quarta-feira, 2 de maio de 2018

Nordenskiöld e a viagem do Vega que abriu a Passagem do Nordeste.


Intervalo nas foto-reportagens turísticas ! Um pouco da história das descobertas maritimas da... Suécia !
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Com o domínio peninsular da rota à volta de Africa para o Pacífico, as potências marítimas do Norte procuraram intensamente desde finais do séc. XVI rotas alternativas pelo Ártico - a do noroeste, pelo Canadá, e a de nordeste, pela Sibéria. A história das expedições navais por essas duas rotas está recheada de fracassos e de tragédias; mas a viagem do sueco-finlandês Nordenskiöld no veleiro Vega foi um caso de sucesso: em 1879 foi o primeiro a chegar ao Pacífico desde o Atlântico Norte, pela costa siberiana, sem perder uma única vida.  Nordenskiöld relatou a viagem detalhadamente em "The voyage of the Vega round Asia and Europe".

Adolf Erik Nordenskiöld (1832-1901) era um barão finlandês e um proeminente geólogo e mineralogista, descendente de uma família de cientistas. Teve de emigrar para a Suécia porque na época a Finlândia estava sob dominação russa, a que ele se opunha - fora pró-europeu na guerra da Crimeia, liberal e anti-csarista, por isso acabou persona non grata na Universidade de Helsínkia.

Na Suécia foi muito bem acolhido. Como geólogo participou em diversas expedições a Spitsbergen (Svalbard), tendo atingido a latitute 81º 42' N em 1858. Seguiram-se viagens à Gronelândia e ao Ártico Russo em 1867, 1870, 1872 e 1875; nestas expedições foi ganhando a ambição de descobrir a mítica Passagem do Nordeste. Como um novo Viking, tinha o mar e a aventura no sangue, e o apoio do governo norueguês.


O veleiro a vapor "Vega", construido em 1872 como navio baleeiro, foi adquirido para a expedição.


Nos estaleiros de Karlskrona, o Vega foi reforçado para resisitir ao gelo e equipado com um motor mais potente. Outro vapor mais pequeno, o "Lena", iria acompanhar a expedição até ao rio Lena para apoio no abastecimento.

O Lena

As abundantes provisões incluíam carne fumada, café, biscoitos, pemmican (uma conserva de carne enlatada), batatas, sumo de mirtilo e de limão contra o escorbuto. Em Gotemburgo embarcaram trenós, tendas, utensílos e até uma gatinha, a inevitável mascote, que iria ter de se acostumar ao frio do Oceano Ártico.

Com trinta homens a bordo, o Vega partiu em Julho de 1878, depois fez escala em Tromsö para se lhe juntar o Lena; cruzaram o Círculo Ártico e passaram o estreito de Magerøya e o Cabo Norte, a 71º 10' N, no dia 16 de Julho, depois navegaram para o Mar de Kara.

Mar de Kara

A costa sudoeste de Nova Zembla (ou Nova Zemlya) foi alcançada em duas semanas, com um mar totalmente livre de gelo. Nordenskiöld navegou pelo estreto de Kara até ancorar o Vega perto da aldeia nativa de Khabarovo, na península de Yugorsky.


Desde pelo menos o século XII, os comerciantes Pomors já navegavam pelo Mar de Barents e Mar Branco. Entravam regulamente pelo Golfo do rio Ob, contornando a Península de Yamal para colonizar e negociar com os nativos Nenets (ou Samoiedos).

O acampamento Samoiedo em Khabarovo. "Vestiam peles de rena da cabeça aos pés".

Naquela costa desolada e estéril, viram uma pequena capela de madeira; a aldeia e a baía eram desde o séc. XIV uma escala para comerciantes e marinheiros Pomors, e por isso fora construído o modesto templo.


Mas sentia-se uma certa estranheza ao encontrar num sítio destes  baixo-relevos de bronze com as imagens sagradas; à frente de cada uma não faltava uma pequena lamparina de azeite.

No dia 1 de Agosto, o Vega  retomou a rota para oriente, passou a Ilha Branca e o estuário do grande Rio Ob, até chegar à foz do imenso Yenisei em frente à Ilha Dickson. Esta região do Mar Ártico costuma estar livre de gelos devido ao imenso caudal de águas doces descarregado pelos dois rios.


Na Ilha Dickson (Dikson), frente à foz do Yenisei

Os Pomors chamavam-lhe ilha Kuzkin; já tinha sido visitada por Nordenskiöld em 1875, e na altura ele deu-lhe o nome  "Porto Dickson" , tendo registado a sua situação favorável de porto abrigado. Mais tarde, Dikson viria a ser uma dos grandes portos da Rússia no Ártico, local estratégico para a nevagação da rota do Norte.

A expedição chegou a 6 de Agosto. Ancoraram e logo trataram de ir à caça abastecer-se de carne fresca. "Em consequência desse desporto cinegético, vivemos esses dias extravagantemente, a mesa cheia de coxas de rena e perna de urso".

