quarta-feira, 1 de julho de 2009

O Global Seed Vault: Previsões, catástrofes e bom senso - parte I

É cada vez mais frequente previsões a longo prazo servirem de justificação para medidas imediatas antipáticas ou penalizadoras. Isso nunca aconteceu antes na História: as pessoas sempre pensaram que o que fazem de bom para benefício de quem vive hoje será naturalmente bom para as gerações seguintes.

As ideias dos "amanhãs que cantam", sacrificar hoje para colher no futuro (longínquo) , já ilustradas no célebre conto da cigarra e da formiga - apesar de tudo a formiga colhia o fruto do trabalho ainda em vida...- surgiram com as primeiras ideologias políticas, económicas e sociológicas, os primeiros estudos académicos nestas áreas, e as primeiras revoluções sujeitas a essas ideologias. Não vale a pena insistir no malogro que foram todos os modelos baseados no sacrifício hoje pelo homem novo, pelo futuro radiante amanhã, sendo que o novo e o amanhã eram adiados para São Nunca.

Tendo conseguido ultrapassar esses modelos, no sentido em que as pessoas (globalizadamente) desataram a querer viver melhor hoje sem querer saber de amanhãs, saudável mentalidade de cigarra, eis que os arautos do mal-estar, do sacrifício e do masoquismo social voltaram à carga culpabilizando esta geração de estar a condenar as próximas a todas as desgraças e catástrofes. Tudo isto sem cabal prova científica, baseado em geral nos mesmos preconceitos sociológicos e económicos que já nos habituamos a ver falhar estrondosamente.

Foi-se o melhor do sistema de apoio social europeu, afastando-nos cada vez mais da vida descansada dos nórdicos; deixamos de fumar, de comer bolas de Berlim, de usar sacos plásticos para o lixo, de nos arrefecer dos calores excessivos com ar condicionado, até o amor sofre limitações e gritos de alerta. Também dizem que somos demasiado ricos e devíamos voltar a viver com modéstia (Salazar tinha razão !). E evidentemente que o preço de não alinhar é a catástrofe anunciada, é hipotecar o planeta para as gerações futuras. Querem que deixemos de viver, em nome da felicidade de filhos e netos; filhos e netos a quem, por sua vez , em vez do paraíso, irão exigir que abdiquem de mais umas quantas coisas em nome de bisnetos e trinetos.

Sabe-se que o bom senso é a qualidade mais rara e mal distribuída entre os homens. O bom senso indicaria que tentássemos melhorar sempre as coisas para nós, de forma duradoira, e assim as coisas melhorariam para quem vier a seguir. Melhorar os apoios na saúde e na velhice; melhorar os cigarros , as bolas de Berlim, os carros e o ar condicionado para que não sejam tão (ou nada) prejudiciais; melhorar vacinas e tratamentos; em suma, fazer um investimento em investigação, ciência e tecnologia dedicado às causas ditas alarmantes - e estudar seriamente até que ponto são alarmantes; não há razão para sermos todos musculosos e esguios, obedientes a um modelo único de sociedade sem plásticos nem vírus nem pastéis de nata, adoradores do Sol e da Terra mas pouco amigos dos humanos cheios de vícios de agora e hoje.

Bom, tudo isto para falar agora de dinheiro bem gasto, ou seja, bom senso. Armazenar sementes de todas as plantas incluídas na nossa dieta alimentar , congelando-as para que nos possam valer em qualquer momento de catástrofe - asteróide, nuclear, glaciação , tsunami ou sermos esturricados pelo Sol - é uma ideia de tão genial bom senso , de custo/benefício tão altamente vantajoso, de valor educacional e patrimonial tão grande como a humanidade inteira. Só faz bem a todos - faz mal a ninguém.

Claro, uma ideia destas só podia vir dos nórdicos, dessa Noruega tão mal querida por manter a felicidade e o bem-estar ao alcance de todos. Hoje.

Continua na Parte II - post próximo.

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