sexta-feira, 18 de maio de 2018

Elogio do silêncio (mas não o four-thirty-three de Cage)


Vivo imerso em ruído, a poluição sonora é mais insidiosa e deprimente que a sujidade no ar ou na água. O ruído é obra do homem, claro, que só produz silêncio como rara excepção, nas catedrais e nas bibliotecas.

Imagino um planeta desabitado, pode ser há 500 000 ou daqui a 500 000 anos. Um silêncio quase absoluto, pontuado pelo canto das aves, o vento na folhagem ou a chuva que cai sobre o lago - que são formas sonoras de silêncio. Haverá ruído de longe a longe, um trovão, o ranger do glaciar na moreia, uma alcateia que uiva. São só curtos intervalos de som, nada desta permanente gritaria urbana, social, televisiva. Preciso de um silêncio assim, permanecente - ele virá um dia em definitivo, bem sei, mas preciso agora de viver com silêncio.

Calem-se, por favor. Encerrem o festival. Desliguem tudo, motores e écrans e campaínhas. Mozart só um pouquinho, de longe a longe, pianíssimo. Quero a Terra-mãe solteira de nós.

E não façam do silêncio uma forma arrogante e perniciosa de ruído, como fez John Cage com a 'obra' que quer fazer passar 4' 33'' de um nada fundamentalista como obra artística. Para lixo, já basta o barulho do dia-a-dia.

Um poema de Grace Wells:

                                  In the Museum of Silence

                                  For the full effect we encourage
                                  you first hear its opposite -
                                  in this room are the drawers of sound.

                                  Highway traffic. The demands
                                  of children. A rock festival.
                                  A prison wing.

                                  Through the double doors
                                  you'll find the hush
                                  that falls with snow.

                                  Upstairs we have replicated 
                                  the British Library
                                  and a Spanish cathedral.

                                  And the exhibition progresses
                                  you'll hear the different qualities
                                  of silence, its range of depths.

                                  Our archive has recordings
                                  from across the globe:
                                  Arctic quiet from Baffin, the scorched Sahara.

                                  We gave samples from below the ocean
                                  and from caves within the earth.
                                  And from outer space.

                                  Our final chamber is wired straight
                                  to the Himalayas. We recommend
                                  you lie downin there and listen.

                                  Visitors can sign the guestbook
                                  before they leave.

in Dark Mountain, vol. 6




2 comentários :

SilverTree disse...

Gosto tanto de tudo isto, da ideia dos pequenos sons como formas de silêncio, do poema magnífico, que não conhecia.
E partilho a sua opinião, tanto acerca do John Cage, como do ruído (as minhas maiores irritações nesse campo são a paranóia obrigatória de ter "música" em todo o lado, e os putos com o telemóvel a debitar ruído - problemas de quem depende dos transportes públicos… ).

Espero que não se importe que partilhe consigo alguns excertos que juntei uma vez, a pensar no silêncio, neste caso na literatura.


"Achar uma palavra que faça do silêncio uma casa." (Espectáculo "O Pino do Verão", da companhia de teatro O Bando)

"There are then warm hollows grooved in the heart of the uproar, alcoves of silence where we can shelter under the wing of beauty." (The Waves - Virginia Woolf)

"Esta tarde vi gravuras japonesas com o Glassner. E de repente fiquei a saber: é assim que eu quero escrever. Com um espaço imenso à volta das palavras. Quereria escrever somente palavras organicamente inseridas num grande silêncio, daquelas cuja única utilidade é dominar o silêncio e rasgá-lo. (...) E há-de ser mais difícil de reproduzir e animar esse silêncio e essa mudez do que achar as palavras. O importante será a relação justa entre palavras e silêncio (...)"
(Etty Hillesum - Diário (1941-1943))

Mário Gonçalves disse...


Belo comentário, Silvertree.

ÀS vezes até os poetas se cansam das aves, Sivertree. Há um poema de Robert Frost em que ele manda calar um pássaro:

A Minor Bird

I have wished a bird would fly away,
And not sing by my house all day;

Have clapped my hands at him from the door
When it seemed as if I could bear no more.

...

Só não gosto do silêncio quando é urgente falar - o silêncio da cobardia.