terça-feira, 21 de julho de 2015

Museu Europeu da Hansa:
Uma História Hanseática vista de Lübeck.


A visita ao Museu, que abriu em 2013, está na base deste pequeno resumo. Algumas fotografias fazem parte da exibição.
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Rotas de comércio na Eurásia, nos século XI-XII

De certa forma, tudo começou em Novgorod (Veliki-, não Nizhni-). Esta antiga cidade russa no rio Neva, bastante interior, era um mercado intenso entre oriente e ocidente já no século X, e um dos términos da rota da seda. Pela Idade Média, foi-se tornando no maior e mais próspero principado da Kiev Rus', a Rússia de Kiev, país de eslavos, cossacos e sobretudo nórdicos (varangianos ?), os chamados Rus.

Novgorod na Idade Média - no rio há 'kogge', os barcos do Báltico germânico.

No séc. XII, o principado de Novgorod já englobava a Rússia ocidental, a actual Ucrânia e a Bielorússia. Mas Novgorod livrou-se de ser submetida pelos tártaros e mongóis, o que lhe deu mais liberdade de prosperar nos séculos seguintes.

O Kremlin de Novgorod (actual).

Do lado de cá, foi Visby, cidade da ilha sueca da Gotlândia, que iniciou o comércio dos povos germânicos com Novgorod; a rota ligava o Báltico ao lago Ladoga e descia o rio Neva. Era uma viagem atribulada, ameaçada por rochedos perigosos, assaltos, baixios, com recurso a trasbordo para barcas de fundo chato para navegar o Neva.

As rotas marítimas foram sendo aperfeiçoadas, e os navios melhorados. Em regra, visitavam Novgorod duas vezes por ano, ficando em estadia de vários meses, à espera do clima favorável ao regresso. O navio mais utilizado nessa rota ficou conhecido por Hansekogge :


O kogge parece uma derivação dos barcos Vikings ; o mais antigo encontrou-se na Jutlândia, Dinamarca. Era frequente por toda a Europa do Norte na Idade Média, com o seu casco de bojo largo e vela quadrada.


No séc XIII, o Reino da Dinamarca, sob Valdemar II, englobava o sul da Suécia (Visby) e a costa do Báltico, de Lübeck até à Estónia. Desde 1200, os povos eslavos e bálticos passavam pela conversão ao cristianismo, num processo que foi um longo período de paz benéfico para o comércio.

Lübeck, fundada em 1143 numa pequena ilha da costa báltica, tirava proveito da sua pertença a esse mundo alargado da cristandade (uma espécie de globalização medieval, digo eu). Os mercadores não deixavam de apoiar as cruzadas, pois beneficiavam com a simpatia dos reinos cristãos.

A principal rota mercante no séc. XIII era Lübeck - Novgorod via Visby. Transportava peles, cera e madeira, mas também âmbar e linho.

Alguns 'kogge' frente ao cais de Lübeck, 1350.

Em 1230, Lübeck tornava-se conhecida como a Raínha do Báltico, pela preponderância dos seus mercadores em toda a região. Em 1259 foi assinado um tratado que regulava o mercado no Báltico, a que 25 cidades aderiram - entre elas Wismar, RostockRiga, Visby e Bergen (Novgorod nunca pertenceu à Liga, era apenas o seu entreposto mais oriental). Pouco a pouco a cidade de Lübeck foi-se tornando a sede da lei e dos tribunais que a faziam aplicar a toda a região, tendo em Bruges, que não aderiu, a única concorrente.

Era particularmente difícil lidar com pesos e medidas, uma vez que cada cidade tinha o seu sistema, por vezes muito diferente. O acordo estipulava que escalas e pesos germânicos passariam a ser a norma aceite em todos os portos.

Facsimile do acordo de 1259 (Museu de Riga).

Tábua de mercador - os entalhes representam entregas, empréstimos, transações.

A pesagem - uma dor de cabeça, que podia dar discussões intermináveis e violentas. A calibragem da balança variava conforme a mercadoria...

A contabilidade. Em 1290, um negociante de tecidos registava neste livro o crédito que dava aos clientes. Cada entrada é um nome e a respectiva ocupação, que dá uma ideia da fiabilidade do cliente: jardineiro, artesão, padeiro, padre, cavaleiro, lavrador.

Como já documentei no post anterior, a arquitectura urbana adaptava-se a este crescimento da sociedade mercantil nos finais da Idade Média.  Era no interior das casas de mercadores, nos diferentes andares, que se armazenavam as mercadorias, dispostas segundo as necessidades de ventilação contra a humidade.


