terça-feira, 13 de setembro de 2016

Béguinages de Flandres / Vlaamse begijnhoven


As béguinages dos Países Baixos são espaços urbanos medievais quase perfeitos de harmonia e de arquitectura amiga do residente. Foram construídas a partir do século XIII exclusivamente para mulheres sem obediência a ordens religiosas, em geral de classe alta, que pretendiam viver em sossego, privacidade e segurança num período em que esta rica região da Europa - rica da Liga Hanseática - era assolada por guerras quase permanentes: a guerra da Flandres (1297-1305), a revolta dos camponeses flamengos contra o excesso de taxas imposto pelo reino de França (1323-1328) - uma insurreição permanente de cinco anos... a guerra dos Cem Anos chegou depois (1337-1453), e tudo isto para além dos muitos que partiam nas Cruzadas para a Terra Santa. Há quem defenda que devido à elevada mortalidade masculina havia excesso de mulheres sós, o que terá sido uma razão para o surgimento destes espaços. De qualquer forma, foi uma conquista e uma evolução positiva no respeito pela condição feminina.

Batalha de Courtrai / Kortrijk, ou das Esporas Douradas (1302), em que o condado de Flandres derrotou o exército francês.

Uma begijnhof era em geral um quarteirão murado em torno de uma praceta rectangular relvada e arborizada, à volta da qual se fechavam quatro frentes de moradias em arquitectura barroca de dois a três andares, em tijolo ou pintadas de branco na frente ou nas traseiras, às quais se acedia por arruamentos estreitos e exclusivos. Uma igreja, várias capelas e uma enfermaria integravam o conjunto. Surgiram pela Holanda e Bélgica, num período violento e belicoso, quando o espaço urbano medieval era infrequentável para mulheres sós e avesso a mulheres emancipadas - em breve chegaria a era da caça às bruxas e as beguinas não escaparam a perseguições.

Plano da Oud Begijnhof Sint-Elisabeth de Gand.

Hoje em dia, as béguinages tornaram-se condomínios abertos de luxo, com belas moradias - muitas com jardim ou pátio próprio - à volta do jardim e da igreja. Na Flandres há 26, sendo 13 classificadas pela UNESCO; das que visitei em Gand (com obras de restauro a decorrer), em Courtrai e em Bruges, deixo aqui uma foto-reportagem.

Começo pela Oud Begijnhof (Antiga Beguinage) dedicada a Santa Isabel da Hungria, junto a Prinsenhof,em Gand. Antiga mesmo, de 1234, era bem protegida, rodeada de canais e murada, até ser desactivada no séc. XIX e aberta à malha urbana. A frente nobre, virada para a praça e a igreja, é em tijolo vermelho vivo, mas por trás circula uma rua residencial de fachadas brancas !




As beguinas eram na maioria viúvas ou celibatárias; sem fazer votos monásticos escolhiam uma vida religiosa independente mas solidária, numa "cidade de paz" de inegável cuidado arquitectónico.

Caiadas de branco como no Sul da Europa.


Esta é também conhecida como Groot Begijnhof, pois era uma das maiores dos Países Baixos, tendo chegado a albergar milhares de beguinas.

Desde 1956 é uma área residencial protegida, onde vivem artistas e gente abastada. Luxo na Idade Média...
                                                  Site: http://elisabethbegijnhof.be/nl


Também em Gand, a mais pequena Klein Begijnhof (ou Ter Hoye), fundada em 1235, ainda conserva a muralha à volta e acesso condicionado a um pórtico único:

Uma pequena capela logo a entrada.

Mais à frente, na esquina de outra capela, este Ecce Homo.

O relvado central.


Também classificada pela UNESCO (em 1982), é agora uma área residencial cara numa zona moderna de Gand.


Em Courtrai / Kortrijk, uma cidade flamenga rica junto à fronteira com França, perto de Lille, onde as lojas de costureiros famosos (quase todos !) alternam com casa de chá luxuosas, fui encontrar uma bonita béguinage mesmo no centro. É uma das mais antigas: data de 1238, e também faz parte do conjunto flamengo classificado.






Finalmente, a mais visitada, a Ten Wijngaerde em Bruges, de 1245. Esta é actualmente habitada por freiras beneditinas.

