domingo, 16 de abril de 2023

A Primavera segundo Aloysius Bertrand ( in 'Gaspar de la Nuit').


Mais uma Primavera

Mais uma Primavera, - mais uma gota de orvalho, que se embala por um momento no meu cálice amargo, e se escapará como uma lágrima !

Ó minha juventude, as tuas alegrias foram geladas pelo beijos do tempo, mas as dores sobreviveram ao tempo que elas abafaram no seu seio.

E vós que desfiastes a seda da minha vida, ó mulheres ! Se houve no meu romance de amor alguém que enganou, não fui eu, alguém enganado, não fostes vós!

Ó primavera, avezita que passa, hóspede de uma estação que canta melancolicamente no coração do poeta e na ramagem do carvalho!

Mais uma Primavera, - mais um raio do sol de Maio na fronte do jovem poeta, pelo meio da gente, na fronte do velho carvalho, pelo meio do bosque.

                                                                          Aloysius BERTRAND, 1807 - 1841

Encore un printemps

Encore un printemps, - encore une goutte de rosée, qui se bercera un moment dans mon calice amer, et qui s'en échappera comme une larme !

Ô ma jeunesse, tes joies ont été glacées par les baisers du temps, mais tes douleurs ont survécu au temps qu'elles ont étouffé sur leur sein.

Et vous qui avez parfilé la soie de ma vie, ô femmes ! s'il y a eu dans mon roman d'amour quelqu'un de trompeur, ce n'est pas moi, quelqu'un de trompé, ce n'est pas vous !

Ô printemps ! petit oiseau de passage, notre hôte d'une saison qui chante mélancoliquement dans le coeur du poète et dans la ramée du chêne !

Encore un printemps, - encore un rayon du soleil de mai au front du jeune poète, parmi le monde, au front du vieux chêne, parmi les bois !

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Gaspard de la Nuit foi publicado em 1842, depois da morte de Louis Bertrand, e de uma longa batalha editorial.



domingo, 9 de abril de 2023

A Sbeïtla das oliveiras, Sufetula dos Romanos, hoje Subayţilah, no Norte de África



Porque raio se instalariam os Romanos do primeiro século num sítio tão remoto do Magrebe, não percebi. Mesmo que fosse só para controlo territorial, fundando uma cidade para apoiar umas quantas legiões do exército - estaria, ali a defender o quê, além de areia e camelos, a mais de 170 km da costa ? Haverá minas de ouro ?

Não: havia oliveiras. Ali se produzia o precioso azeite em quantidade ! E muita água, era (já não é) uma das regiões mais bem fornecidas de água do Norte de África, coisa que os Romanos não dispensavam nos seus banhos.

Hoje, os estrangeiros de Túnis vão visitar os restos de Cartago ou o Coliseu de El Jem; mas nada valem essas relíquias romanas comparadas a Sbeïtla, hoje Subayţilah. Nunca fui, nem irei , à Tunísia; mais uma razão para me deliciar e partilhar aqui esta maravilha.

Titus Flavius Vespasianus era em 63 governador da Província da África. Alcançou o poder em Roma no ano de 69, proclamado imperador pelos seus próprios soldados em Alexandria. Ganhou renome como comandante militar, destacando-se na invasão romana da Britânia, fez campanha no Egipto, e só por esta vastidão de pensamento geográfico já quase dá vertigens a capacidade deste Imperador gerir o seu enorme Império.

Sufétula teve dois períodos de glória, um desde os pacíficos anos romanos 67-70 até 200 e o outro o período Bizantino (534 - 647) sob o Imperador Justiniano I , até à islamização, que foi completada em sucesivas invasões e ferozes batalhas: em 647 aconteceu a batalha de Sufetula, e a cidade caiu para os muçulmanos. Cartago cairia em 698, e em 709 o domínio muçulmano estendeu-se a todo o Norte de África, e à Península Ibérica em 711.

O Exarcado Bizantino do Magreb sob Justiniano; 'Exarchatus' era uma extensão do Império, governada por um vice-rei. No mapa está como "Perfecture of Africa".

Certamente na altura o clima era bem mais favorável, temperaturas amenas e oásis plenos de água favoreciam a verdura e, o que mais interessa, as oliveiras. Agora Sbeïtla está no meio de uma vasta planura, bastante mais árida.

Oliveiras ainda rodeiam as ruínas de Sufetula.

Foram encontradas prensas e lagares entre as ruínas, e dessas prensas saiu a prosperidade que explica o Fórum, o Capitólio, o Anfiteatro e outros templos.

O Arco de Diocleciano (ca. 300 DC), em excelente estado, prova a prosperidade de Sufetula, mesmo num período de crise do Império.

Também chamado Arco Triunfal da Tetrarquia, pois comemora os 4 imperadores do ano 300, os dois Césares e os dois Augustus.


Outro arco triunfal mais antigo, o de Antonino, abre para o Forum:


Está rigorosamente datado: 139 DC.



Pelas suas portas entra-se num largo Fórum pavimentado, rodeado por duas filas de colunas que conduzem para os três templos do século II, dedicados aos deuses do Panteão : o Templo de Júpiter ao centro, o Templo de Minerva à esquerda, o mais bem conservado, e o de Juno à direita.



Templo de Júpiter

Coluna do Templo de Júpiter.


A frente Coríntia do Templo de Minerva.

