terça-feira, 3 de julho de 2012

E ... os concertos.

Ora bem.

O primeiro, o mais ligeiro, foi música de Bernstein para West Side Story pela Royal Phil.


Gostei de ouvir, sobretudo os temas America e Cool, ganharam bem com o som orquestral ao vivo. Dirigiu Jayce Ogren.

Gostei de voltar a ver em HD bailados, cenários personagens como Bernardo, leader dos Sharks (George Chakiris) , que ficam para toda a vida. Um marco, um modelo.


Depois, um lanchinho com uma sobremesa gostosa:

Também é imperdível, o café Consort do Royal Albert Hall ! :D


O segundo concerto era a minha maior expectativa: o Requiem de Berlioz com a LSO dirigida por Colin Davis, aqui:


Entrei cedo para observar o espaço da St. Paul´s cathedral, a disposição das forças orquestrais e o público.


O volume de ar sobre a orquestra era fenomenal: para além da vastidão e da pedra, a cúpula ergue-se a alturas desmedidas (111 m., quase 40 andares). De certeza que o som não seria comprimido nem abafado. Pelo contrário, não iria ressoar em excesso, trazendo sobreposição dos ecos ?

Começou divinamente. Colin Davis está quase com 85 anos, muito frágil, e dirigiu sentado. Suavemente, sempre, quase apagadamente. Os primeiros acordes foram logo de arrepiar, a entrada do coro parecia não ser deste mundo, tudo ecoando pela nave e transepto até às alturas, irreal. Pareceu-me apenas que se ouvia menos a orquestra que o monumental coro.

As coisas não se descontrolaram nunca, mas houve desequilíbrios. Colocaram secções de tímbales e de metais nos cantos e nas galerias do transepto, com estrondoso efeito espacial - só trompas eram oito, e seis trombones; mas o efeito foi excessivo por momentos - os arranques mais fortes nos metais abafavam a orquestra e o coro. Se há quem se queixe do volume dos concertos metaleiros de rock, pois bem, o volume de som ali produzido arrasava qualquer amplificação digital.

Felizmente, essas passagens tonitruantes são poucas e curtas; e quando chegou o Lacrymosa e o fabuloso Sanctus, tive um dos mais arrepiantes momentos musicais da minha vida. Barry Banks é um tenor poderoso, cantou com uma convicção, segurança e beleza tonal formidáveis; a alternância com o coro garantia uma espacialidade arrasadora. Êxtase, ou quase.

O final Agnus Dei é de uma beleza comovente. A maneira como Colin Davis conduziu o decrescendo foi magistral. Sempre com uma sonoridade sedosa magnífica, a LSO ouvia-se agora , e bem; aquele ondulado final , lembrando Wagner, deixou-me em Gravidade Zero.

Quando se calou, o silêncio ficou uns bons 2 minutos nos ares daquela imensa abóbada de pedra.


Só quando Colin Davis se levantou finalmente, rebentou a sala em aclamação. Merece bem, o senhor, aliás Sir, e todos os músicos que fizeram um concerto memorável, três dias depois do S. João, em S. Paulo.

Sair ainda abalado para a rua , e ver a cúpula fantasticamente iluminada. Adeus...




O terceiro concerto, pelo contrário, foi na detestável Royal Festival Hall do Southbank Center. Por fora, são blocos de cimento sujo e coisas plásticas; por dentro, um espaço incómodo e inamistoso e uma sala enorrrrrme, que nunca mais acaba de fundo e de alto, com uns 3000 lugares, mas sem qualquer charme. Tecto forrado a painéis acústicos.


Mas era a Philarmonia e a Segunda de Mahler. Pela primeira vez, (ou)vi de cima, num camarote a meia distância. Ouvia-se lindamente - boa acústica, sim. Receava, como disse, um Mahler nórdico, à Sibelius, e foi um bocado isso.


Salonen não tem élan romântico nenhum. Esteve sempre muito controlado, quer nos fortes e fortíssimos, quer nas passagens suaves, sem rubato. Nada de violentos contrastes dinâmicos, nada de Solti, Rattle, nem sequer Abbado - mais ao estilo de Bernard Haitink, penso.

Há quem prefira assim. Os detalhes são valorizados. As madeiras, em particular, soavam como nunca, belíssimas, e os diálogos entre secções eram claros e precisos. A música fluía, mas não havia pathos...

Monica Groop tem uma bela voz, certamente, e o timbre nada feio. Mas não lhe perdoo: não é que falhou umas notas no Urlicht ? Num momento crucial, absolutamente crucial ? Não tinha estudado bem aquela curta ariazita? (bela, grande ária !). E o Leben final foi curto e insípido.

O Die Auferstehung foi bastante bom. Trivial, mas bom. Impressionou-me a facilidade, coerência e agilidade da Philarmonia - devem conhecer a partitura de cor. Em resumo, muito bom, mas Salonen não tem um conceito, não deixa uma marca, é apenas um bom técnico.

Voilá, ou melhor, that's it. Cansado mas consolado, lá vim para o Underground já funcional - antes, à ida, tinha havido um bloqueio da Central Line que me deixou em pânico. Salvou-me uma corrida de Táxi.

