sexta-feira, 19 de agosto de 2016

O boletim mensal da Antena 2 e os "Discos Contados", que saudades !


Tempos houve em que a chegada pelo correio do boletim de programação da Antena 2 era dia de festa. Sorrindo de prazer, percorria as páginas de cada semana anotando a vermelho, sublinhado ou com cruzes, tudo o que não queria perder - o que era, isso mesmo: incontornável. O Ritornello, o Musica Aeterna (de João Chambers), Os Sons FérteisA Noite de Ópera, o Vibrato, Questões de Moral (de Joel Costa), Argonauta, Mezza-VoceO meu piano é melhor que o teu, Que música é esta ? (com Andrea Lupi), etc etc.

Página de um boletim.

Com texto-anúncio assim, quem resiste? O Musica Aeterna herdou o prestígio do inultrapassável Em Órbita.

Era o tempo dos programas de Autor, de gente que sabia fazer rádio com gosto e mestria, sem ceder a modas, sabia montar um programa com pés e cabeça, com texto bem bem escrito e bem integrado na sequência musical. 
Não era só "acabaram de ouvir..."
Estudiosos, cultos e sábios. Já não há.

O mapa-resumo, à vol d'oiseau.

E quando começou a incluir o suplemento "Discos Contados", destacável para se coleccionar em dossier próprio ?  Fenomenal ! A alegria redobrava e a minha instrução clássica passou imenso por aí. Comparavam-se gravações - coisa rara -, tomava-se partido por Klemperer ou Karajan (quase sempre os favoritos) sem deixar de mencionar as novas abordagens (Harnoncourt, Gardiner, Pinnock).


Cada ficha continha quatro temas. As bolas pretas eram marcas para furar e arquivar na capa de argolas.

Uma apresentação sintética - texto lapidar, claro e conciso - abria o apetite para ouvir e dava pistas para escolher a gravação. Na Missa Solemnis aqui referida, Harnoncourt viria afinal a estar no topo, provavelmente superando o Karajan pastoso.

As sucessivas "renovações" e mudanças de direcção descaracterizaram a Antena 2, agora uma coisa informe modernaça, já em podcast,  que transmite de tudo, hip-hop e fado, com uns textos miseráveis mais ou menos situados na moda socio-política. Raramente passo por lá.

Luís M. Alves, Miguel Sobral Cid, Vanda de Sá, obrigado ! Fizeram mais pela cultura musical erudita do que qualquer programa actual. E tenho de juntar na minha gratidão Jorge Gil e João Chambers, Andrea Lupi e Joel Costa, pelo menos.

Deixo o Benedictus da Missa Solemnis, uma das mais belas obras de música de sempre,  dirige Harnoncourt.


Hosana in excelsis !

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