O canal e a cerca murada ainda isolam a antiga béguinage.


A entrada por uma ponte que termina num grande portal, como se fosse para um castelo.

Sauve Garde !





Parte da béguinage foi recentemente convertida em mosteiro beneditino.




A maioria das béguinages foi abandonada ou destruída durante a Reforma Protestante no século XVI. Antes, já várias acusações de "heresia" tinham dificultado a vida das beguinas; mas o pior viria com os excessos da Revolução Francesa, que encerrou muitas das que ainda restavam. Poucas sobreviveram até ao século XX  - entre elas a de Gand e a de Bruges, ainda activa.

Mas houve várias tentativas posteriores de voltar ao modelo das béguinages; recentemente, as Beguines of Mercy - as Sisters of Mercy da canção de Leonard Cohen - foi uma comunidade secular de mulheres, fundada em Vancouver, no Canadá. As Irmãs, católicas educadas e seculares, procuram a contemplação, as boas obras e uma vivência mais profunda dos valores espirituais.


quinta-feira, 8 de setembro de 2016

Anne-Sophie Mutter, o melhor CD do op. 61 de Beethoven


Postado de Gand, último dia, muito calor e demasiada gente.
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As minhas recensões discográficas (e literárias) são sempre tardias e ultrapassadas; não ando actualizado em cima da última edição de CDs ou livros, vivo muito de ir descobrindo ao meu ritmo idoso, eh eh. A descoberta é atrasada mas muito minha :)

Pois é um portento mais que encontrei - a gravação do Concerto para Violino op.61 de Beethoven por Anne-Sophie Mutter com a New York Philarmonic dirigida por Kurt Masur. Beneficia de uma sonoridade extraordinária (SACD da D.G.), mas isso é só um "plus", o sumo está nas mãos de Mutter cuja maturidade prova quanto se pode ir aprendendo ao longo dos anos.


Os dedos da violinista fazem milagres no Stradivarius, mesmo que saibamos que a mestria - a sensibilidade, as pausas, os glissandos e trinados - é pensada e escolhida. Mutter reinventa, prolonga, encurta, desliza, reforça, amacia, vibra, nada soa como se fosse rotina e hábito.

Masur dirige, claro, uma versão clássica, sem nada de reinterpretação historicista. É a New York Phil com toda a genica, um som cheio e imponente, dinâmico, mas que sabe ser macio e subtil, submetido ao rigor que falta a muitos (veja-se o mal que dirigem esta obra Dudamel ou Baremboim ). Não entendo as queixas que li (p.ex. na Gramophone) de que Mutter toma excessivas liberdades, que 'dobra' e 'distorce' as linhas tal como escritas na pauta: uma das coisas mais fantásticas na gravação é essa liberdade, essa capacidade de curvar o espaço-tempo musical sem comprometer a autenticidade, de cumprir mesmo quando se vai escapando.


No segundo andamento (larghetto) Mutter faz silêncios e crescendos de cortar a respiração - nunca ouvi este fraseado do violino tão de arrepiar. Só em casos de excepção como estes é que uma opção "à antiga", lenta e pesada, com grande orquestra, faz sentido, e faz mesmo duvidar da razão dos que preferem a abordagem histórica. Por exemplo, a gravação que Harnoncourt dirigiu com Gidon Kremer é muito mais disparatada, inexpressiva, chata, dispensável. E é sabido quanto eu gosto desse grande senhor.

Outras versões podem cansar ( a de Karajan ! ), esta pode ficar a tocar todos os dias, tal é a pureza e limpidez do som, quer do violino, quer da orquestra, som que o registo superior da D.G. não comprime.

Depois, temos de prenda dois extras - os Romances para violino do mesmo Beethoven. Não terão o fôlego do concerto, mas a vivacidade interpretativa dá-lhes um encanto redobrado. E também aí encontramos novidades da parte de Mutter, que estava imparável nesta gravação.


Um disco que adoro. Aqui ao lado está outro, ainda mais "antigo", que nunca tinha ouvido e de que espero vir a falar: a colectânea em 9 CDs de concertos para piano de Mozart, toca Christian Zaccharias, com várias orquestras - as melhores são dirigidas por David Zinman e Marriner.