sábado, 10 de setembro de 2022

O Museu das Pedras Pictas de Meigle


Meigle é um povoado pequeno e desinteressante a norte de Dundee, na Escócia. Nada faria prever a riqueza da colecção do museu local, o Meigle Sculptured Stone Museum, situada no edifício modesto da antiga escola primária. Uma viela anónima, um vulgar portão gradeado, um corredor ao longo de um pátio estreito. Estamos a entrar no Museu.

Numa sala única, estão 26 pedras Pictas, em calcário rosa, datadas entre os séculos VIII e X. As pedras estão numeradas, Meigle-1, Meigle-2 ... até à esplêndida Meigle-26.

O período Picta estende-se pelo menos entre os séculos III e X; os Pictos eram populações de língua celta do Norte e Leste da Escócia no período pré-Romano da Britannia e até aos primórdios da Idade Média, quando os Vikings iniciaram incursões de conquista nesse território. O primeiro registo escrito sobre os Pictos é de 297, quando eles opoem resistência tenaz aos Romanos, conseguindo defender o território que os Romanos chamavam Caledónia. 

No século VII os Pictos estavam já cristianizados; no século seguinte, sob o reinado do Rei Pherath, foi construído um mosteiro nessa região, em Meigle; são dessa época as pedras encontradas e agora expostas no Museu.


Meigle-1 

É a laje mais antiga, do século VIII. Figuras de animais ou míticas, nota-se bem um cão e uma serpente, cavaleiros e símbolos Pictas.

Meigle-2

Uma das mais bem conservadas e admiradas é esta laje do século IX, com mais de 2 m e 40, onde foi representado "Daniel na cova dos leões", que o folclore local interpretou como sendo Vanora (Guinivere), mulher do Rei Artur, a ser dada às feras para expiação da infidelidade. Segundo a lenda, Vanora, raptada por Mordred, esteve aprisionada em Meigle.


Meigle-3

Data do século IX, e nesta face foi representado um guerreiro com espada sob a capa, sentado numa sela com tecido listrado.

Meigle-4

Só algumas partes perduraram, e são obras primas de escultura.  


Meigle-5

                              O gato:


Meigle-7

Só sobreviveu o topo da laje. 

Meigle-26

Esta peça excepcional é uma pedra tumular ricamente esculpida com animais e cavaleiros em várias cenas, como por exemplo numa caçada.



Que Museu incrível. Se pudesse voltava hoje à Caledónia.

domingo, 4 de setembro de 2022

Hawthornden Castle , retiro literário perto de Rosslyn Abbey



Esta região da Escócia a sul de Edmburgo é muito rica de património histórico e também de bosques. Estive maravilhado em Rosslyn, Rosewell, e ainda mais fiquei com Melrose Abbey que ainda hei de mostrar. Mas não pude visitar este Castelo de Hawthornden e a densa floresta onde está escondido: não só é privado, como está reservado a residência temporária de escritores, cuja candidatura exige apenas uma carta com pedido por escrito enviado pelo correio! Nada de onlines... Têm direito a 4 semanas livres com alojamento até 5 residentes - poetas, dramaturgos, guionistas, biógrafos, romancistas, contistas, até jornalistas - com refeições incluídas mas sem internet nem rede móvel. E ainda dizem que os escritores não gozam de privilégios. 


Hawthornden Castle é um castelo medieval com acrescentos do séc XVII que foi residência do poeta escocês William Drummond. Fica numa elevação ao lado do rio Esk, rodeado da vegetação frondosa que o rio ali proporciona.



Dear wood, and you, sweet solitary place,
Where from the vulgar I estranged live,
Contented more with what your shades me give,
Than if I had what Thetis doth embrace;
...
What sweet delight a quiet life affords,
And what it is to be of bondage free,
Far from the madding worldling's hoarse discords,
Sweet flow'ry place, I first did learn of thee:
Ah I if I were mine own, your dear resorts
I would not change with princes' stately courts.
                                                                            William Drummond



[traduzo eu:]

Querido bosque, e tu, doce sítio solitário,
Onde me afastei do vulgar e fui viver,
Mais contente com o que as tuas sombras me dão
Que se tivesse o tesouro que Thetis protege;
...
Que doce prazer uma vida tranquila oferece,
E o que é viver liberto de servidão,
Longe do mundo louco e suas ruins querelas,
Querido lugar florido, foi contigo que aprendi:
Ah, se eu fosse só meu, querida estância,
Não te trocaria por principescos palácios. 

O antigo pátio.

Os dias em Hawthornden passam sob uma regra estrita de silêncio: ninguém conversa entre as 9 e as 18, e não são permitidas visitas. Só se está ali para escrever.

Ambiente propício...

Biblioteca surpreendente


As portas dos quartos têm no lado de dentro uma lista dos escritores que antes ali estiveram alojados; mas não basta: têm que ter publicado alguma obra que ali escreveram !
Quarto Boswell, com a cesta de picnic para a tarde:


Quarto Brontë


Sala da lareira e convívio ao fim do dia.

Um paraíso.

Diz-se que Dickens chegou para visitar o castelo num domingo, cheio de importância, e a castelã não quis saber quem ele era - ao domingo estamos fechados. Só se entra no paraíso nos dias úteis.


quinta-feira, 1 de setembro de 2022

Sempé: as ilustrações para o Sr. Sommer de Süskind


Não segui a carreira de Jacques Sempé desde cedo, só há poucos anos o descobri no Le Point e desde então procurei conhecer mais obra dele. É Arte, aquilo que Sempé fazia, obras únicas e inconfundíveis, respirando ironia e ternura num traço imprevisível, nada óbvio.

O prazer de 'voar' com a ventania, encosta abaixo

Ou subir às árvores e ver a extensão do mundo

Foi ao ler a História do Sr. Sommer de Patrick Suskind que tive um dos melhores contactos com Sempé, pelas 24 aguarelas com que ilustrou a narrativa do estranho senhor, que vendo bem nada tem de estranho - é o nosso desespero de vida.


Com mochila às costas e empunhando um cajado, ele anda pelos caminhos em volta do lago sem destino nem propósito, num passo rápido, como uma sombra. Toda a descrição parece uma historinha infantil, com um personagem excêntrico que de início faz sorrir.



Muitas vezes o jovem narrador, nos seus passeios a pé e depois de bicicleta, avista o sr. Sommer na sua permanente corrida para sítio nenhum.


O encontro mais dramático aconteceu uma vez, de carro com o pai, durante uma violenta tempestade de granizo.

"Mas agora, conduzindo debaixo de chuva, na estrada rural coberta de granizo, seguindo a par do senhor Sommer, o meu pai tinha gritado pela porta aberta do carro uma frase feita: «Está a pôr a vida em perigo!» Então o senhor Sommer deteve-se. Creio que foi ao ouvir «jugarse la vida», e parou tão bruscamente que o meu pai teve de travar a fundo para não o deixar para trás. E então o senhor Sommer passou o cajado da mão direita para a esquerda, voltou-se para nós e, com voz clara e forte, golpeando o chão várias vezes com fúria e desespero, gritou: "De uma vez por todas, deixem-me em paz!" E mais não disse. Só isto. De imediato bateu com a porta que lhe tínhamos aberto, voltou a trocar a vara para a mão direita e seguiu caminhando sem olhar para para trás."

A tonalidade trágica vai crescendo ao mesmo tempo que o narador cresce de criança para adulto. A fantasia inicial acaba por dar lugar à celebração da morte.


Jacques Sempé trabalhou para várias publicações, mas talvez a "obra prima" seja Enfances: