domingo, 6 de maio de 2018

A jornada do Vega à descoberta da rota do Nordeste (II) - invernagem e sucesso

[continuação]
A expedição do Vega conseguiu alcançar a baía de Kolyuchin Bay no Mar de Chukchi, mas acabou por ser ali bloqueada pelo gelo a 28 de Setembro. Ancorados a uma milha da costa, tiveram a sorte de ficar muito perto de uma pequena aldeia Chukchi, onde tinham apoio em terra - trenós, cães, caçadores e ... visitas sociais !
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A Invernagem do Vega em Kolyuchin
174º 22' E,
Mar de Chukchi


Nordenskjöld soube logo que não haveria melhoria nas condições até ao Verão, por isso começou os preparativos para passar o Inverno no mar ártico.

O Vega ancorado num bloco de gelo.

O território costeiro era de tundra gelada, desolado e monótono, mas não desabitado. As oito tendas de Pitlekay (Pitlekaj, Pilgykey) ficavam a curta distância, e havia logo depois mais povoações como Neshkan a 172º 58' W, e Uelen mais a nascente, a um dia de viagem. Os habitantes foram sempre amigáveis e cooperantes.

Neshkan (Najtskaj)

Os contactos eram frequentes, com visitas quase diárias ao navio. Para além disso, a tripulação e os especialistas mantiveram-se ocupados com tarefas a bordo e em terra. Um pequeno Observatório foi montado, com a ajuda dos Chukchi, para medir as correntes marinhas, a profundidade e as marés.

O Observatorium

"Faltavam só cento e vinte milhas para atingirmos o objectivo da viagem, que vínhamos perseguindo há dois meses, depois de navegadas 2 400 mihas. Custava-nos habituar à ideia de quão perto estávamos do nosso destino quando fomos obrigados a parar."

A messe dos oficiais durante a invernagem.

Um visita dos Chukchi

As visitas mútuas eram um intercâmbio social frequente que muito ajudou a passar o Inverno.

Barco Chukchi a aproximar-se do Vega.
(Th. Weber)

"Os barcos eram de pele, bem carregados de visitantes nativos ruidosos e galhofeiros, homens, mulheres e crianças, que chamavam a nossa atenção com gritos e gesticulação. O motor era desligado, e um grande número de seres cobertos de peles, mas de cabeça descoberta, subiam a bordo e começavam uma conversa animada. Com enorme alegria recebiam ofertas de uma rodada de tabaco e cachimbos. Nenhum deles falava uma só palavra de russo, tinham estado mais em contacto com baleeiros americanos do que com comerciantes russos."


As roupas eram de pele de rena sobre calças apertadas de pele de foca, sapatos muito elaborados, também de rena com canos de foca e sola de pele de morsa. Com frio intenso, usavam gorros de pele de lobo. As tendas ou cabanas eram aquecidas com a madeira que dá à praia, e muitas vezes estavam nus no interior.

Natal

O Natal foi celebrado com uma árvore feita de ramos amarrados a uma poste, e o tradicional porridge.

Véspera de Natal no Vega

Missão cumprida

Por meados de Abril, ainda sob 40 graus negativos, bandos de gansos e patos e outros pássaros começaram a passar e alguns mesmo a pousar sobre a amurada; mas passou Maio e Junho e o Vega continuava imobilizado no gelo.

Só a 18 de Julho de 1879 é que "finalmente chegou a hora da libertação; flutuámos soltos do nosso fiel bloco de gelo, que nos abraçara durante 294 dias e afinal nos protegera da maior pressão da placa; abriu-se um canal de uma milha de largura. Na beira-mar, os nossos amigos despediam-se, provavelmente choravam e gritavam, como avisaram que fariam assim que o «cão de fogo» os abandonasse."

Embora sob  - 35º C, o Cabo Leste (agora Cabo Dezhnev) no Estreito de Bering foi rapidamente alcançado, completando-se assim a Passagem do Nordeste.

"Navegando próximo da placa de gelo, o Vega  contornou o Cabo Leste, de que apenas tivemos alguns vislumbres através do nevoeiro. A conclusão da Passagem do Nordeste foi celebrada com um grande jantar, e o Vega saudou o Velho e o Novo Mundos desfraldando todas as bandeiras e com uma salva de tiros. Pela primeira vez, desde a primeira tentativa havia 336 anos, a Passagem estava conseguida."

O Vega na Baía Penkigney (ou Konyam) no mar de Bering.

Entrando no Pacífico Norte, o Vega ancorou perto da Ilha de Bering (Nikolskoye) a 14 de Agosto.

Celebrações

O Vega prosseguiu para o Japão, onde ficou uma temporada para repouso e 'férias' da tripulação, contornou a Ásia e passou o canal de Suez, chegando à Suécia em 24 de Abril de 1880, acompanhado por uma multidão de navios embandeirados na entrada do porto de Estocolmo, recebido por fogos de artificio e salvas de canhão que mal se ouviam entre a aclamação de um mar de gente.



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Nordenskiöld descreveu a sua epopeia em várias publicações, em várias línguas, com múltiplos contributos nas áreas de estudo científico que abordara na viagem.

Dos cinco volumes fez ainda uma edição popular resumida em dois volumes.





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Notas finais:
1 - não houve prisioneiros, nem se fizeram escravos, nem se criaram colónias.
2 - recolheram-se imensos dados científicos - geologia, clima e oceanografia, fauna e flora, etnologia...
3 - as gravuras foram esboçadas a bordo, e depois mais trabalhadas para o livro de Nordenskiöld.
4 - não deu origem a nenhum canto do tipo "heróis do mar, nobre povo", nem a celebrações saudosistas; e pode, sim, ser genuinamente considerado uma "descoberta", uma vez que a rota era desconhecida de toda a humanidade.
5 - a rota está hoje fechada ao mundo - decorre em águas territoriais da Rússia, muitas vezes junto à costa, e perto de instalações militares, estando dependente de autorização prévia.




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