domingo, 7 de março de 2021

Poemas para sorrir do desânimo, de Brian Bilston


Andamos sorumbáticos, e com razão. Brian Bilston, bem conhecido no Reino Unido pela habilidade e o humor com que manipula as palavras, vem exprimindo em poema o nosso mal de vivre, às vezes com humor, outras vezes com aflição, sempre muito simples na forma.

    COMPOSITION 

    the human body
    is sixty per cent water,
    he read,

    then sat there,
    alone and frowning,

    wondering
    whether that was why
    he’d always felt

    as if he was
    slowly drowning.

                                         o corpo humano
                                         é sessenta por cento água,
                                         leu ele,
       
                                         depois sentou-se ali,
                                         sozinho e cismando,

                                         questionando
                                         será talvez essa a razão
                                         por que há muito se sentia

                                         como quem está
                                         lentamente se afogando.




    MORNING SYMPHONY

    Those blasted birds are at it again
    Singing about you at 6 a.m.,

    forcing me up to make the tea
    down the staircase thar creaks

    your name to the kitchen.
    There's music there, too. I listen

    to the gushing of the taps
    and, after the lighting of the gas,

    the kettle begins to croon
    its familiar, ancient tune,

    as old as love itself, this song.
    You, snoring. Me, whistling along,
  
    what a symphony this is ! 
    And then there's the fridge
  
    joining in, humming gently,
    not yet even half-empty.
  
                   
                     SINFONIA MATINAL

                     Outra vez o raio da passarada
                     A cantar pra ti às 6 da alvorada

                     tenho pois de ir tratar de aquecer
                     o chá, escada abaixo a ranger 

                     o teu nome até à cozinha e ao fogão.
                     E há música por aqui. Ouço o som

                     das torneiras com água a jorrar 
                     e o gás assim que o consegui ligar

                     a chaleira que a silvar anuncia
                     a familiar, a antiga melodia

                     antiga como o amor, esta canção,
                     Tu a ressonar. Eu a assobiar um refrão

                     Que sinfonia esta, eu vos digo!
                     E junta-se ainda também o frigo

                     a zumbir baixinho de permeio                       
                     longe de vazio, mas não cheio. 
         

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Que tal, bonito esforço de tradução, não ?  
A chaleira ao lume deu-me uma vontade doida de chá, torradas e compota. Até.    
                 

 

quinta-feira, 4 de março de 2021

A mais famosa das Allemandes - audição comparada da BWV 828


Numa peça para piano com menos de dez minutos, uma diferença de três ou quatro minutos é enorme, colossal. Mas é o que separa Glen Gould de Murray Perahia ou Sokolov na Allemande da Partita nº4, BWV 828 de Bach. Alguma está errada, alguma é obviamente uma 'má' interpretação? Não. Mas torna-se evidente aqui o grau de liberdade da interpretação, a contribuição do intérprete para a obra que escutamos. Nem todo o génio é de Bach portanto, há um traço que pode ser bem forte deixado, neste caso,  pelo pianista.

Uma Allemande é uma dança instrumental barroca, muitas vezes parte de uma sequência que pode incluir Courante, Gigue, Bourée, Sarabande, etc. Foi prática comum de compositores como Couperin, Rameau, Purcell, Bach ou Handel.  Na Partita nº 4 de Bach, o início é uma Abertura à Francesa no estilo da corte de Louis XIV, pomposo como uma procissão cerimonial, a que se segue uma fuga contrapuntística em três partes que parece já transitar para a dança.

A Allemande vem logo depois, num tempo muito fluído que permite por um lado ouvir as progressões harmónicas sob as ornamentações da melodia; e por outro lado esse contraponto de cadências curtas da mão esquerda exerce um controle sobre os longos delírios das frases melódicas, que esvoaçam constantemente numa grande variedade de ritmos. 

Começo com duas interpretações modelo, que são as minhas favoritas: Maria Tipo, já lá vão 30 anos, e Murray Perahia, talvez o melhor das últimas décadas. Subtilidade nos dedos, evasão e entrega, e a capacidade de nos fazer sentir o que sentem. Ah, e as pausas, o silêncio!

Maria Tipo, 8:42

Murray Perahia, 9:20
Que grande interpretação !

Dentro dos 8 - 10 minutos há muitas outras boas gravações, como a de Ângela Hewitt (9:24).

Vamos aos extremos. Glen Gould baixara para 6:25 na sua interpretação tardia ao vivo, uma coisa estranha, com acentuações fora da norma, parece um autómato avariado, ou um génio, conforme.
Glen Gould 6:25


Nelson Freire, que não nasceu para tocar Bach, ainda desce mais para  6:11 minutos , mas é um desastre:
Bach 'sempre a andar', missão cumprida.

