quinta-feira, 7 de janeiro de 2010

Ano Mahler (I) : obra prima absoluta (III)

Se há compositor que não precise de ano para ser celebrado é Mahler. Tenho sempre música dele "à mão", está em audição permanente.

De Mahler apetece-me dizer que fez a única síntese genial de música erudita com músicas populares, folclore, etc., e com músicas não europeias - integrou também influências orientais, outras experiências tonais, dissonantes... Ébrio de toda a música do mundo, organizou sinfonias monumentais e quase-operáticas ou mesmo litúrgicas onde levou os contrastes dinâmicos e dramáticos ao paroxismo. Uma música de excessos, de infinitos. Contrapontos inacreditáveis, ritmos ínesperados, instrumentos exóticos, harmonias improváveis.

A 2ª sinfonia é a que vai mais longe, a arquitectura mais bem conseguida, a fusão perfeita da sinfonia com a obra religiosa. Nunca se ouve duas vezes da mesma maneira, nunca se toca duas vezes da mesma maneira, nunca é demais repeti-la. É a 2ª de Mahler a que mais me perturba e onde encontro o êxtase da contemplação musical.

A 5ª é a mais bela.

A 6ª é a mais louca.

A 4ª sinfonia é a que vou escolher como "obra prima absoluta" para não ser uma escolha demasiado óbvia.

Mahler feliz

Na 4ª sinfonia, a música flui com vitalidade e serena criatividade, com um grão de folia que não extravasa, e mais classicismo que nas suas vizinhas. Por alturas da sua composição, Mahler já é o incontestado director da Orquestra de Viena. E é vienense, herdeiro de Mozart e de Haydn, o lirismo pastoral e o contido abandono com que compõe a 4ª, programando uma sinopse dos seus andamentos:

1. O Mundo como Eterno Presente
2. A Vida Terrena
3. Caritas
4. Os Sinos da Manhã
5. O Mundo sem Gravidade
6. A Vida Celestial

Começou a trabalhar em Julho de 1899, e logo fez múltiplas modificações ao plano. Retirado numa estância balnear, Mahler teve azar com o tempo - frio e chuvoso - e com a casa que arrendara, próxima do coreto da banda local ! Pobre Mahler, o que ele sofreu ! Desistiu, dedicou-se à leitura, o que resultou em pleno: as ideias musicais começaram a surgir a jorros. Em poucos dias a obra tomou forma.

Depois de outra temporada esgotante à frente da Orquestra de Viena, no ano seguinte, 1900, escolheu outro local para férias, comprou uma casa sossegada, e construiu um pequeno estúdio cercado e isolado pelo arvoredo. Esgotado, deprimido e ultra-sensível, até o canto dos pássaros o incomodava, e não conseguiu a princípio retomar a obra. Quando serenou, foi com espanto que constatou que estava mais avançada do que pensara: todo o tempo tinha operado com ela quase inconscientemente, e foi com naturalidade e espontaneidade que lhe surgiram ideias conclusivas: terminou a 4ª sinfonia a 6 de Agosto. Feliz, expansivo, entusiasmado, contava aos amigos detalhes da sinfonia, como a compusera, a complexidade da sua polifonia e do entrosamento das secções da orquestra.

Descreveu o Adagio como "uma melodia divinamente alegre e profundamente triste", traduzindo "uma paz solene e abençoada". Disse que ao compor esse andamento se inspirara no rosto da mãe quando sorria entre as lágrimas. E o último andamento é a resposta da inocência da criança ao Homem: eis a vida celestial.

Este andamento, incluindo a canção Das himmlische Leben, deve ter dado mais trabalho a Mahler que todo o resto da sinfonia, que todas as outras sinfonias. Sob a aparente simplicidade há uma imensa riqueza de invenção, uma densidade polifónica sofisticada e uma complexa técnica sem precedente nas três primeiras sinfonias. Uma verdadeira obra de vanguarda, que como tal obteve reacções muito adversas do público da época...

Gustav Mahler - Sinfonia No. 4 - 3º andamento (início)
Leonard Bernstein , Filarmónica de Viena



4º Andamento
Orquestra do Concertgebouw, B. Haitink,

Christinne Schafer



Devo dizer que actualmente a minha gravação de referência (ainda) é a de Claudio Abbado, com a Filarmónica de Berlim e Renée Fleming.

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