quinta-feira, 22 de março de 2018

Lenda bretã: 'Le roi d'Ys', a cidade faustosa da princesa Dahut


Receia-se a subida continuada das águas do mar, ameaça que poderá mesmo submergir cidades costeiras... A ideia de cataclismo oceânico não é recente, fez sempre parte dos terrores imaginários.

Platão não chegou a situar a Atlântida com rigor - talvez fosse Thera (Santorini), talvez os Açores - mas datou-a por volta de 9000 AC; o sueco Rudbeck situava a Atlântida na Suécia, cerca de 1500 AC ! Esta Atlântida bretã, transmitida oralmente, é bastante mais moderna: tem lugar durante a transição da cultura celta druída para o cristianismo; fica na região de Douarnenez, e chama-se Ys.

A primeira versão escrita foi recolhida por Émile Souvestre em 1844, da boca de um pescador bretão. A versão original derivava da mitologia celta, devia ser mais bela e mais violenta; Souvestre readaptou-a de modo a ser aceite pela Igreja, e embuiu-a de moralismo cristão: uma fábula onde se condenam os impulsos humanos.

Mas a lenda de Ys conserva apesar de tudo uma matriz pagã. Tudo se passa na bravia costa atlântica da Bretanha, sujeita a violentas marés.


No reino da Cornualha durante o século V, o poderoso rei Gradlon, senhor de uma frota que dominava os mares, nomeia Corentin bispo de Quimper e promove-o a governador da cidade. A pedido da filha Dahut, que odeia o bispo, instala-se na nova cidade de Ys, uma fortaleza protegida do mar por altos diques, com apenas uma entrada - uma éclusa de bronze para deixar os barcos de pesca entrar no porto. Gradlon tem as únicas chaves dessa porta, num cordão que traz ao pescoço.

Dahut, de mãe celta e de uma beleza selvagem como o oceano, é afinal uma feiticeira; como acha Ys parada e triste, usa os seus poderes para a embelezar e animar, torná-la sumptuosa, com frequentes festas palacianas para onde convida sucessivos amantes. Acabam todos mal, sufocados por um feitiço e lançados do precipício sobre o mar.

Um dia, surge na cidade um príncipe vistoso, vestido de vermelho, logo convidado por Dahut. Mas este era um príncipe estranho, de longas mãos e unhas recurvadas, um príncipe dos infernos, que levará a princesa Dahut à perdição ao conseguir que ela se apodere da chave enquanto o rei Gradlon dorme. Levanta-se uma forte tempestade, as ondas rebentam contra as muralhas de bronze. Pressionada pelo príncipe, Dahut abre os diques, e o mar abate-se sobre Ys com ondas enormes como montanhas. Nem Corentin lhe pode valer.

 

Em desespero, Dahut tenta agararrar-se aos flancos de Morvac'h, o cavalo alado do pai, mas Corentin fá-la cair para o fundo do mar. O rei Gradlon consegue salvar-se, cavalgando sobre as ondas em direcção a Quimper.


Há inúmeras versões, têm todas em comum:

- um rei viúvo, Gradlon, com uma filha caprichosa, Dahut
- uma cidade construída para Dahut roubando terrenos ao mar
- soberba, vaidade, tirania, luxúria
- o mar vinga-se e as vagas submergem Ys


Dizem que Dahut continua a surgir sobre as ondas em noites de luar, uma sereia escovando os longos cabelos dourados...

Na baía de Douarnenez, Pol Dahud (o fosso de Dahut) seria o sítio onde ela foi lançada ao mar e reaparece em noites de luar.

A língua bretã ainda vive nalgumas canções; esta canta a sereia da baía de Douarnenez:
Gwelas-te morverc'h, pesketour
O kriban en bleo melen aour
Dre an heol splann, e ribl an dour ?
              Viste, ó pescador, a sereia do mar
              que penteia os cabelos cor de ouro
              ao sol da tarde junto à praia?
Gwelous a ris ar morverc'h venn,
M'he c'hlevis o kanann zoken
Klemvanus tonn ha kanaouenn.
              Vi sim a branca sereia
              e até a ouvi cantar tristemente
              como canta o lamento das ondas.

Stephanie Law, The forgotten bells of Ys (detalhe)

Finalmente, Édouard Lalo escreveu uma ópera romântica, que por acaso nunca ouvi:


[aos 00:48] Nicolai Gedda, 'Vainement ma bien aimée', do 'Roi d'Ys'

Ao largo da baía fica a mítica Ilha de Sein; quando as marés atingem a força máxima, o casario é fustigado como mostra este vídeo, a lembrar a tragédia de Ys.
[resulta mais com o som forte]


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