segunda-feira, 6 de abril de 2015

A Norma com Mariella Devia no Palau de les Arts


Finalmente, e com enorme, inevitável atraso  :(  ...



Na sala futurista de Calatrava, os Druídas elevaram o altar a Irminsul.



A visão romântica dos Druídas gauleses e a sua resistência à invasão romana deu grande popularidade a esta obra de Bellini. O altar à divindade Irminsul na forma de um gigantesco e velhíssimo carvalho no meio da floresta é o pano de fundo "exótico" para uma ópera de enganos e desenganos, vileza e nobreza.

Já li opiniões publicadas sobre esta produção cénica do turinês Davide Livermore; será excessiva, terá defeitos sem dúvida, mas foi surpresa, para mim, o muito bom nível global. Recorrendo a uma combinação de materiais - postes tubulares e uma árvore-escadaria polivalente - com projecções de belo efeito sobre cortina ou sobre o fundo do palco, criou espaços e ambientes sugestivos com uma estética adequada, entre foresta e caverna, nada de disparates anacrónicos. Houve sempre algum fausto que 'enchia o olho' e o espaço cénico.

Os Druídas na floresta

O altar a Irminsul

Também a orquestra dirigida por Gustavo Gimeno esteve muito melhor do que eu esperava, coordenada, precisa, com os ataques muito certos; que mais ? O coro cantou lindamente, deslumbrou logo de entrada no "Ite sul colle, o Druidi". A acústica da enorme sala é excelente, ouvia-se com nitidez todo o detalhe.

Vamos às vozes. Bellini é injusto para com os homens neste drama - o governador romano Pollione tem um fraco papel vocal; mas seria de pedir mais ao tenor Russel Thomas, pedia-se pelo menos uma actuação convincente de um homem a viver um trágico dilema, a sofrer culpa e expiação. Foi praticamente indiferente e inexpressivo, mesmo que a voz cumpra os mínimos. Adalgisa é a mais simpática das personagens, uma jovem sacerdotisa que quase renega os votos por causa do mesmo Pollione malvado e adúltero.


A mezzo Varduhi Abrahamyan cantou muito bem e foi impecável nos mais belos duetos com a Norma de Mariella Devia. Sem ser jovem, conseguiu um desempenho razoável no palco, sobretudo logo na sua entrada,'Sgombra è la sacra selva,Compiuto il rito', quando chora a sua sorte sozinha com a cortina corrida. O sacerdote druída Oroveso esteve simplesmente bem.

Finalmente, Mariella Devia, a estrela do espectáculo, que juntamente com o encenador garantiu o razoável êxito do projecto.


Nos seus 67 anos custa a acreditar que ainda tenha uma tão bela projecção e firmeza. O legato não é excessivo, embora eu gostasse de utilização ainda mais espartana. Não chega já ao extremo agudo com limpidez - mas a Norma foi quase sempre vocalmente eloquente e comunicativa. O único flop foi a 'Casta Diva' ter sido cantada lá do alto da escadaria-árvore-altar, com prejuízo da projecção sonora. Os duetos "Mira o Norma" e "Si, Fino all'Ore Estreme" estiveram esplêndidos.

Quanto ao público (casa cheia, uns 1500) exagerou na imediatez dos aplausos - nem deixou acabar a 'Casta Diva' , já o clamor dos Brava ! se erguia.

Aqui fica Mariella em Tóquio, 2009:


E depois do fogo que tudo purifica, os aplausos.



Aplauso para Devia


Também o Palau de les Arts não tem o prestígio de Salzburg ou Milão; mas uma grande noite de ópera como há muito não disfrutava, numa sala de excepção - começando pela grandiosidade, passando pela acústica e terminando no excelente detalhe das legendas nas costas das cadeiras - é sempre memorável.




À saída, nem o mostrengo marinho de Calatrava é tão feio e assustador como à luz do dia. Até fica (quase) bonito.




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Nota humorística: era ver o pessoal no intervalo, uns a correr desesperados para os balcões de comes e bebes, outros (muitos) com... sacos de plástico de onde saiam copiosas merendas !


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