Dois lagares com prensas de azeite:



Baptistério da Basílica de Vitalis (séc. V)

O nome deriva da inscrição 'Vitalis' visível na pedra, que deve ser já do período de ocupação pelos Vândalos ortodoxos. Tem uma colecção soberba de pias baptismais.


Um intrincado mosaico floral em vermelhos e verdes enquadra as escadas e assentos.



Na zona de banhos, salientam-se mosaicos como este:



Se a maior expectativa é para o anfiteatro, uma ligeira decepção.


Fica a Norte do conjunto arqueológico, e as escavações ainda prosseguem.
 

A Ponte - Aqueduto 

Construída pelos Romanos obre o Oued Sbeïtla (Wādī Subayţilah) no século III, sob o reinado de Diocleciano.

Fica a Noroeste de Sbeïtla.

Uma rede de canais de água percorria a cidade, permitindo mais de 13 m3 de água por dia.


Nas planícies à volta ainda há vastos olivais, embora a água já escasseie.
 


Uma das muitas marcas e variedades - a Tunísia é o 4º produtor mundial.

Mais:


domingo, 2 de abril de 2023

Tsiigehtchic (Arctic Red River), onde a 'Dempster Highway' atravessa o rio Mackenzie, no Ártico Canadiano.


Para variar de longitudes, agora um grande salto para os Northwest Territories (NWT) do Ártico Canadiano. Não nas ilhas, mas no grande rio Mackenzie, e ao longo da panorâmica Dempster Highway.

Tsiigehtchic (="foz do rio de ferro") é uma aldeia nativa nas margens do rio Mackenzie, junto à foz do afluente Arctic Red River. É um ponto estratégico na Estrada nº 8, a Dempster Highway, a grande via do Norte até Inuvik e depois até ao Oceano Ártico.


A travessia do rio em Tsiigehtchic ainda se faz por ferry.

A população nativa da região é o povo Gwich'in, que pertence à família Atabascana (Cree, Navajo, Apache), e tem ainda hábitos tradicionais de caçador-colector, para o que recorre sobretudo a armadilhas.

Durante o encontro anual Gwich'in. 

O primeiro contacto dos Europeus com os Gwich'in aconteceu em 1825, quando foram encontrados pelo oficial e explorador britânico John Franklin (sim, o mesmo que sofreria um trágico naufrágio numa expedição posterior). E durante 150 anos, negociantes de peles, missionários, prospectores e aventureiros foram chegando.


A aldeia foi fundada em  1868 em torno de uma Missão católica , e algums anos depois, em 1902, a Companhia Hudson Bay Co. instalou um dos seus entrepostos em Arctic Red River.


Tsiigehtchic (Arctic Red River), NWT Canada
Coordenadas: 67° 26′N, 133° 44′W
                     (165 km a Norte do Círculo Polar Ártico)

População: ~170

Situada na confluência de dois rios, alcandorada numa elevação sobre as margens, Tsiigehtchic é notável pela seu enquadramento.

A Missão original de 1895-1896 já constava de duas igrejas frente a frente. A actual Igreja e Capela são reconstruções recentes da década de 1920.



Tem havido trabalhos continuados de renovação para evitar a degradação.




Vista do centro: a Casa Comunal é o edifício azul ao centro; à direita, atrás da Igreja, a loja Northern.

'Tsii' tem posto de Correios, Escola, Pavilhão Desportivo, Serviços Administrativos e Loja multiusos. O pequeno Centro de Saúde tem uma enfermeira itinerante que permanece durante o Inverno.

O comércio local está concentrado no armazém Northern.

A loja Trapper's e o posto de Correio também lá funcionam.

Compraram gelados 'picolé' na Trapper's Store.

Sãp pouco mais de 170 habitantes, que mantèm a tradição de pesca e caça com armadilhas. Muitos saem da aldeia à procura de víveres, por longos meses, "out in the lands" ('aí por essas terras'), como sempre fizeram.

Unidade básica de Saúde.

A Escola 'Chefe Paul Niditchie'.

Os alunos saem frequentemente da Escola para aprenderem técnicas de sobrevivência na natureza, com fazer um fogo, construir um abrigo ou  caçar.

A sede administrativa tribal Gwich'in .

Um ancião Gwich'in durante uma festa tradicional.

A região cobre-se de gelo no Inverno. Ruas e estrada são então pistas para motoneves e a travessia do rio é possível para veículos ligeiros.

A travessia de ferry do rio Mackenzie

A estrada não chega a Tsiigehtchic mas sim à margem oposta do Arctic Red River. Só raramente há ligação de ferry à aldeia.

Ferry MV Louis Cardinal, de1972


Darcy Firth, o primeiro piloto de ferry Gwich'in. "Vale pela paisagem e por ver gente nova todos os dias; não há melhor que as vistas do meu gabinete".


No Inverno não há ferry, uma sólida placa de gelo cobre o rio permitindo a travessia rápida; então, a capital Inuvik está só a duas horas de viagem.

The Dempster Highway ( ou NWT Highway 8)

A Dempster Highway prolonga-se por 740 km de terra batida, e alcança o Oceano Ártico depois de atravessar o Yukon, o Círculo Polar e oferecer paisagens únicas de espaços remotos, abertos e vastos.





Quando a estrada cruza o Círculo Polar Ártico.



No troço final, a serpentear pelo delta do Mackenzie.

Termina em Tuktoyaktuk, junto ao Oceano Ártico.