sexta-feira, 16 de março de 2018

Há 50 anos: o NCR Elliott trazido por Rogério Nunes dava início à informática em Portugal


Tem estado a decorrer na Faculdade de Ciências da U.P. um programa* de homenagem ao professor Rogério Nunes, a recordar ter sido por sua iniciativa que a Universidade do Porto foi a primeira do país a ter um computador.
A "engenhoca" (ocupava uma sala bem grande) foi encomendada à Elliott (inglesa), que tinha parceria com a americana NCR. O modelo NCR-Elliott 4100 funcionava a 24 bits, com 16 kB de memória, o que já era bem bom na época.

Empacotado em grandes caixotes.

Chegou em 1967, mas a inauguração, com alguma pompa (tinha sido caríssimo, um investimento a que o Estado Novo só cedeu por grande empenho de Rogério Nunes) foi no ano seguinte. Ficou instalado no edifício da actual Reitoria, no laboratório de cálculo automático (LACA) dirigido por Rogério Nunes.



Este post sai bastante da linha habitual do Livro de Areia: é uma memória da minha carreira académica na Fac. de Ciências e na Fac. de Engenharia do Porto, quando fui 'obrigado', muitas vezes de má vontade, a programar em Fortran IV rotinas e sub-rotinas para pequenas tarefas numéricas, como aplicar o método de Newton ou operar com matrizes. A má vontade devia-se a que: 1º era preciso aguentar em fila de espera; e 2 º, as primeiras tentativas eram sempre votadas ao fracasso - o Elliott respondia ERROR à fita furada com as minhas instruções. Era muito temperamental - hoje sei que era muito dado a "erros de paridade", que implicavam reiniciar o computador... Primeiro que acertasse era um dia do juízo, e precisava quase sempre de ajuda. Por vezes acertava ao fim do dia, na hora de fechar, e já não dava tempo para ver o resultado impresso. Trazia só um troço de fita perfurada, enrolado e fechado numa saca de plástico (hoje seria uma pen) e ficava a ruminar até às tantas em vez de dormir.


Um dos manuais indispensáveis, o macráquen.

Havia uma grande animação e expectativa em torno da nova máquina, especulava-se sobre o que era capaz de fazer, como iriam os computadores evoluir. O "2001 Odisseia no Espaço" chegou em 1968, nem um ano depois de chegar o Elliott ! O filme contribuiu imenso para esse fascínio que os primeiros computadores de memória magnética exerciam (belo, trágico Hall 9000 !).

O Hal 9000 era enorme... como a ficção se enganou ! Uma década antes de 2001 já estava tudo reduzido ao microprocessador.


Mas fez-me muito mais feliz, anos mais tarde, o ZX Spectrum que podia ter em casa e do qual tirava imenso proveito. Os programas em BASIC também eram muito mais acessíveis e intuitivos, mas reconheço que a experiência anterior como FORTRAN ajudou.

O ZX, que surgiu em 1982 (faz 36 anos), acabou por ser a causa da 'morte' do Elliott, ao fim de 15 anos. Mesmo sem ser nada que se compare sequer a uma calculadora gráfica escolar, conseguia fazer muito mais que a grande máquina de memória em fita magnética.

Devo, devemos portanto ao professor Rogério Nunes uma sopradela de modernidade no meio académico portuense. Pessoalmente, devo-lhe ainda o ter apreciado com ainda mais intensidade o genial filme de Kubrick.

Mais tarde, voltei à programação, em linguagem Pascal, e consegui obter alguns belos fractais. Ainda o bichinho do Elliott - obrigado Doutor Rogério.


ler mais:
www.memtsi.dsi.uminho.pt/livros/mesa2.pdf
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* A homenagem - exposição, coordenada pelo professor Francisco Calheiros,  tem lugar na Biblioteca da Fac. de Ciências da U.P.

1 comentários :

Pedro Calheiros disse...

O que faço hoje é o resultado de uma visita ao LACA com o Xico... e depois saber que o Eng. Madureira (Eng. de Minas) tinha sido o director...

Acho muito fixe a inicitaiva de trazer este facto bem relevante à noss memória!

Abraço