Peles, luxo muito procurado (marta, arminho, raposa, vinham de Novgorod) e tecidos, ficavam numa semi-cave de rés-do-chão, junto com a cutelaria.


No andar intermédio, conservas de alimentos.
Peixe fumado e em sal, carne fumada, alguns hortícolas.

Nos andares superiores, cereais, grãos e fruta.


O que acho mais engraçado nisto é que, à sua maneira, cada casa de mercador era um 'super-mercado', ou mesmo um centro comercial, cada secção com o seu produto, que o cliente (muitas vezes um intermediário) percorria subindo aos vários andares... e comparando preços com os da casa ao lado! Tirando a afixação de preços e a refrigeração, as coisas não mudaram muito.

Lübeck, a Raínha da Hansa, e as outras. Riga, Rostock, Stralsund, Visby, Vismar, todas ainda preservam magníficos centros históricos dessa época.

Em meados do séc. XIV, talvez em 1356, nasceu a Hansa, ou associação, das cidades mercantes do Norte. Os italianos já antes tinham formado as suas Compagnie, em que vários parceiros da mesma área de negócio se juntavam para colaborar, e os mercadores do Báltico tiveram de reforçar o poderio da sua aliança.

A tarefa da Hansa era garantir a segurança dos transportes, regular as tarifas nos diversos portos da Liga, zelar pelo bom estado das frotas, dos portos e dos faróis, elaborar mapas aperfeiçoados, treinar pilotos.

As cidades do Báltico e a sua Liga dominavam então todo o comércio do norte da Europa, e os mercadores de Génova e Veneza dominavam a Sul. Na costa atlântica, era o porto francês de La Rochelle, com o precioso sal, que mais comerciava com a Liga. No Báltico oriental, Visby, Riga e Tallin mantinham o contacto com as rotas fluviais russas, de lá importando madeira, as muito desejadas ceras, e cereais.

As cidades bálticas da Hansa tinham muitas semelhanças:
Arquitectura gótica em tijolo, empenas em escada, casas porta com porta alinhadas ao longo do cais de atracagem dos kogge, contra o fundo urbano semeado de torres ponteagudas (acima: Dantzig, hoje Gdansk).

Centro de Wismar, uma das mais bonitas cidades da Hansa.

Riga, fundada em 1200, tornara-se muito próspera graças ao papel de porto intermediário entre oriente e ocidente:
Riga, 'empório célebre'.


Mas estava a chegar a peste...

O final desse século XIV foi um dos piores períodos da Europa, uma época de tragédia inimaginável. Fomes, guerras, pirataria, tumultos; em 1347 começa a fazer vítimas a pior praga de sempre; a segunda vaga de peste, em 1367, deu cabo do pouco que ainda havia. A vida social entra em colapso, a Europa do Norte em coma profundo.

Não, não foram as frotas holandesas e inglesas nem as descobertas portuguesas que acabaram com o negócio da Hansa. Ele já estava de rastos. Quando, passada a praga, pôde renascer a actividade mercantil, o mundo já era outro, sem sombras de rota da seda, deslocalizado para poente, e a redesenhar fronteiras de modo nada pacífico.

Rotas bálticas geridas por Bergen, no séc. XV

Embora Lübeck tenha mantido grande prestígio durante os séculos XV e XVI, a Raínha da Hansa já passara o bastão - e seriam Visby e Bergen, que já vinham crescendo desde 1343, que partilhariam a liderança no Báltico. Mais tarde, em 1525, uma frota de Lübeck iria retaliar incendiando Visby, e acabar com o seu protagonismo. Entre pilhagens, doenças e guerras, a Hansa terminaria em 1630.


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Museu Europeu da Hansa, Lübeck



2 comentários :

Gi disse...

Estou a gostar muito desta série de posts e da história que contam - e como a contam.
Mas Bruges faz parte deste universo? Ou é outra Bruges?

Mário Gonçalves disse...

Sem a autoridade de historiador, Gi, parece-me que Bergen, Bruges, Londres, Estocolmo, Aalborg, e Novgorod, nunca fizaeam parte da Liga Hanseática. Simplesmente havia lá entrepostos (kontor) da Liga, que tratavam do negócio import-export, mas sem que a cidade integrasse a Hansa, não sendo portanto obrigada a cumprir os seus regulamentos nem estando sob a sua protecção.

Excluindo a costa sul do Báltico - alemã, prussiana ou russa - só Visby integrou de facto a Liga hanseática.

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