quarta-feira, 23 de maio de 2012

La Alberca e El Santo Desierto de San Jose

Prometido é devido: mais uma reportagem sobre o passeio de Primavera.
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O Parque Natural de Las Batuecas- Serra de Francia, na província espanhola de Castilla Y Léon, fica logo à saída de Portugal pela A25, um pouco a sul de Ciudad Rodrigo.

A vila mais bonita do Parque é a vila histórica de La Alberca, situada a 1064 m de altitude, onde me instalei em 4 estrelas para explorar a região.

Ponte de entrada na vila

Praça da Igreja

La Alberca é uma povoação medieval, com casas de 3 andares anteriores ao séc. XVIII, inspiradas na arquitectura medieval da Normandia e Bretanha: base de granito, 1º e 2º andares com estrutura de caixilho em madeira e enchimento de pedras; frequentemente o rés de chão recua, dando lugar a colunas de sustentação dos andares de cima, mais salientes e apoiados em enormes troncos de carvalho, criando à face da rua um espaço abrigado do sol e da chuva.


O conjunto está bem tratado, embora muitas casas mais periféricas estejam abandonadas em ruína iminente.


A influência francesa deve-se a D. Raimundo de Borgonha, casado com uma filha de Afonso VI, que veio com a sua corte para estas terras.

Nesta altura do ano havia varandas e parapeitos floridos no 1ª andar.

Como é hábito, há duas praças - a da Igreja e a Plaza Mayor, a sala de visitas; aqui se instalam esplanadas e duas bancas de venda de produtos locais - mel, geleias, guloseimas de amêndoa. No centro, um cruzeiro antigo com fonte.



A vila terá sido lugar de bom convívio entre judeus, árabes e cristãos desde o séc. XIII, e feudo dos Duques de Alba.

O edifício mais interessante da praça é a Casa Ducal, que foi casa do Administrador dos Duques :


A Igreja é do séc XVIII, neoclássica:

O mais interessante - além da cegonha que nidificou na torre sineira ;) - ...


... é o belo púlpito do séc. XVI :

Esculpido em granito polícromo, representa os 4 evangelistas e está suportado por uma capitel decorado com esculturas de anjos.

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No Parque, o primeiro passeio foi sempre a descer em zig-zag até ao fundo do Vale do rio Batuecas, uma cova fresca, verde, frondosa e muito isolada no meio das montanhas (que rondam os 1000 - 1500 m).


A primeira surpresa agradável do Parque é a floresta. Densa, isenta do menor sinal de incêndios, variada. Sobretudo carvalhos, imensos bosques de carvalho e azinheira em planalto ou cobrindo as encostas. Troncos carregados de musgo e líquenes atestam a pureza do ar e da água. Mas também bosques de nogueira e castanheiro (mais esguios e altos que os nossos), pomares de cerejeiras (carregadinhas de fruto ainda verde) e macieiras, algumas figueiras, um ou outro pinheiro - em geral exemplares magníficos, grandes e de copa bem redondinha. Salgueiros junto aos cursos de água. Ao todo vi UM eucalipto.

Ouvi na rádio local que a área florestal do Parque é a maior da península, e mais do que a floresta da Bélgica, Holanda e Luxemburgo somadas. Ao ver um mar de encostas carregado de copas verdes em toda a extensão à minha volta, acreditei.

Nesta altura, as bermas da estrada e as encostas suaves estavam também coloridas pela giesta e campos de papoila, alfazema e miosótis. Um regalo.

Uma vez chegado lá em baixo junto ao rio, encontra-se um parque para estacionar e indicação de percurso a pé.


O caminho segue quase plano, junto ao rio por entre o bosque sombrio :) , até desembocar no portão de entrada do Mosteiro.

Rio Batuecas

O Vale foi descoberto no séc. XVI pelos padres Carmelitas, que o baptisaram “Desierto de San Jose” e o escolheram para construir o Mosteiro, terminado só em 1688.



Sofrerá varios incendios e um abandono progressivo até ficar practicamente em ruínas, até que após algum restauro os padres Carmelitas voltem a instalar-se em 1950. Lá continuam.

A entrada está fechada a visitantes devido à absoluta reclusão e silêncio a que se votaram. Querem ouvir a sinfonia das cigarras, da passarada e do marulhar das águas entre as pedras. Eu até era capaz de gostar da reclusão e do silêncio, mas ninguém me tire a música, por favor...

¡Mi amado, las montañas, 
los valles solitarios nemorosos,
las ínsulas extrañas,los ríos sonorosos,
el silbo de los aires amorosos;

la noche sosegada,
en par de los levantes de la aurora,
la música callada, la soledad sonora,
la cena que recrea y enamora;
Cántico espiritual - Canciones entre el alma y el esposo
San Juan de la Cruz
(1542-1591)

2 comentários :

Paulo disse...

Parece-me tudo muito bonito. Tenho amigos que estiveram em La Alberca e gostaram muito mas eu ainda ainda só a vi ao longe.

P.S. Conhece o filme/documentário que Buñuel fez nessa zona? "Terra sem Pão"?

Mário disse...

A notícia que Buñuel deu de Las Hurdes era claramente exagerada...

O filme era uma hipérbole surrealista sobre a pobreza... vi há imensos anos e não gostei.

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