O Vega e o Lena ancorados no gelo na foz do Yenisei.

Barco do Yenisei

Reabastecidos de fresco a partir do porto fluvial de Dudinka, mais a montante no Lena, a expedição retomou viagem; encontraram flocos de gelo dispersos e nevoeiro denso, e muitas pequenas ilhas ainda não mapeadas - um arquipélago que anos depois receberia o nome de Arquipélago Nordenskiöld  ! Depois, como era de prever, as temperaturas baixaram subitamente e as placas de gelo eram mais sólidas e espessas; mas a grande península do Taimyr foi passando entre gelo quebrado costeiro, coisa raramente conseguida. A próxima escala seria o Cabo Chelyuskin, o momento alto de toda a viagem: esse cabo a 77° 44′ N, 104° 15′ E que marca a mais alta latitude continenal eurasiana, está frequentemente inacessível; o canal que o separa das ilhas Severnaya Zemlya (Terra do Norte) gela quase todo o ano.


O Cabo Chelyuskin, latitude máxima da Eurásia continental

Seguiam para Norte imersos em denso nevoeiro, quando a 20 de Agosto "atingimos o nosso maior objectivo, que durante séculos foi objecto de esforços sem sucesso". Pela primeira vez, um navio ancorava no cabo mais mais setentrional do Velho Mundo. Com as cores nacionais a esvoaçar em todos os mastros, saudaram o venerável cabo com a salva sueca de cinco tiros de canhão; o nevoeiro levantou-se e por momentos, e puderam ver um Urso Branco sobre o gelo na costa, "a olhar para os inesperados visitantes com surpresa."

O Vega e o Lena no Cabo Chelyuskin, observados por um urso polar.

Quando mais tarde perguntaram a um membro da expedição de que momento tinha mais orgulho em toda a viagem, respondeu sem hesitar: "Foi quando ancoramos no Cabo Chelyuskin."


Contornado o difícil Taimyr, a próxima etapa apontava em direcção às Novas Ilhas Siberianas; mas o Vega encontrou campos de gelo cada vez mais compactos e nevoeiro cerrado. Tempestades de neve violentas pioraram as coisas, "os mastros cobriram-se de uma crosta de gelo, e subir ao cesto da gávea era tarefa muito árdua."  Foram mesmo forçados a voltar a para trás ao Taimyr e retomar a rota por um estreito canal costeiro ainda navegável, e a 27 de Agosto o Vega alcançou o mítico delta do rio Lena.

O Rio Lena



O Lena descongela as águas frias do Mar de Laptev com a sua enorme descarga, e assim conseguiram continuar sem problemas até às Ilhas da Nova Sibéria (Novosibirskiye) a 141.5° E - baixas, longas, pousadas no oceano polar - e de seguida a Ilha do Urso (Medvezhiy) a 161° 26′ E, que foi ultrapassada a toda a velocidade.

Ilhas Medvezhiy, Mar da Sibéria.

A 3 de Setembro uma forte tempestade de neve e placas de gelo cada vez mais sólidas dificultaram mas não impediram um progresso cuidadoso por um canal costeiro de águas pouca profundas. O nevoeiro também tornava essa navegação mais perigosa.

Depois da foz de mais um grande rio siberiano, o Kolyma, a costa era baixa com longas línguas de areia entre lagoas da tundra e o oceano; tendas da população nómada Chukchi semeavam essas faixas arenosas, e os nativos rodearam o Vega nas suas embarcações mostrando vontade de subir a bordo. Foram recebidos com boas vindas festivas, era a primeira vez que viam um navio !  Expressaram ruidosamente o seu espanto maravilhado.

O litoral de tundra, línguas de areia e lagoas junto ao Kolyma.

Os Chukchi numca foram conquistados ou dominados - mesmo quano os Cossacos estenderam o domínio à Sibéria em 1579, os Chukchi resistiram com bravura no seu cantinho, tal como os bretões de Asterix.

Várias observações ainda foram feitas em terra - notas sobre geologia, fauna e flora, e o modo de vida da população Chukchi, etnia próxima dos esquimós aleutas. Mas o gelo novo formava-se rapidamente e obrigava a tripulação a apressar a partida.

O Vega prosseguiu pelo canal junto à costa, mas as placas de gelo embatiam violentamente contra o casco, e custava muito avançar alguns metros. De tal modo piorou que a 27 de Setembro, pouco depois do Cabo Onmyn e ao largo da Baía de Kolyuchin, foram obrigados a parar: o pequeno Vega estava finalmente prisioneiros de uma enorme placa de gelo. Ancoraram a uma milha da costa, em frente à aldeia de Pitlekay - um lugarejo de oito tendas dos nómadas Chukchi.

Lugar de invernagem do Vega, uma milha ao largo de Pitlekay.


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[continua em breve]




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