SKaill Bay, na costa oeste da maior ilha Orkney; ao fundo St Peter's Kirk.
Skaill House, de frente para a baía.
Sandwick é uma das mais desoladas e remotas regiões da maior ilha das Orkney. Prosseguindo na minha obsessão em ver e mostrar sítios novos da Europa, nada melhor do que um recanto onde não devia haver coisa alguma e afinal há: uma aldeia Neolítica, uma mansão apalaçada perto da praia e uma invulgar igreja em bom estado. Tudo muito inesperado, numa planura sem árvores, sub-ártica, à beira do selvagem Atlântico Norte. A poucos minutos está a bela cidadezinha deStromness, 10 km a sul, onde não falta nada.
Porto de Stromness.
O nome 'Skaill ', palavra do nórdico antigo das Orkney, refere-se a um sítio de importância relevante. Alguma coisa aqui houve no tempo dos Vikings; mas muito antes disso nasceu uma impressionante aldeia neolítica em Skara Brae, de renome mundial, e importância comparável a Pompeia ou às Pirâmides.
O acesso é pela B 9056 ao longo do Loch Skaill, uma panorâmica plana de água e vegetação rasteira.
Skara Brae, sítio arquelógico da Idade da Pedra
Há 5000 anos, as Orkney tinham um clima suave e um solo fértil, muitos lençóis de água doce, e estavam suficientemente afastadas para segurança contra ataques. Em Skara Braeestamos perante uma obra maior do Neolítico - a aldeia foi uma construção de muito engenho recorrendo ao material disponível no local.
Por volta de 1850, uma violenta tempestade no mar conjugada com uma maré alta excepcional deixaram a descoberto a base das Dunas de Skerrabrae, revelando um amontoado de detritos e cinzas recheado de artefactos.
Oito anos depois já estavam à vista quatro estruturas e um vasto espólio de achados primitivos. Em 1861 foram abertas vária câmaras e passagens. Em 1970 o arqueólogo David Clark fez finalmente a datação por radiocarbono confirmando que os achados não eram da Idade de Bronze (Pictas) mas bem mais antigos - do Neolítico tardio, tal como as pedras de Ness of Brodgar; o local estava habitado entre 3200 aC e 2500 aC. Em Dezembro de 1999, Skara Brae foi incluída nos Sítios de Património Mundial da UNESCO.
Casas 1, 2 e 8 - primeiras a ser descobertas, as 'melhores'; casas 9 e 10 - as mais antigas. A zona mais escura é a mais antiga, mais afastada do mar; a aldeia cresceu em direcção à praia.
Casa nº 1, com o seu 'aparador' em lajes da praia.
Cada habitação contém peças de mobiliário em pedra - camas, assentos, armários e caixas de arrumação. Ao fundo vilslumbra-se Skaill House.
Skara Brae devia ser um lugar acolhedor. Algumas dezenas de humanos construíram as oito habitações, ligadas por passagens cobertas, encostadas umas às outras para se protegerem dos invernos rigorosos. Tinham uma lareira central no interior, e os espaços estavam 'mobilados' com camas de pedra e armários de prateleiras, tudo com as pedras e lages argilosas da praia - note-se que nas ilhas não existem árvores desde há mais de 5000 anos, excepto os destroços que dão à praia.
A entrada nas casas era por uma porta baixa sustida por uma laje de pedra; de frente para a porta estava o aparador, à direita e à esquerda camas, ao centro a lareira.
Casa nº 8
Menos de 50 pessoas habitariam a aldeia, vivendo da pastorícia de gado e ovelhas e da colheita no mar. Cultivavam pelo menos cevada, de que se encontraram grãos. Culturalmente fazem parte da população dita de "Cerâmica ranhurada", Grooved Ware.
Cerâmica ranhurada neolítica de Skara Brae
Colares de berlindes de osso
Pedras esculpidas de significado desconhecido
'Buddo', figura esculpida em osso de baleia que se tornou símbolo de Skara Brae. Foi encontrada na Casa nº 3. 'Buddo' é um vocativo amigável orcadiano.
Construída em 1620 para o Bispo das Orkney, foi durante 400 anos ocupada por sucessivos 12 'Lairds' (*). Um deles, William Graham Watt, Laird de Breckness, foi quem descobriu e explorou a aldeia neolítica de Skara Brae em 1850.
