quarta-feira, 27 de julho de 2016

Cheltenham e os Barokksolistene: um festival


O Festival de Música de Cheltenham


Era numa cidadezita assim que eu gostava de viver. Pequena, bonita e airosa, florida e sossegada, claro; e que me desse ao menos uma vez por ano uma série de bons concertos, do mais alto nível. O mais parecido que tenho é Guimarães com o seu excelente GuiJazz, mas prefiro música clássica; já fui duas ou três vezes ao de Sintra, só que agora tem sido de uma total vulgaridade; o da Póvoa ainda escapa mas o sítio e o ambiente valem nada.

A pequena Cheltenham tem séries de casas elegantes do séc. XIX em terrace a que chamam Crescent mesmo sendo uma frente plana e não em crescente, pintadas de branco ou creme, algumas lojas com requinte numa larga rua pedonal arborizada, um jardim central aberto e um Teatro - o antigo Town Hall.

A elegância 'regency' de Cheltenham.

A fama de Cheltenham vem das corridas de cavalos, o que leva lá uma multidão posh durante o festival em Março. Interessa-me mais a ligação à música clássica que vem de Gustav Holst, lá nascido em 1874, e com placa e estátua no jardim central.

Gustav Holst, estátua no jardim.

Este festival(zito) de música muito descomprometido e informal é um misto de Proms e folk - Proms na informalidade e popularidade, folk pela malta que vai sentar-se na relva do jardim com gelados ou fatias de bolo ouvir os concertos livres (em geral clássicos muito ligeiros) debaixo de um palco amovível coberto. Sempre com o relvado impecável !



Dos Proms de Londres veio este ano um dos pontos fortes do programa - Nicola Benedetti com a Liverpool Phil dirigida por Vasily Peterenko. Vinha também o pianista Melvyn Tan (Beethoven, Liszt). Pelo meu calendário, tive esta escolha:

Barokksolistene de Bergen
Bjarte Eike, direcção/violino

Purcell, Suite from Diocletian 
Corelli, Concerto Grosso in D Op. 6 No 4
Vivaldi, Concerto in D, RV 93 (mandolino)
Rebel, Les caractères de la danse 
Bach, Concerto for 2 violins BWV 1043
Handel, Royal Fireworks Music.




A execução foi de primeira água, seguindo o modelo de fidelidade histórica nos instrumentos, e nos tempi de forma radical, sem o mínimo vibrato, e foi tão empenhada e calorosa, tão adequada a concerto de Verão, que estive feliz de princípio ao fim.

Gostei imenso do entusiasmo do público, com quatro chamadas ao palco e forte aplauso - mas todos sentados. Cada vez me irrita mais a moda pacóvia seguida no Porto que estipula, mesmo no concerto mais falhado, três bravos e  dezenas de entusiastas em pé de imediato, a mostrar como são bons a aplaudir, como se tivessem percebido o momento divino único que a muitos outros deixou enfadado pela fraca execução. Enfim, coisas de província.

A formação inicial mais restrita foi alargada nos 'Fireworks' com uma secção de metais à boa maneira inglesa: forte e festiva.



A opção conceptual que Bjarte Eike imprimiu ao criar o agrupamento BaS em 2005 é com certeza iconoclasta e arriscada mas não deixa de ter graça e o mérito de percorrer um caminho novo na procura do público jovem dos concertos pop/rock/folk. Diz ele que a música barroca era a música pop da época, ou a música de pub na época de Purcell; e por isso os BaS, em várias configurações, procuram um ambiente informal, alegre e comunicativo, nos seus concertos. Pode parecer que estão à procura de êxito e aplauso fácil, mas quando os ouvimos tocar percebe-se o elevado grau de mestria e dedicação. Comparo-os aos mediterrânicos Hesperion XXI de Savall, também eles seduzidos pelo folclore andalus, arménio e outros.

O CD mais recente dos Barokksolistene, com música de Handel, Corelli e Veracini:

Como amostra deixo ficar esta ária , canta (menos bem) Tuva Semmingsen.
O fairest of ten thousand fair (Acis & Galatea - Händel)




O site oficial é divertido:
http://barokksolistene.com/alfa/

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