nas Hébridas. A reconstrução de Kenmore é um Crannog de cerca de 500 AC, talvez já uma adaptação tardia dos celtas da Caledónia. Encontraram-se muitas habitações lacustres deste tipo nos lagos da Suíça, já classificados pela Unesco, na Irlanda e na Escandinávia.
A reconstrução foi feita a partir dos achados da Idade do Ferro na excavação de um sítio arqueológico de há 2 500 anos no Lago Tay.


Das muitas centenas de crannogs existentes na Escócia, alguns foram reutilizados ao logo do tempo, na Idade Média como refúgio, depois como abrigo de pescadores. No centro ardia a lareira, as pessoa dormiam na periferia, e havia ainda um recinto para abrigo do gado (ovelhas ou cabras).



Ao entardecer, uma brisa fresca e pura e o marulhar das águas do lago proporcionavam uma sensação de etére eternidade, a História em descanso ali mesmo, imóvel, parada no tempo. Teria ficado indefinidamente, mas fazia-se tarde e a viagem de regresso seria longa.

Tal como Itália, a Escócia podia ser a minha pátria por opção. Gosto de tudo, menos do clima chuvoso. Um dia de sol escocês é um dia no paraíso.




Saber mais: aqui

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* sei que fez obras de ampliação e perdeu o charme de pequenino.