terça-feira, 9 de fevereiro de 2016

Le dormeur du val, Rimbaud e Anselm Kiefer


Foi em 2014, quando visitei a Fundação Beyeler em Basileia, que tive a primeira experiência visual com Anselm Kiefer. A poesia visual, a novidade, a dimensão, o detalhe e aquilo que me parecia ser dito obrigaram-me a voltar a observar várias vezes com espanto. Não conhecia o nome, mas logo me pareceu obra de mestre contemporâneo, finalmente algo de génio para emparelhar com os clássicos.

Na Fundação Beyeler.

Esta 'Lilith', de 1997, parece uma antevisão do 11 de Setembro. Um 'caça' de chumbo, uma mecha de cabelo pendurada na asa, uma cidade de arranha-céus coberta de cinza. Um aviso de apocalipse.

Anselm Kiefer nasceu em 1945, e cresceu na Floresta Negra, junto ao Reno. Ficou marcado pela paisagem desolada do pós-guerra na Alemanha. A primeira parte da sua obra situa-se nos anos 70-90, inspira-se em temas da história germânica, mitos nórdicos, poesia (Paul Célan, Baudelaire, Rimbaud), música (Parsifal de Wagner), filosofia, na arquitectura de Albert Speer, folclore; explora também ícones contemporâneos e o uso da propaganda  visual no 3º Reich. A escala das obras foi crescendo e nelas Kiefer usa os materiais mais invulgares - rochas, flores, chumbo, vidros, areia, argila - sobre várias camadas de tinta. Desde 1991 passou a viver em França e alargou os temas de vida, morte e decadência muito para além da tragédia alemã. Kiefer tem também residência temporária na nossa Alcácer do Sal, e criou um projecto cultural para a Comporta que está à espera de melhores dias (*).

" Vejo os meus quadros de ruínas como blocos de uma construção, que se podem compor numa construção. São material de uma construção inacabada. Estão mais próximos do nada que da completude."

Está agora em exibição no Centro Pompidou, com enorme afluência e cobertura dos media, onde já é referência comum. Tanto quanto me lembro, foi o meu primeiro contacto com o génio no século XXI.

'Eisen Steig' ( Passeio de Ferro), 1986

'Tempelhof', de 2010-11, com 3,8 m. Catástrofe num hangar ? O Tempelhof servia de abrigo em Berlim durante a guerra.

'Lilith am Rotte Meer' (Lilith no Mar Vermelho), 1990, de 2,8 m. O holocausto?

A série Lilith é talvez a mais conhecida obra de Kiefer, pelo choque plástico visceral, mais forte numa exposição conjunta. Para Kiefer, Lilith é a "guia espiritual, anima e anima mundi ".

'Lilith' (1987-89), tela de 5.6 m. Tempestade sobre S. Paulo (?), tragédia bíblica, uma mecha de cabelo.

Sobre poema de Paul Célan, 'O teu cabelo de ouro, Margarida' faz parte de uma série temática - 'Todesfuge', fuga da morte, alusiva aos campos de concentração.

'Dein Goldenes Haar, Margaret´, de 1980


Uma das obras mais assombrosas é a recente 'Le dormeur du Val' (2013-15), sobre um poema de Rimbaud. Aqui ficam, ambos sublimes, estarrecedores.

C’est un trou de verdure, où chante une rivière
Accrochant follement aux herbes des haillons
D’argent; où le soleil, de la montagne fière,
Luit: c’est un petit val qui mousse de rayons.

Un soldat jeune, bouche ouverte, tête nue,
Et la nuque baignant dans le frais cresson bleu,
Dort; il est étendu dans l’herbe, sous la nue,
Pâle dans son lit vert où la lumière pleut.

Les pieds dans les glaïeuls, il dort. Souriant comme
Sourirait un enfant malade, il fait un somme:
Nature, berce-le chaudement: il a froid.

Les parfums ne font pas frissonner sa narine;
Il dort dans le soleil, la main sur sa poitrine,
Tranquille. Il a deux trous rouges au côté droit.


                                                                        Rimbaud

C’est un trou de verdure, où chante une rivière.


     “ Não há nenhuma lei que se aplique igualmente ao macrocosmos e ao
     microcosmos. No século XVII, Robert Fludd criou artificialmente essa
     correspondência quando disse que a cada planta corresponde a sua estrela
     no firmamento. Asserção admiravelmente poética, mas também utópica."

La vie secrète des plantes.


[Centro Pompidou, até 18 de Abril]
(*) Ver no Público

2 comentários :

Gi disse...

Muito bom. Obrigada; Mário.
É de supor que Fernando Pessoa conhecesse este poema de Rimbaud, não? E que o inspirasse?

Mário Gonçalves disse...

Gi,

http://literaturaearte.blogspot.pt/2010/02/rimbaud-pessoa.html

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