Na base estão duas casas de empena frontal escalonada em degraus encimadas por chaminés; vê-se a janela óculo que ilumina a biblioteca.
Actualmente está aberta para visitas como casa-museu e para alojamento em apartamentos.
Recanto de leitura na biblioteca, junto a uma janela em óculo.
Custa a acreditar que exista uma igreja coim estas dimensões num lugar ermo e remoto das Orkney, sem nenhuma povoação por perto.
Situada no outro extremo de Bay of Skaill, num terreno irregular e exposto ao mau tempo, de onde se pode vislumbrar Skara Brae ao longe, para sul. Um edifício de 1836 bem conservado, num estilo georgiano simples, caiado, em que o único enfeite é um pequeno campanário rematado por um esfera de pedra. O interior austero, em madeira lisa, teve o seu auge durante o século XIX quando 500 pessoas se acumulavam e se apertavam.
Porquê uma igreja destas dimensões num canto quase desabitado e remoto? Esteve para ser demolida em 1988 devido aos prejuízos causados pelos temporais, mas foi restaurada por um fundo privado, embora ficasse sem electricidade nem aquecimento.
A madeira veio do Báltico.
E pronto, Ainda podia falar do Ring of Brodgar, uma alinhamento circular de pedras do Neolítico que não fica longe. Andou muita gente por aqui !
Aldoar, Porto, é tradicionalmente uma freguesia residencial, mista de classes e sem nada de assinalar, tirando o Parque da Cidade. Ruas e moradias vulgares, bairros sociais de blocos, feios como sempre. Tem-se vindo a arrumar um pouco melhor, com renovação de pisos e passeios; mas o que dá mais nas vistas é o edifício da Universidade Lusíada, um grande bloco branco todo em ângulos rectos com saliências e reentrâncias a lembrar um castelo. Já é habitual alguma arquitectura moderna desenhar 'bunkers' brancos, que só são mais requintados nas traserias ou no interior para quem os habita; este enorme 'bunker' é brutal visto da rua, mas lá está: entrando, encontram-se percursos com alguma graça, onde a arquitectura é bem mais bonita.
A obra terminada mas ainda não inaugurada.
O arquitecto foi José Mendes Godinho, formado na própria Lusíada; este pólo abriu em 2021, com cursos nas áreas 'pobres' (socio-económicas, psicologia, direito, política internacional) mas também com o prestígio de arquitectura e design.
A frente está orientada a nordeste.
Percurso lateral norte (entrada secundária)
Nada mal !
Ao fundo fica a cafetaria.
Termina o percurso da fachada norte.
Dando a volta, o percurso segue pelas traseiras, virado a sul / sudoeste.
Bem mais bonitas, as trazeiras 'intimas'.
O Quad
Nas Universidades inglesas antigas - colégios de Oxford, Cambridge - foi tradição a envolvência do edifício em torno de espaços quadrangulares ('quad') relvados e fornecidos de bancos. Parece que aqui o arquitecto fez algo semelhante.
A entrada, como se fosse um pórtico.
Nada mal também !
Abundância de formas e volumes.
Do bom aproveitamento das árvores.
Está completa a volta exterior. A frente na actualidade:
Balanço: embora assente basicamente num "Lego" de paralelipípedos, o conjunto tem alguma harmonia e coerência e oferece espaços e recantos que quebram a monotonia, com a ajuda das árvores e dos relvados. Bem melhor que a sinistra FAP do Siza.
[Não fiz fotos no interior, há algumas no site da Lusíada mas são fracotas.]
A habitual selecção para as próximas semanas, a ver se lava a mente da sujeira que tem absorvido deste mundo.
The Glass Marker, Tracy Chevalier
Já me deu alguns dos melhores livros que já li: The Lady and the Unicorn, Girl with Pearl Earrings, Burning Bright, A Single Thread. Este passa-se em Veneza e Murano, e também é uma novela histórica ligada às artes - neste caso à arte dos vidreiros de Murano. Duas famílias de fabricantes, os Rosso e os Barovier, competem e colaboram para garantir o mercado mais importante - o alemão, com o grande entreposto junto a Rialto. Toda a narrativa segue a vida de Orsola Rosso desde a adolescência, e sucessivas Orsolas através dos séculos. Um grande fresco, com vívidas descrições como esta, em que Orsola Rosso e o irmão Giacomo, conduzidos pelo remador Bruno, se dirigem para a feitoria alemã.
