quinta-feira, 8 de setembro de 2016

Anne-Sophie Mutter, o melhor CD do op. 61 de Beethoven


Postado de Gand, último dia, muito calor e demasiada gente.
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As minhas recensões discográficas (e literárias) são sempre tardias e ultrapassadas; não ando actualizado em cima da última edição de CDs ou livros, vivo muito de ir descobrindo ao meu ritmo idoso, eh eh. A descoberta é atrasada mas muito minha :)

Pois é um portento mais que encontrei - a gravação do Concerto para Violino op.61 de Beethoven por Anne-Sophie Mutter com a New York Philarmonic dirigida por Kurt Masur. Beneficia de uma sonoridade extraordinária (SACD da D.G.), mas isso é só um "plus", o sumo está nas mãos de Mutter cuja maturidade prova quanto se pode ir aprendendo ao longo dos anos.


Os dedos da violinista fazem milagres no Stradivarius, mesmo que saibamos que a mestria - a sensibilidade, as pausas, os glissandos e trinados - é pensada e escolhida. Mutter reinventa, prolonga, encurta, desliza, reforça, amacia, vibra, nada soa como se fosse rotina e hábito.

Masur dirige, claro, uma versão clássica, sem nada de reinterpretação historicista. É a New York Phil com toda a genica, um som cheio e imponente, dinâmico, mas que sabe ser macio e subtil, submetido ao rigor que falta a muitos (veja-se o mal que dirigem esta obra Dudamel ou Baremboim ). Não entendo as queixas que li (p.ex. na Gramophone) de que Mutter toma excessivas liberdades, que 'dobra' e 'distorce' as linhas tal como escritas na pauta: uma das coisas mais fantásticas na gravação é essa liberdade, essa capacidade de curvar o espaço-tempo musical sem comprometer a autenticidade, de cumprir mesmo quando se vai escapando.


No segundo andamento (larghetto) Mutter faz silêncios e crescendos de cortar a respiração - nunca ouvi este fraseado do violino tão de arrepiar. Só em casos de excepção como estes é que uma opção "à antiga", lenta e pesada, com grande orquestra, faz sentido, e faz mesmo duvidar da razão dos que preferem a abordagem histórica. Por exemplo, a gravação que Harnoncourt dirigiu com Gidon Kremer é muito mais disparatada, inexpressiva, chata, dispensável. E é sabido quanto eu gosto desse grande senhor.

Outras versões podem cansar ( a de Karajan ! ), esta pode ficar a tocar todos os dias, tal é a pureza e limpidez do som, quer do violino, quer da orquestra, som que o registo superior da D.G. não comprime.

Depois, temos de prenda dois extras - os Romances para violino do mesmo Beethoven. Não terão o fôlego do concerto, mas a vivacidade interpretativa dá-lhes um encanto redobrado. E também aí encontramos novidades da parte de Mutter, que estava imparável nesta gravação.


Um disco que adoro. Aqui ao lado está outro, ainda mais "antigo", que nunca tinha ouvido e de que espero vir a falar: a colectânea em 9 CDs de concertos para piano de Mozart, toca Christian Zaccharias, com várias orquestras - as melhores são dirigidas por David Zinman e Marriner.




2 comentários :

Virginia disse...


Este foi um dos primeiros concertos que ouvi na vida, no Coliseu em Lisboa, tocado pelo Davod Oistrack. Nunca mais me esqueci e o meu padrinho fereceu-me o disco que ainda tenho da mesma obra. Quando era professora de alemão, li um artigo numa revista didáctica sobre Anne-Sophie Mutter que tinha 15 anos e se deslocava à Suiça todas as semanas para ter aulas de violino. Dei esse texto aos meus alunos do 11º ano e eles adoraram. Era diferente dos do manual.
Sempre ouvi dizer que ela foi protegida pelo Karajan, mas quando a oiço no Mezzo gosto imenso da sua sonoridade e expressão. Obrigada por me ter feito regressar down memory lane....

E na 2ª volto a Leeds...

João Alves disse...

Fiquei com vontade de comprar o disco. Há dias, em viagem de carro, ouvi já no último andamento, este concerto. Não sabia que orquestra era nem quem tocava o violino, mas estava fascinado. Percebia-se a antiguidade da gravação e eu jurava que nunca tinha ouvido tocar tão bem este concerto. Era Pedro de Freitas de Branco à frente da orquestra e o violinista não consegui ouvir o nome, mas suspeito que fosse David Oistrack.