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Ainda falta o Royal Ballet e o Globe Theater. Se calhar não vale a pena. Fiquemos antes com o Agnus Dei de Berlioz, aqui pela orquestra de Atlanta e Robert Shaw:

Duas meias surpresas

Antes de passar aos concertos, dois apontamentos simpáticos que também tiveram o seu quê de surpresa combinado com dolce vita.

O Café Charlie's, em Portobello



Todos sabemos o difícil que é ter um café bem tirado, como deve ser, no Reino Unido. Pior ainda é se o queremos "personalizar" a nosso gosto, coisa que para eles é absurda, "sai como a máquina quer, é automático"...

Ora no Charlie's, um espaço bem simpático com mesas de pátio protegidas do vento e onde é permitido fumar (!!!), o café é bom, bem tirado e com atenção às recomendações. Bem hajam.



A Serpentine Gallery

Houve também tempo para uma voltinha nos Kensington Gardens. Nunca tinha ido à Serpentine Gallery, e depois de uns zigzags lá a encontramos; estava em exibição "To the Light", de Yoko Ono, a viúva de John Lennon. Nunca tive qualquer simpatia pela arte dela, mas enfim, tinha lido coisas simpáticas no Times, vamos lá.

Para minha surpresa, exposição muito singela, contida, em preto e branco e, de facto, com uma valorização bonita da luminosidade.


Lá estava a "famosa" escada branca que Lennon adorou; lá no topo, com uma lente, pode ler-se "YES". Naquele espaço, resultava muito bonito e sugestivo.


Em cada canto, mesas "Where do you go from here? " - um convite a sentar e escrever algo, que se guarda num copo de vidro.

Pointedness, de 1964 - reflexos esféricos.

Labirinto de vidro, "Amaze", 1971

Gostei bastante do espaço interior da galeria. O jardim exterior, infelizmente, estava vedado para um "evento", já se via muito fato e toilettes.

Ah, a entrada é grátis :)
Ah, deixam fazer fotografia ! :)

segunda-feira, 2 de julho de 2012

Por onde começar? talvez pelo inesperado...

Mesmo quando se tem tudo planeadinho, acontece por vezes num tempo livre deixado à solta uma das melhores e mais gratas experiências de viagem.

Assim aconteceu, em duas tardes livres em Londres que dediquei a far niente:

Estava sol mas não muito calor, o ideal para passear pelas ruas no 2º andar de um vermelho London bus. Não cansa os pés, vê-se o rebuliço e as fachadas e vai-se saindo onde se quer.

Trafalgar estava apetecível - as colunatas brancas da National Gallery e da igreja de São Martinho do Campo iluminadas intensamente pelo sol já baixo - e era altura de lhes dizer adeus. Ao passar em St. Martin, cartazes de concertos livres:


Pareceu-me ouvir música vinda lá de dentro. E era: ensaiava para essa noite o grupo liderado pelo violinista Joshua Fischer que ia tocar Bach e Vivaldi.

Momento quase mágico, com a luz a entrar em força pela janela do fundo, projectando sombras nas paredes claras. Bach enchia a nave. Irresistível. Para mais, é tão bonita, aquela igreja de madeira, branco e gessos... mini-filme:



Noutra tarde livre, com os pés pisados de calcorrear Notting Hill e Portobello (fugimos sempre do mercado, claro), pasmava frente ao cinema Coronet em Notting Hill Gate: como é possível que um edifício daqueles, numa zona urbana movimentada, ainda não tenha sido engolido pelas salas multiplex de qualquer shopping? Pois é assim.

Enorme, imponente, era um antigo teatro que foi convertido em movie theater. Prometia ser interessante ver cinema ali, como nos velhos tempos se via no Rivoli, no Batalha ou mesmo no Coliseu. A bilheteira era o balcão do café/bar... o filme era Moonrise Kingdom de Wes Anderson, com alguns actores de respeito. A sinopse do filme prometia tudo menos chatice. Vamos lá.

A sala era um salão enorme , claro, com plateia, balcão, tribuna e sei lá que mais, tudo forrado a vemelho com mutos candeeiros, alguns dourados e pinturas no tecto... ena, isto devia estar classificado (e está). Podia-se deambular à vontade, sair e voltar a entar, ir lá fora para um cigarrito... já nem estou habituado a esta "qualidade de vida". Nao havia pipocas, nem telemóveis.

A qualidade da projecção era *****: imagem luminosa e bem focadinha !, coisa difícil por cá. Depois de uma valente estopada de anúncios e trailers (isso é igual, hélas) o filme era uma obra prima deliciosa, com uma realização de mestre, inventiva e bem disposta, um enredo invulgar e invulgarmente filmado onde todas as personagens se tornam simpáticos na sua humanidade. É uma história de dois adolescentes que fogem de casa para se juntarem, numa história de amor tão ingénua, aventurosa, arriscada e corajosa que faz mesmo vontade de voltar a ter 13 anos.

O Coronet é uma raridade, e deu-me a ver um dos melhores filmes dos últimos tempos - penso mesmo que ultrapassa o Hugo de Scorsese.

Cartaz no corredor do metro: "the perfect antidote to summer blockbusters" - pode haver melhor recomendação ?

Moonshine Kingdom - a não perder !