"Seguiram pelo Grande Canal, tendo-se Bruno alinhado com
uma longa fila de barcos que deslizava em direcção ao pórtico. Embora já tivesse feito este caminho antes, mantinha-se em silêncio, suando enquanto manobrava para não abalroar o barco que o precedia, carregado de tapetes. Outros em volta transportavam seda, madeira, barris de vinho, especiarias; havia mesmo um carregadinho de limões. Enquanto esperavam para desembarcar, Orsola viu passar por eles uma peata que levava caixotes de madeira de Murano, como os que os Rosso utilizavam. Estavam marcados com letras, mas não conseguiu ler. -"Moretti", esclareceu Giacomo ao dar conta da atenção intrigada da irmã. "O mercador deles deve ter inspeccionado os artigos de vidro e feito um inventório, e agora segue para São Marcos onde as caixas serão transferidas para navios que seguem primeiro para sul, depois para este ou oeste. A mesma coisa acontece com os nossos vidros." Orsola nunca tinha pensado na viagem que os vidros faziam após partirem de Murano, embora uma vez ou outra tentasse imaginar onde iam parar: numa mesa posta em Londres, por exemplo, cada lugar com os seus cálices Rosso. "
La Rochelle Thomas Brosset e Maggie Cole, ed. Le Croît Vif
Um relato bem documentado da Liga Hanseática : as suas várias cidades e entrepostos, as ligações entre eles, os negócios e as políticas, tudo para ressaltar a magnífica cidade de La Rochelle, entreposto francês importante pela produção de sal e vinho. Poucos sinais restam da Liga, mas toda cidade foi construída sobre essa herança.
Casa ao estilo hanseático, Place Verdun, La Rochelle.
American Faith , poemas de Maya C. Popa Sarabande Books
Já várias vezes aqui coloquei poemas de Maya C. Popa.
Hummingbird ( 'Beija Flor') , excerto traduzido
Batendo com o dedo na minha janela a sudoeste,
Coloco um bebedouro, convite ao vandalismo.
E embora o convidado tenha plumagem delicada,
Nunca deixa uma pena caída, parábola inacabada,
enquanto do lado de dentro, as perdas se acumulam
sem dó, sem lógica nem esquema, e questionamos:
Que é que prepara um pássaro para tanto fracasso
quando todo o seu esforço se resume a subsistência,
não recebe trocos da água doce diária,
nenhuma novidade no seu canto, nem um novo ninho.
The Crimson Sails Alexander Grin, trad. Irina Lobatcheva e Vladislav Lobatchev
Já sei: se estou a ler historinhas para jovens adolescentes, está-se a agravar a minha senilidade. Acontece que nunca tinha lido Alexander Grin, não fez parte dos meus contos em criança; li Peter Pan, Alice, Irmãos Grimm, Andersen, Selma Lagerlof, depois C.S. Lewis, mas ninguém me falou de Alexander Grin. É um escritor russo do início do século XX de historinhas de ficção mágica, terras inventadas e narrativas heróico/românticas, digamos como a Narnia mas sem guerras. As Velas Escarlate (ou Velas Carmesim) é o conto mais famoso: muitíssimo bem escrito, com riqueza de detalhes e de peripécias, bem traduzido para inglês pelos irmãos Lobatchev.
CDs
Sonho de uma Noite de Verão, Mendelssohn narrado por Judi Dench
Não só é uma versão integral , como a narradora é Judi Dench, aquela voz inimitável de um sublime inglês teatral. Conta ainda com Kathleen Battle na 1ª fada, e a direcção de Seiji Ozawa. Para a versão apenas orquestral, há melhores escolhas, mas escutar esta dicção cativante e amável é uma experiência sem igual.
Mozart, sonatas para violino Alina Ibragimova (vln) e Cédric Tiberghien (pn)
E deixo talvez o melhor para o fim:
Árias de Telemann Dorothee Mields, com a L'Orfeo Barockorchester
São cantatas seculares, Deo Gratias!, canções de paixão, esperança, desgosto e reconciliação. Uma alegria primaveril onde brilha o bonito e cristalino timbre da soprano Dorothee Mields.