sexta-feira, 4 de setembro de 2015

Voltar a Itália, onde foi concebida a Europa


A ideia de Europa não é grega, ao contrário do que se diz nos jornais. Na Grécia havia apenas uma classificação geográfica - o ''mundo" estava dividido em três continentes. Os gregos contribuíram com o pensamento, a sabedoria e os mitos, como também contribuíram as sagas nórdicas e a narrativa judaica.

Foi na República Romana que o conceito espacial e político de Europa adquriu dimensão, através do Império e das suas fronteiras extremas. Havia a noção geográfica, claro - para leste até aos Urais, a Ultima Thule a norte ... - mas a unidade politica, civil, económica, religiosa, linguística, jurídica, era o Império Romano, submetido à pax romana e conectado pela primeira rede, europeia, de estradas e pontes. Unindo a Europa até na privacidade, com a canalização doméstica e a promoção da higiene pelo hábito dos banhos.

A 'Europa' romana, 140 D.C.

Fora da actual Europa, o Império incluia a Turquia e o Norte de África; e dentro excluía as zonas bárbaras do Norte (a Escócia dos pictos, a Germânia de diversos vândalos e nórdicos), delimitando-se pelos muros, valas e fortificações que marcavam os limes: o Muro de Adriano, o Limes Gemanicus, o Limes Moesiae (Bessarábia), até ao Mar Negro.

Na Idade Média começou a vocação planetária : Marco Pólo, a rota da seda, portos abertos ao oriente. E a cidade medieval italiana era modelo que alastrava não só na costa mediterrânica - para Norte também.

No séc. X, o sacro império romano-germânico era o coração da Europa.

Depois, a partir da Renascença, a Itália volta a ser central na Europa: era lá que se fazia pintura, escultura e arquitectura, e por lá a música começou a ser coisa séria; era um glorioso museu vivo e da arte clássica, protegido por mecenas do comércio e da banca; toda a élite culta visitava obrigatoriamente Itália em longas estadias, e muitos iam lá aprender a sua Arte.

Cerca de 1500, e até finais da Renascença: as mais prósperas cidades. Não há melhor definição de 'centro' histórico da Europa.

A cidade italiana, herdeira da cidade romana, não é a mais bela de todas ? As praças inimitáveis, os palácios, as torres (desde a Idade Média !) e campanários, as loggias e colunatas, a esplanada, a fonte monumental, o Teatro de Ópera...


Em que outro pais se sente, com tal intensidade, a história cultural - dos mosteiros aos mecenatos, da música à revolução industrial (Fermi, Volta, Marconi), das ciências e do pensamento (Fibonacci, Galileu, da Vinci) às técnicas (barómetro, termómetro, lâmpada, bateria, dínamo, rádio, automóvel, óculos), em quase todas as formas de arte - as que já referi, mas também o cinema !  Que outro país europeu é assim conhecido e falado em todos os países do mundo,

Martini, Ferrari, Armani, Chicco, Benetton, Pirelli, Ferrero, Geox, Max Mara, Alfa Romeo, Buondi, Versace, Cinzano, Bugatti, Alessi, Cimbali, Lamborghini, Zanetti, Olivetti, Zanussi, Maserati (che macchina!), Bulgari, Nutella, Ariston, Gucci, Lancia, Chianti, jacuzzi, Pendolino...
pizza, spaghetti, tagliatelle, tortellini, lasagna, ricotta, mozarella, mascarpone, parma, risotto, mortadella, panacotta, espresso...
Cinecittá, La Scala, San Marco, traghetto, Duomo, gondola, Arena (Verona), Palio (Siena), Salute, Ponte Vecchio, Sospiri, Caracalla, Fellini, Dolce Vita...
andante, con moto, allegro, vivace, assai, brio, adagio, non troppo, sustenuto, fortissimo, pianissimo, tutti, mezzo, a capella, cantata, concerto, sonata, opera, castrato, coloratura, largo, vibrato, bravo, oratorio, maestro...
sfumato, chiaroscuro, velatura, fresco, pigmento, trittico, graffitto/tti, caricatura, loggia, cupola, galleria, campanario...

Por tudo isso, não seria justo que França e Alemanha (o centro) e mesmo Reino Unido (o norte) cedessem à Itália mais algum protagonismo na actual construção europeia ? Ficava-lhes bem, a estratégia altruísta de não impor a força circunstancial de hoje contra a força da História. Não tenho dúvidas que os italianos saberiam ser justos na integração e na equidade: afinal são a primeira das Repúblicas, a segunda das Democracias (mas a primeira representativa) ... e o país mais rico da Europa, em património !


Talvez nos devêssemos unir em volta da Itália, nesse tal lobby pela Europa de que se fala para lhe dar novo alento. Voto nisso.

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Tudo este arrazoado ficou aqui escrito hoje porque estou a dias de partir para Roma, agora em Setembro. Será certamente também uma despedida :( ,  mais vagarosa e atenta que em visitas anteriores.

Trastevere será a minha casa. Villa Adriana o sonho.





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