No outro extremo, lentidão, um dos piores é Sokolov. Não consegui uma gravação online, fiquem com David Fray nuns exasperantes 11.37. 


A diferença para Gould é de quase 5 minutos, metade do tempo médio 9:30 ! Só pode estar errado.

Agora para contrastar, no cravo, com 6:22 (tal como Glen Gould); naturalmente, menos meditativo.  Há quem passe dos 10 minutos mesmo ao cravo.



Tudo o que sucede com a Allemande sucede com o resto da Partita, aliás com todas as Partitas de Bach. Trabalho de casa !



domingo, 28 de fevereiro de 2021

Extraordinários Vidros Romanos - exposição em confinamento.


--- agora vou ser uma espécie de curador de exposições virtuais, tanta é a  sede de museus ---

A arte do vidro começou talvez na Síria, com os primeiros sopradores cerca de 100 AC, mas foi durante o período Romano tadio que se atingiu na Europa uma perícia mais sofisticada que ainda surpreende. Os romanos criaram novas formas e cores pela adição de óxidos ao vidro - níquel e cobre para azul, ferro e manganésio para amarelo, potássio para verde...; inovaram sobretudo na moldagem e na técnica de sopragem.

No Museu Paul Getty de Los Angeles há uma grande e e belíssima colecção de vasos romanos de vidro. Esta é uma taça 'bordeaux' com nervuras e traços brancos espiralados em volta das nervuras. Data: séc. I AC.


Também no Getty de L.A., datada de I DC, esta garrafa foi obtida pela fusão conjunta de várias tiras de vidro diferentemente coloridas, distorcidas durante o processo.


Outra taça, também no museu Getty, esta fabricada com uma técnica altamente evoluída de moldagem.
Séc.I  AC
Branco opaco, púrpura, amarelo-mel, azul cobalto, incrustrações - o auge do talento de um vidreiro romano. Uma obra prima !

Passemos agora ao MET de Nova Iorque; também quase intacta, uma caneca de I - II DC
num levíssimo azul cobalto :


Regressemos à Europa. Em Ljubljana (a Emona dos Romanos) foi encontrada esta linda taça millefiori, mas do século I DC. Está no museu da cidade.


O efeito mosaico (millefiori) era obtido pela fusão conjunta de pedacinhos de vidro de diferentes cores.

De paragens mais longínquas, de Varpelev e Højerup, Dinamarca, são estas taças já mais tardias, dos séc. III-IV DC, decoradas com animais:


Foram achadas nas margens do rio Tryggevælde Å, enterradas nas lamas, e num monte funerário próximo, Himlingøje.


Estão agora no Museu Nacional, em Copenhaga, tal como este raro corno de beber Romano em vidro, com a mesma origem. Na Dinamarca, quem diria.

O corno de Himlingøje: não foram os Vikings os inventores do corno para beber, embora este, do séc.III, os possa ter inspirado.

Os famosos vasos em gaiola, ou reticulados (Vas Diatretum), são mais tardios, muito trabalhosos e caros, um luxo de gente poderosa. Encontrou-se em Colónia este, do séc. IV, fabuloso. Está agora num museu de Munique.

Inscrição: 'Bibe multis annis', bebe por muitos anos

A deslumbrante mestria atingida pela arte romana do vidro.

Continuemos esta navegação pela Europa Romana dos vidros; no Museu Britânico existe outra peça famosa, a Taça de Licurgo (~300 DC), que para além do trabalho tem a peculiaridade de variar de cor conforme a incidência da luz.

Verde-jade com luz de frente, vermelho com luz por traz. O efeito é obtido com partículas ínfimas (1 milésimo de um grão de sal refinado) de ouro e prata, mas o processo foi sem dúvida acidental, não havia na altura técnica para manipular partículas que nem ao microscópio óptico são visíveis. ´Mistério´!


Um cálice com 1600 anos que parece acabado de fabricar.

A maioria dos museus italianos possui alguns espécimes desta arte; Nápoles (de Pompeia), Milão, Bolonha, Agrigento, Verona. Mas no Museu de Adria estão exemplares assinados, portanto de autor conhecido e brioso da sua arte.

As chávenas azuis de Adria, do Séc. I , têm a marca do seu autor, Ennion.


Ennion era conhecido em todo o Mediterrâneo pelos seus vidros coloridos. Nascido na cidade fenícia de Sidone, encontraram-se obras suas em Chipre a até na Crimeia.

No museu de Bolonha, vi esta incomparável taça millefiori azul, encontrada em Adria (Veneto):

Da transição do Séc. I  AC para o Séc. I  DC; em vidro ametista incrustrado de amarelo, branco e verde.

Saber mais: