domingo, 21 de fevereiro de 2010

Maria João Pires, com Pavel Gomziakov, na C.M.

Quem já ouviu Maria Jão Pires em concerto sabe que a experiência tem algo de transcendente. O fluxo de música que jorra daquelas mãos não é deste mundo. E ontem, na Casa da Música, MJP devia estar em dia SIM: com aquela fragilidade aparente, conseguia no teclado narrativas de encantamento absoluto, eu (e as pessoas ao meu lado!) estava suspenso de cada nota, de cada silêncio ( e que silêncios!) , de cada stacatto, hipnotizado em absoluto espanto.

Tanta delicadeza, fluidez, intensidade emotiva, quase faz esquecer a exigência técnica das obras. As variações para piano, WoO80, devem ser bem mais difíceis do que pareciam, e para se conseguir aqueles momentos mágicos no adagio da Sonata "Tempestade" para piano (Op.31, nº.2) é preciso um domínio tão fabuloso das mãos, do teclado e de si própria que dá vertigens.

Na Sonata para violoncelo e piano nº.3 , Op.69, última do programa, Pavel Gomziakov estava em total empatia com MJP : o violoncelo todo em doçura e leveza fazia também maravilhas, e foi outro momento de sublime narativa: era como estar a ouvir uma história contada, onde se entrecruzavam aventura e contemplação, vitória e declínio, arrebatamento e depressão, tudo mérito de Beethoven, claro, mas não deve haver melhor par de mãos para o exprimir que as de MJP. O que mais admiro, afinal, é que Maria João Pires não "toca": tem um conceito. A obra nas mãos dela transfigura-se noutra coisa que é o seu sentir tornado conceito. Planeado ? Improvisado? Não sei. Mas resulta em milagre.

4 comentários :

Gi disse...

Ainda bem que lá foi, Mário, que ela ameaça deixar os concertos, segundo soube pelo Paulo

Mário disse...

Gi,

Ela não aparenta nada estar cansada de concertos ou dar-se mal com a solidão do artista frente ao público (estava bem acompanhada, aliás). E é muito temperamental, como é sabido. Vamos ter esperança.

Moura Aveirense disse...

Obrigada pelos comentários sobre o concerto, é sempre um momento mágico ouvir MJP. Ela já tem estado algo afastada, faz muito menos concertos que antes. Acho algo natural... infelizmente para nós, claro está.

Paulo disse...

Ainda bem que foi, Mário. Estava eu a pensar, há uns dias, que quem estivesse na CM devia beber cada nota saída dos dedos de MJP como se fosse a última. Infelizmente para nós, ela um dia deixará de tocar. Temo que não a voltarei a ver ao vivo, o que me deixa numa grande angústia.