sábado, 1 de março de 2014

Ler e Reler: Uma Luz Antiga, de Banville


É talvez o melhor livro de John Banville, os temas habituais - o envelhecimento, a perda, mas mais ainda a descoberta tardia de uma vida vivida no engano, em múltiplos e irremediáveis enganos que pulverizam as memórias, até então refúgio seguro.


Vou aqui citar duas passagens que descrevem efeitos de luz, recorrentes no livro - cujo título aliás joga com uma antiga lei inglesa que dava direito a ver a luz do céu (impedindo construções em altura vizinhas) e ao mesmo tempo com uma outra luz, a que se projecta em momentos mágicos especiais sobre quem tem a sorte de a ver.

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« The curtains were thick and drawn tightly shut, and I did not realise the dawn had come up until I saw forming above me a brightly shimmering image that spread itself until it stretched over almost the entire ceiling. At first I took it for an hallucination generated out of my sleep-deprived and still half-frantic consciousness. Also I could not make head or tail of it, which is not surprising, for the image, as after a moment or two I saw, was upside-down. What was happening was that a pinhole-sized opening between the curtains was letting in a narrow beam of light that had turned the room into a camera obscura, and the image above us was an inverted, dawn-fresh picture of the world outside. There was the road below the window, with its blueberry-blue tarmac, and, nearer in, a shiny black hump that was part of the roof of our car, and the single silver birch across the way, slim and shivery as a naked girl, and beyond all that the bay, pinched between the finger and thumb of its two piers, the north one and the south, and then the distant, paler azure of the sea, that at the invisible horizon became imperceptibly sky. How clear it all was, how sharply limned! I could see the sheds along the north pier, their asbestos roofs dully agleam in the early sunlight, and in the lee of the south pier the bristling, amber-coloured masts of the sailboats jostling together at anchor there. I fancied I could even make out the little waves on the sea, with here and there a gay speckle of foam.
...
As the sun rose the inverted world above us was setting, retreating along the ceiling until it developed a hinge at one edge and began sliding steadily down the far wall and poured itself at last into the carpet and was gone. »


Os cortinados eram grossos e estavam bem fechados, e eu não sabia que já tinha amanhecido, quando vi formar-se acima de mim uma imagem cintilante que se espalhava esticando-se sobre quase o todo o tecto. De início tomei-a por uma alucinação gerada pela minha consciência privada de sono e ainda meio frenética. Também não conseguia distinguir o que via, o que não é surpreendente, pois a imagem, como percebi depois de uns momentos, estava de pernas para o ar. O que acontecia era que uma abertura do tamanho de uma cabeça de alfinete entre as cortinas deixava entrar um estreito feixe de luz que tinha transformado o quarto numa câmara escura, e a imagem por cima de nós era um retrato invertido do mundo exterior feito pela luz da fresca madrugada. Havia a estrada sob a janela, com sua pista de macadame azul amora, e, mais perto, uma bossa preta e brilhante que fazia parte do tejadilho do nosso carro, e o único vidoeiro prateado das cercanias, magro e tremente como uma menina nua, e além de tudo isso a baía, cingida entre o dedo e o polegar dos seus dois molhes, um a norte e outro a sul, depois o azul mais distante e pálido do mar, que, no horizonte invisível, se tornava indistintamente céu. E como tudo era claro, finamente delineado ! Conseguia ver os barracões ao longo do molhe norte, os seus telhados de amianto brilhando ao primeiro sol da manhã e a leste do outro molhe os elevados mastros cor de âmbar dos veleiros, todos juntos lá no ancoradouro. Imaginei que podia mesmo entrever as pequenas ondas no mar, com um salpico alegre de espuma aqui e ali.
...

À medida que o sol subia o mundo invertido por cima de nós ia baixando, recuando ao longo do tecto até que formou uma espécie de dobradiça num dos cantos e começou a deslizar com firmeza pela parede abaixo e derramou-se finalmente na carpete e se foi.


« If I must choose one memory of Mrs Gray, my Celia, a last one, from my overflowing store, then here it is. We were in the wood, in Cotter’s place, sitting naked on the mattress, or she was sitting, rather, while I half lay in her lap with my arms loosely draped about her hips and my head on her breast. I was looking upwards, past her shoulder, to where I could see the sun shining through a rent in the roof. It must have been hardly more than a pinhole, for the beam of light coming through it was very fine, yet intense, too, radiating outwards in spokes in all directions, so that at every tiniest adjustment of the angle of my head it made a shivering, fiercely burning wheel that spun and stopped and spun again, like the gold wheel of an enormous watch. It struck me that I alone was witness to this phenomenon sparked at this one insignificant point by the conjunction of the great spheres of the world—more, that I was its maker, that it was in my eye it was being generated, that none but I would see or know it.»

Se tenho que escolher uma recordação da senhora Gray, a minha Celia, uma derradeira, da minha transbordante loja, então é esta. Estávamos no bosque, na casa de Cotter, sentados nus no colchão, ou estava ela sentada, melhor dizendo, enquanto eu estava meio deitado no colo dela, com meus braços soltos sobre as ancas e a cabeça no seu seio. Eu estava a olhar para cima, por sobre o ombro dela, para onde podia ver o sol a brilhar através de uma brecha no telhado. Devia ser pouco mais do que um furozito, porque o feixe de luz que passava era muito fino, ainda que intenso, também, irradiando para o exterior faíscas em todas as direções, de tal modo que por cada mínimo ajuste do ângulo da minha cabeça fazia uma cintilante e ardente roda de fogo que girava e parava e girava novamente, como uma roda de ouro de um enorme relógio. Estranhei que só eu fosse testemunha deste fenómeno, desencadeado num único ponto insignificante pela conjunção das grandes esferas do mundo — mais, era eu o seu criador, era no meu olho que estava a ser gerado, mais ninguém senão eu iria ver ou saber dele.

[trad. minha]

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